{"id":47278,"date":"2025-10-03T01:24:15","date_gmt":"2025-10-03T04:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/como-um-documentario-sobre-george-orwell-se-tornou-o-filme-mais-assustador-de-2025\/"},"modified":"2025-10-03T01:24:15","modified_gmt":"2025-10-03T04:24:15","slug":"como-um-documentario-sobre-george-orwell-se-tornou-o-filme-mais-assustador-de-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/como-um-documentario-sobre-george-orwell-se-tornou-o-filme-mais-assustador-de-2025\/","title":{"rendered":"Como um document\u00e1rio sobre George Orwell se tornou o filme mais assustador de 2025?"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Quando tinha 19 anos, ainda a \u00e9ons dos ensaios, dos romances e do pseud\u00f4nimo que lhe garantiriam a imortalidade liter\u00e1ria, <strong>Eric Arthur Blair<\/strong> foi para o leste e se juntou \u00e0 Pol\u00edcia Imperial Indiana na Birm\u00e2nia. O pa\u00eds ainda estava sob o dom\u00ednio colonial brit\u00e2nico \u2014 \u201cum posto avan\u00e7ado do imp\u00e9rio\u201d \u2014 e o jovem foi destacado para v\u00e1rias cidades em Rangum e arredores.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que <strong>Blair<\/strong> come\u00e7ou a notar como as autoridades dentro desse territ\u00f3rio ocupado operavam com o objetivo expresso de manter a supremacia cultural e a popula\u00e7\u00e3o nativa sob o controle de Sua Majestade. Ele n\u00e3o apenas passou a desprezar a viol\u00eancia que ele e seus colegas policiais perpetravam, mas tamb\u00e9m a reconhecer que<em> \u201cpara odiar o imperialismo, voc\u00ea precisa fazer parte dele. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer parte de tal sistema sem reconhec\u00ea-lo como uma tirania injustific\u00e1vel.\u201d<\/em> Diferente da Inglaterra, n\u00e3o havia classe alta e classe baixa. Havia apenas os opressores e os oprimidos.<\/p>\n<p>Com o v\u00e9u bruscamente retirado de seus olhos, <strong>Blair<\/strong> acabou por deixar o servi\u00e7o. Ele publicaria um livro baseado em suas experi\u00eancias como parte da \u201cmaquinaria real do despotismo\u201d, intitulado <strong><i>Dias na Birm\u00e2nia<\/i><\/strong>. Entre essa obra de fic\u00e7\u00e3o e o jornalismo gonzo de <strong><i>Na Pior em Paris e Londres<\/i><\/strong>, no qual detalhou um experimento em primeira pessoa na pobreza extrema, o ex-policial come\u00e7ava a fazer um nome para si como escritor. Ou melhor, um pseud\u00f4nimo para si, dado que <strong>Blair<\/strong> adotou um novo nome ao se tornar um homem das letras: <strong>George Orwell<\/strong>.<\/p>\n<p><strong><i>Orwell: 2+2=5<\/i><\/strong>, de <strong>Raoul Peck<\/strong>, dedica um tempo de tela breve, mas crucial, a este cap\u00edtulo da vida do autor, preenchendo as cenas com fotos desbotadas e a prosa de <strong>Orwell<\/strong> sendo lida na trilha sonora por <strong>Damian Lewis<\/strong>. (O not\u00e1vel cineasta discorda que essas faixas de \u00e1udio sejam chamadas de narra\u00e7\u00f5es, o que sugere simplesmente algu\u00e9m fornecendo narra\u00e7\u00e3o \u00fatil para os eventos; <strong>Peck<\/strong> prefere descrev\u00ea-las como \u201catua\u00e7\u00f5es\u201d, e, assim como o trabalho semelhante de<strong> Samuel L. Jackson<\/strong> em <strong><i>Eu N\u00e3o Sou Seu Negro<\/i><\/strong>, de 2016, a interpreta\u00e7\u00e3o de voz rouca de <strong>Lewis<\/strong> dos escritos de <strong>Orwell<\/strong> \u00e9 menos uma recita\u00e7\u00e3o e mais uma encarna\u00e7\u00e3o.) \u00c9 apresentado como um momento crucial na vida de seu sujeito e recebe o tratamento de \u201cDocument\u00e1rio B\u00e1sico\u201d, um dos v\u00e1rios marcos que o filme usa para demarcar territ\u00f3rio. Foi aqui que <strong>Orwell<\/strong> se radicalizou pela empatia, aproximando-se um passo de se tornar um cronista afiado da mis\u00e9ria, da humanidade e de sua era.<\/p>\n<p>Existe uma vers\u00e3o \u201cpadr\u00e3o\u201d deste retrato de um artista onde, com este item da lista de eventos-chave marcado, o filme simplesmente avan\u00e7aria na linha do tempo. Mas ent\u00e3o <strong>Peck<\/strong> come\u00e7a a entrela\u00e7ar cenas de conflito da Mianmar moderna, que retratam dissidentes espancados e detidos, propaganda alimentando indigna\u00e7\u00e3o e caos, o discurso duplo do governo sendo usado para justificar a \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 um dos v\u00e1rios termos que o filme identifica como eufemismos para empreendimentos muito mais sinistros e sancionados pelo Estado. O passado se funde assustadoramente com o presente. A hist\u00f3ria n\u00e3o se repete, mas muitas vezes rima. Sempre estivemos em guerra com a Lest\u00e1sia.