{"id":46188,"date":"2025-09-27T10:06:21","date_gmt":"2025-09-27T13:06:21","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/como-2024-se-tornou-o-ano-da-musica-brasileira-nos-samples\/"},"modified":"2025-09-27T10:06:21","modified_gmt":"2025-09-27T13:06:21","slug":"como-2024-se-tornou-o-ano-da-musica-brasileira-nos-samples","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/como-2024-se-tornou-o-ano-da-musica-brasileira-nos-samples\/","title":{"rendered":"Como 2024 se tornou o ano da m\u00fasica brasileira nos samples"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Sample, uma palavra em ingl\u00eas para \u201camostra\u201d, no universo da m\u00fasica, \u00e9 um recorte feito a partir de uma grava\u00e7\u00e3o original que passa a integrar uma nova grava\u00e7\u00e3o. Quando produzimos uma m\u00fasica podemos fazer o uso do sample, escolhendo o trecho da m\u00fasica, recortando-o e inserindo na nova grava\u00e7\u00e3o como uma cita\u00e7\u00e3o, como base instrumental ou mesmo como parte de uma can\u00e7\u00e3o. Gosto de usar a faixa \u201c<strong>Mara<\/strong>\u201d, de <strong>Luedji Luna<\/strong>, produzida por ela, <strong>Kato Change<\/strong> e por esse que vos escreve. No final da can\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ouvir a voz de <strong>Milton Nascimento<\/strong>. <strong>Milton<\/strong> n\u00e3o estava presente na grava\u00e7\u00e3o atual, ali \u00e9 um sample, um recorte extra\u00eddo da m\u00fasica \u201c<strong>Beijo Partido<\/strong>\u201d, de <strong>Toninho Horta<\/strong>, gravado pelo cantor no \u00e1lbum <em><strong>Minas<\/strong><\/em> (1972).<\/p>\n<p>O sample sempre carrega uma hist\u00f3ria pr\u00f3pria: \u00e9 como uma fotografia musical, com seu cen\u00e1rio, ilumina\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o de arte, figurino e personagens particulares. A mera cita\u00e7\u00e3o de um sample, como fiz acima, convoca-nos a pensar sobre quem s\u00e3o os int\u00e9rpretes, compositores, artistas, m\u00fasicos, engenheiros de som, produtores e todo ecossistema de uma grava\u00e7\u00e3o. Para os ouvidos, curioso como os meus e atentos, o sample \u00e9 sempre um convite a mergulhar fundo na m\u00fasica.<\/p>\n<p>2024 foi considerado o ano dos samples brasileiros nas produ\u00e7\u00f5es internacionais, mas a verdade \u00e9 que, desde que os produtores come\u00e7aram a escavar os \u00e1lbuns brasileiros, n\u00e3o pararam mais.<\/p>\n<p>S\u00f3 a vers\u00e3o de \u201c<strong>Garota de Ipanema<\/strong>\u201d, de <strong>Astrud Gilberto<\/strong> com <strong>Stan Getz<\/strong>, de 1964, j\u00e1 serviu de molho para <strong>Bad Bunny<\/strong>, maior artista latino do <strong>Spotify<\/strong> (em n\u00fameros), em 2020, com a m\u00fasica \u201c<strong>Si Veo a Tu Mama<\/strong>\u201d; serviu para <strong>SZA<\/strong> em \u201c<strong>BMF<\/strong>\u201d em 2024 e mais outras 12 faixas lan\u00e7adas desde os anos 1990 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 de velhos cl\u00e1ssicos eles se alimentam, e um sample do funk \u201c<strong>Aquecimento das Danadas<\/strong>\u201d, de <strong>O Mandrake<\/strong>. <strong>Charopinho Dj<\/strong>, ajudou <strong>Beyonc\u00e9<\/strong> a conquistar o in\u00e9dito <strong>Grammy<\/strong>\u00a0de <em>Melhor \u00c1lbum do Ano<\/em> com <em><strong>Cowboy Carter<\/strong><\/em> (2024). A faixa aparece sampleada em \u201c<strong>Spaghetti<\/strong>\u201d. Al\u00e9m da Queen B, outros artistas tamb\u00e9m escavaram samples na produ\u00e7\u00e3o do funk nacional.<\/p>\n<p>No \u00e1lbum de estreia da dupla <strong>Kanye West<\/strong> e <strong>Ty Dolla Sign<\/strong>, <em><strong>Vultures<\/strong><\/em>, de 2024, encontramos um sample do funk \u201c<strong>Faz Macete 3.0<\/strong>\u201d na faixa \u201c<strong>PAPERWORK<\/strong>\u201d. Nesse mesmo \u00e1lbum colaboram como produtores <strong>Vitinho BDP<\/strong>, produtor da faixa original, como tamb\u00e9m <strong>JPEGMafia<\/strong>, famoso DJ de NY que tamb\u00e9m se encantou pelo funk e na faixa \u201c<strong>Its\u2019 Dark and Hell Is Hot<\/strong>\u201d, sampleou \u201c<strong>Upa Upa Pocot\u00f3 X 170bpm<\/strong>\u201d, de <strong>DJ RaMeMes<\/strong>.