{"id":46442,"date":"2025-09-29T11:56:19","date_gmt":"2025-09-29T14:56:19","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/anemone-e-mais-do-que-apenas-o-retorno-de-daniel-day-lewis\/"},"modified":"2025-09-29T11:56:19","modified_gmt":"2025-09-29T14:56:19","slug":"anemone-e-mais-do-que-apenas-o-retorno-de-daniel-day-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/anemone-e-mais-do-que-apenas-o-retorno-de-daniel-day-lewis\/","title":{"rendered":"\u2018Anemone\u2019 \u00e9 mais do que apenas o retorno de Daniel Day-Lewis"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Voc\u00ea o ouve antes de v\u00ea-lo. Primeiro, aparecem desenhos infantis de soldados e conflitos, bandeiras irlandesas, pubs em chamas e corpos separados de seus membros. Em seguida, surge uma paisagem campestre, um retrato da natureza que seria id\u00edlico, n\u00e3o fosse o c\u00e9u cinza amea\u00e7ador. Uma tempestade n\u00e3o muito distante est\u00e1 claramente se formando. H\u00e1 sil\u00eancio. E ent\u00e3o, o som de um trabalho \u00e1rduo. Vemos um vislumbre de uma figura curvada e musculosa, de costas para a c\u00e2mera. Ele parece estar arrancando ra\u00edzes de algo no solo pedregoso \u2014 um gesto que se tornar\u00e1 muito mais simb\u00f3lico \u00e0 medida que a hist\u00f3ria avan\u00e7a. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar em outro homem misterioso, aparentemente em guerra com a pr\u00f3pria terra. Seu rosto permanece oculto. Ainda assim, ele parece familiar.<\/p>\n<p><em><strong>Anemone<\/strong><\/em>, a estreia em longa-metragem do escritor, artista e cineasta <strong>Ronan Day-Lewis<\/strong>, ser\u00e1 celebrada, antes de tudo, como o retorno de <strong>Daniel Day-Lewis<\/strong> \u2014 vencedor do <strong>Oscar<\/strong>, lenda absoluta da atua\u00e7\u00e3o, o ep\u00edtome da dedica\u00e7\u00e3o ao of\u00edcio \u2014 quase uma d\u00e9cada ap\u00f3s anunciar que havia deixado para tr\u00e1s o \u201candar e esbravejar\u201d dos palcos. (O filme estreou no \u00faltimo domingo, 28, no <strong>Festival de Cinema de Nova York<\/strong> e ainda n\u00e3o tem previs\u00e3o de estreia nos cinemas brasileiros.)<\/p>\n<p>\u201cA gente s\u00f3 d\u00e1 valor quando perde\u201d, como dizem, e assistir ao veterano <strong>Day-Lewis<\/strong> interpretar <strong>Ray Stoker<\/strong>, um ex-soldado brit\u00e2nico vivendo em ex\u00edlio autoimposto, exemplifica por que sua aus\u00eancia deixou o cinema um pouco mais pobre. Aquela alquimia particular \u2014 em que a combina\u00e7\u00e3o de um certo int\u00e9rprete e uma c\u00e2mera cria tanto um \u201cmomento\u201d quanto algo muito al\u00e9m disso \u2014 j\u00e1 est\u00e1 presente em suas primeiras apari\u00e7\u00f5es sem falas. \u00c9 um lembrete do porqu\u00ea ele \u00e9 citado com tanta admira\u00e7\u00e3o e rever\u00eancia, e de como sua reputa\u00e7\u00e3o como um dos atores mais fascinantes e camale\u00f4nicos de todos os tempos \u00e9 mais do que merecida. (Sem querer fazer um \u201cmelhores momentos\u201d, mas: todos esses pap\u00e9is foram vividos pelo mesmo ator.)<\/p>\n<p>Ainda assim, a tenta\u00e7\u00e3o de tratar esse olhar extraordin\u00e1rio sobre como legados de dor reverberam por meio de gera\u00e7\u00f5es apenas como uma vitrine para a formid\u00e1vel disciplina e talento da estrela precisa ser deixada de lado, pois isso seria diminuir o pr\u00f3prio filme. <em><strong>Anemone<\/strong><\/em> \u00e9 tanto uma introdu\u00e7\u00e3o a um artista quanto uma reintrodu\u00e7\u00e3o a uma presen\u00e7a ausente das telas. E mesmo quando se aproxima daquele territ\u00f3rio de \u201cest\u00e9tica de cinema de arte\u201d que pode provocar revirar de olhos, esta explora\u00e7\u00e3o do que se esconde nos sil\u00eancios entre la\u00e7os de sangue \u2014 e da dificuldade de superar as pr\u00f3prias trag\u00e9dias do passado \u2014 faz voc\u00ea sentir que est\u00e1 assistindo a algo verdadeiramente \u00fanico. \u00c9 o trabalho de um jovem cineasta. Mas tamb\u00e9m \u00e9, muito claramente, a obra de um verdadeiro cineasta, repleto de criatividade e refinando sua vis\u00e3o em tempo real. Para citar outro membro dessa fam\u00edlia de cin\u00e9filos: \u00e9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o, ironicamente, \u00e9 a \u00faltima coisa que <strong>Ray<\/strong> deseja. Ele vive em solit\u00e1ria autossufici\u00eancia nas florestas do norte da Inglaterra h\u00e1 d\u00e9cadas, cuidando de feridas ps\u00edquicas. Cham\u00e1-lo de estoico seria pouco. Ele n\u00e3o est\u00e1 geograficamente distante da civiliza\u00e7\u00e3o, mas bem poderia estar a milhares de anos-luz, e voc\u00ea se pergunta quanto tempo faz desde que ele trocou mais que poucas palavras com outro ser humano. <strong>Ray<\/strong> n\u00e3o tem contato com a fam\u00edlia h\u00e1 eras, mas isso est\u00e1 prestes a mudar. Seu irm\u00e3o, <strong>Jem<\/strong> (<strong>Sean Bean<\/strong>), ajudou a criar <strong>Brian<\/strong> (<strong>Samuel Bottomly<\/strong>), filho de <strong>Ray<\/strong>, como se fosse seu pr\u00f3prio filho. Mas ele est\u00e1 preocupado com o sobrinho, j\u00e1 que o jovem demonstra a mesma volatilidade e propens\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia do pai desaparecido. As feridas ensanguentadas nos n\u00f3s dos dedos de <strong>Brian<\/strong> dizem muito.<\/p>\n<p>Esse rapaz de 20 anos, assim como o pai, entrou para o ex\u00e9rcito. Houve um incidente, e agora <strong>Brian<\/strong> precisa enfrentar as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es. Mas a m\u00e3e do garoto, <strong>Nessa<\/strong> (<strong>Samantha Morton<\/strong>), acredita que talvez exista uma maneira de impedir que o filho perca completamente a alma. Essa maneira envolve <strong>Ray<\/strong>. Assim, como em um conto de fadas, <strong>Jem<\/strong> precisa se embrenhar na floresta e trazer o irm\u00e3o h\u00e1 muito afastado de volta ao conv\u00edvio. Ele tem apenas as coordenadas de latitude e longitude do paradeiro do parente, nada mais. Algum tempo depois, <strong>Ray<\/strong> est\u00e1 absorto em seu trabalho quando ouve um barulho do lado de fora da cabana. Vemos quando ele pega um machado, a c\u00e2mera fechando em sua m\u00e3o firme, pronta para a batalha. Ent\u00e3o, um estalido \u00e9 ouvido, como se algu\u00e9m batesse um c\u00f3digo. A m\u00e3o de <strong>Ray<\/strong> relaxa no cabo da arma. Ele sabe quem est\u00e1 do lado de fora.<\/p>\n<p>S\u00e3o toques econ\u00f4micos como esse, em que um simples gesto n\u00e3o verbal revela tudo, que deixam claro que h\u00e1 um contador de hist\u00f3rias silenciosamente din\u00e2mico por tr\u00e1s da c\u00e2mera. <em><strong>Anemone<\/strong><\/em> tem muitos desses enquadramentos contidos e precisos, que equilibram alguns dos floreios mais ousados e das digress\u00f5es alucinat\u00f3rias em cena; uma simples conversa entre esses irm\u00e3os combativos pode dar lugar \u00e0 imagem de uma mulher angelical brilhante flutuando sobre a cama de <strong>Ray<\/strong>, ou \u00e0 apari\u00e7\u00e3o de uma criatura de pesco\u00e7o alongado, rosto humano e um min\u00fasculo p\u00eanis. (Ajuda saber que <strong>Ronan<\/strong> tamb\u00e9m \u00e9 pintor e escultor, e que essa criatura enigm\u00e1tica tem liga\u00e7\u00e3o com trabalhos anteriores dele.) O que come\u00e7a como realismo cru de \u201cpia de cozinha\u201d pode de repente se transformar em hiper-realismo \u00e0 la <strong>David Lynch<\/strong>, e a mistura particular de <em><strong>Anemone<\/strong><\/em> \u2014 parte pe\u00e7a de dois personagens a <strong>Samuel Beckett<\/strong>, parte drama de trauma, parte instala\u00e7\u00e3o que explora a masculinidade como uma pris\u00e3o de m\u00faltiplas celas \u2014 corre o risco de afastar tantos espectadores quanto impressiona.