<\/p>\n<p>Logo, outros pontos de conflito, zonas de guerra e momentos hist\u00f3ricos sombrios come\u00e7am a se entrela\u00e7ar no filme: Ucr\u00e2nia, Gaza, 6 de janeiro. L\u00edderes contempor\u00e2neos e regimes totalit\u00e1rios ainda em andamento se chocam com as caricaturas de <strong>Ralph Steadman<\/strong> para uma edi\u00e7\u00e3o de <em><strong>A Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos<\/strong><\/em>, o segundo livro mais famoso de <strong>Orwell<\/strong>, e clipes de tr\u00eas adapta\u00e7\u00f5es diferentes de <em><strong>1984<\/strong><\/em>, sua obra mais famosa. Usando os slogans do Minist\u00e9rio da Verdade daquele romance \u2014 <em><strong>Guerra \u00e9 Paz<\/strong><\/em>, <em><strong>Liberdade \u00e9 Escravid\u00e3o<\/strong><\/em>, <em><strong>Ignor\u00e2ncia \u00e9 For\u00e7a<\/strong> <\/em>\u2014 como cabe\u00e7alhos de cap\u00edtulos, <strong>Peck<\/strong> come\u00e7a a exibir montagens de jornalistas sendo presos, bilion\u00e1rios desfilando e exercendo poder, exemplos das maneiras pelas quais a m\u00eddia se tornou enfraquecida e monopolizada, a realidade foi sequestrada e distorcida. <em>\u201cO pr\u00f3prio conceito de verdade objetiva est\u00e1 desaparecendo deste mundo\u201d<\/em>, escreveu o autor, e o fato de ele ter registrado esse pensamento em 1946 em seu ensaio <em><strong>Por que Escrevo<\/strong> <\/em>\u00e9 ao mesmo tempo, s\u00f3brio e nauseante. N\u00e3o precisamos nos perguntar o que <strong>Orwell<\/strong> pensaria do nosso mundo hoje. Ele j\u00e1 escreveu detalhadamente sobre isso.<\/p>\n<p>Torna-se imediatamente aparente que <strong><i>Orwell: 2+2=5<\/i><\/strong> \u2014 o pr\u00f3prio subt\u00edtulo atestando a distor\u00e7\u00e3o dos fatos e a quebra de vontades \u2014 n\u00e3o \u00e9 apenas sobre uma figura liter\u00e1ria do s\u00e9culo XX. <span class=\"citation-2\">\u00c9 tamb\u00e9m sobre o autoritarismo do s\u00e9culo XXI, apresentado da mesma forma muralista e de \u201cligar os pontos\u201d com a qual <strong>Peck<\/strong> construiu seu monumental document\u00e1rio de 2021 sobre o colonialismo, <\/span><strong><i><span class=\"citation-2\">Extermine Todos os Brutos<\/span><\/i><\/strong><span class=\"citation-2 citation-end-2\">.<\/span> Se parece um filme dif\u00edcil de assistir, o equivalente a <strong><i>\u201cDoomscrolling\u201d: O Filme<\/i><\/strong>, de fato \u00e9. Mas tamb\u00e9m \u00e9 um testamento de que <strong>Orwell<\/strong> n\u00e3o estava apenas escrevendo sobre sua \u00e9poca ou abordando injusti\u00e7as tempor\u00e1rias. O autor entendia como o poder funciona, e at\u00e9 onde pessoas, classes, partidos pol\u00edticos e ditadores iriam para mant\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>Peck<\/strong> h\u00e1 muito tempo cria fic\u00e7\u00f5es, document\u00e1rios e docudramas impec\u00e1veis e politicamente carregados. Com esta mais recente obra-prima, o cineasta haitiano nos deu n\u00e3o apenas um olhar inestim\u00e1vel e conclusivo sobre o nosso momento presente, mas, de longe, o filme mais assustador de 2025. Ele termina observando a necessidade de a\u00e7\u00f5es coletivas, mencionando os protestos do BLM e a participa\u00e7\u00e3o no funeral de <strong>Alexei Navalny<\/strong> como um sinal de desafio diante da tirania. No entanto, o filme \u00e9 inteligente o suficiente para n\u00e3o sugerir um otimismo f\u00e1cil ou oferecer falsa esperan\u00e7a. Ainda assim, quando ele repete aquela foto de <strong>Orwell<\/strong> e sua bab\u00e1 indiana, ele lhe d\u00e1 um claro senso de como o beb\u00ea nos bra\u00e7os daquela mulher passaria sua vida lutando contra mar\u00e9s de indiferen\u00e7a e enfatizando a empatia como uma necessidade, n\u00e3o um luxo. O escritor se inspirou a combater sua cumplicidade em um sistema corrupto. O filme inspira voc\u00ea a fazer o mesmo.<\/p>\n<p><iframe title=\"ORWELL: 2+2=5 | Official Trailer\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_FTTkl2TShU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M: \u2018Depois da Ca\u00e7ada\u2019, \u2018Hamnet\u2019 e mais destaques internacionais no Festival do Rio 2025<\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/como-um-documentario-sobre-george-orwell-se-tornou-o-filme-mais-assustador-de-2025\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando tinha 19 anos, ainda a \u00e9ons dos ensaios, dos romances e do pseud\u00f4nimo que lhe garantiriam a imortalidade liter\u00e1ria, Eric Arthur Blair foi para o leste e se juntou \u00e0 Pol\u00edcia Imperial Indiana na Birm\u00e2nia. 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