<\/p>\n<p><iframe title=\"ANEMONE - Official Trailer 2 [HD] - Only in Theaters October 3\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uS7DHGFXkNY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Nenhuma das categorias mencionadas acima costuma incluir, como pe\u00e7a central, uma anedota arrebatadora envolvendo um agressor, um confronto e a s\u00fabita expuls\u00e3o de v\u00e1rias refei\u00e7\u00f5es de curry com <strong>Guinness<\/strong>. Mas acredite quando dizemos que a vers\u00e3o de <strong>Daniel Day-Lewis<\/strong> dessa hist\u00f3ria de vingan\u00e7a escatol\u00f3gica \u00e9, por si s\u00f3, uma aula magistral de mon\u00f3logo. \u00c9 hilariante, horr\u00edvel e soa como uma sinfonia de su\u00edtes igualmente profanas. Pai e filho dividem os cr\u00e9ditos de roteiro do filme e, embora o veterano <strong>Day-Lewis<\/strong> tenha aparentemente improvisado essa lembran\u00e7a de defeca\u00e7\u00e3o \u00e9pica durante suas conversas \u2014 pode-se dizer que simplesmente explodiu de seu subconsciente como um g\u00eaiser \u2014, o momento revela uma colabora\u00e7\u00e3o t\u00e3o afinada que tudo permanece coerente com o personagem e em perfeita sintonia com o restante da obra. <strong>Ronan<\/strong> pode ter libertado o kraken ao permitir que seu protagonista explorasse um terreno t\u00e3o indomado \u00e0 vontade, mas prepara o filme para acomodar tanto express\u00f5es silenciosas quanto arroubos estratosf\u00e9ricos. A atua\u00e7\u00e3o central nunca eclipsa o filme: ela parece contida em algo que se expande e se contrai conforme necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Vale dizer que o restante do elenco \u2014 sim, os que n\u00e3o se chamam <strong>Daniel Day-Lewis<\/strong> \u2014 est\u00e1 igualmente afiado. <strong>Sean Bean<\/strong> funciona como \u00e2ncora e parceiro de embate \u00e0 altura de seu colega. Como a exausta esposa de <strong>Ray<\/strong>, <strong>Samantha Morton<\/strong> prova mais uma vez ser uma \u201catriz de seis polegadas\u201d \u2014 isto \u00e9, basta colocar a c\u00e2mera a quinze cent\u00edmetros de seu rosto e ela entrega uma performance completa de ponta a ponta em um \u00fanico close. Voc\u00ea sente que conhece essa mulher, apesar do pouco tempo em cena e de ainda menos falas. <strong>Bottomley<\/strong> trouxe profundidade ao personagem de moral duvidosa no perturbador filme de amadurecimento <em><strong>How to Have Sex<\/strong><\/em> (2023), de <strong>Molly Manning<\/strong> <strong>Walker<\/strong>, e faz o mesmo aqui com o jovem fechado em risco de sucumbir \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E, naturalmente, \u00e9 imposs\u00edvel esquecer que <strong>Ray<\/strong> \u00e9 o personagem no centro de tudo \u2014 aquele que, como a flor que d\u00e1 nome a <em><strong>Anemone<\/strong><\/em>, fecha suas p\u00e9talas quando a tempestade se aproxima. A entrega radical de <strong>Day-Lewis<\/strong> a esse homem dilacerado garante que seus tormentos deem ao filme uma qualidade de bomba-rel\u00f3gio, e seu olhar final, um estado de gra\u00e7a. Mesmo quem possa criticar a estreia de dire\u00e7\u00e3o por, \u00e0s vezes, ceder \u00e0 ansiedade da influ\u00eancia, reconhecer\u00e1 a fa\u00e7anha que ela representa. Esque\u00e7a, por um momento, que isso pode ser tanto um extraordin\u00e1rio ponto fora da curva para o lend\u00e1rio ator quanto o in\u00edcio de um novo e f\u00e9rtil cap\u00edtulo. Encare mais como o produto de dois artistas, de gera\u00e7\u00f5es diferentes, que encontraram um terreno comum e fizeram brotar dali algo extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Timoth\u00e9e Chalamet, indicado ao Oscar, cita Daniel Day-Lewis como inspira\u00e7\u00e3o para atingir \u2018excel\u00eancia\u2019<\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/anemone-e-mais-do-que-apenas-o-retorno-de-daniel-day-lewis\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea o ouve antes de v\u00ea-lo. 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