<\/p>\n<p>Outra faixa que n\u00e3o sai das MPCs (instrumento usado para samplear) \u00e9 \u201c<strong>Onda<\/strong>\u201c, de <strong>Cassiano<\/strong>. Ano passado, 2024, o franc\u00eas <strong>Folie\u2019s<\/strong> a usou em \u201cBAD!\u201d. Mas <strong>NxWorries<\/strong> j\u00e1 a tinha sampleado em 2015 em \u201c<strong>Link Up<\/strong>\u201d feat. <strong>Anderson .Paak<\/strong>\u00a0e em 1977, o trompetista <strong>Fred Hubbard<\/strong>, n\u00e3o bem sampleou, mas regravou as mesmas linhas de guitarra originais da faixa \u201cFrom Now On\u201d, de <strong>Cassiano<\/strong>, em 1976. Acredito que, al\u00e9m da voz de <strong>Cassiano<\/strong>, o que chama a aten\u00e7\u00e3o nesse cl\u00e1ssico do Soul brasileiro \u00e9 tamb\u00e9m a linha de baixo de <strong>Paulo C\u00e9sar Barros<\/strong>, que d\u00e1 todo balan\u00e7o, junto da bateria. <strong>Cassiano<\/strong> tamb\u00e9m aparece no lan\u00e7amento de 2024, de <strong>J. Cole<\/strong>, \u201c<strong>A Plate of Collard Greens<\/strong>\u201d no sample da faixa \u201c<strong>Casti\u00e7al<\/strong>\u201d de seu \u00e1lbum <em><strong>Apresentamos Nosso Cassiano<\/strong><\/em>, de 1973.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m com forte produ\u00e7\u00e3o nos anos 1970, <strong>Ivan Lins<\/strong> \u00e9 um artista muito querido l\u00e1 fora antes mesmo do epis\u00f3dio em que recusou a proposta de <strong>Quincy Jones<\/strong> para ceder a m\u00fasica \u201c<strong>Novo Tempo<\/strong>\u201d para o \u00e1lbum mais vendido da hist\u00f3ria, <em><strong>Thriller<\/strong><\/em>, de <strong>Michael Jackson<\/strong>. Em 2024, <strong>Common<\/strong> e <strong>Pete Rock<\/strong> lan\u00e7aram \u201c<strong>Fortunate<\/strong>\u201d e, nela, ouvimos o sample de \u201c<strong>Guarde nos Olhos<\/strong>\u201d, de 1978, de <strong>Ivan Lins<\/strong>. Abrindo esse portal e ouvindo a original, encontramos na mesma faixa um lindo solo de gaita de <strong>Maur\u00edcio Einhorn<\/strong>. Outro sample brasileiro, tamb\u00e9m presente no \u00e1lbum <em><strong>The Auditorium<\/strong><\/em>, de <strong>Rock<\/strong> e <strong>Common<\/strong>, por\u00e9m cantado em ingl\u00eas, aparece na faixa \u201c<strong>Everything\u2019s So Grand<\/strong>\u201d com a voz de <strong>Maria Beth\u00e2nia<\/strong>, interpretando a m\u00fasica \u201c<strong>What\u2019s New<\/strong>\u201d, em seu disco <em><strong>A Tua Presen\u00e7a<\/strong><\/em>, de 1971.<\/p>\n<p><iframe title=\"Common, Pete Rock - Fortunate\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aIljfT0XOwM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Al\u00e9m de <strong>Ivan<\/strong>, outro muito querido \u00e9 Luiz Bonf\u00e1, sampleado mais de cem vezes em diversos trabalhos, desde os anos noventa at\u00e9 hoje em dia. O sample de sua m\u00fasica instrumental \u201c<strong>Seville<\/strong>\u201d usado por <strong>Gotye<\/strong> em \u201c<strong>Somebody That I Used To Know<\/strong>\u201d, rendeu, ao mesmo, o primeiro lugar no top das paradas de mais de 30 pa\u00edses e o <strong>Grammy<\/strong> de <em>M\u00fasica do Ano<\/em>, em 2013. A mesma faixa tamb\u00e9m foi sampleada por outra vencedora do <strong>Grammy<\/strong>, <strong>Doechii<\/strong>, na faixa \u201c<strong>Anxiety<\/strong>\u201d, de 2025 ano e j\u00e1 lhe rendeu o top 10 de mais de sessenta paradas.<\/p>\n<p>A lista se estende entre artistas de variados g\u00eaneros musicais e pa\u00edses, n\u00e3o se restringindo aos Estados Unidos apenas. Nossa produ\u00e7\u00e3o fonogr\u00e1fica, via sample, est\u00e1 em todos os continentes do planeta e \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia que sempre foi a nossa m\u00fasica.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo o mundo est\u00e1 olhando e valorizando a produ\u00e7\u00e3o daqui, a hist\u00f3ria daqui, nossos cl\u00e1ssicos que fundaram e abriram caminho para a m\u00fasica brasileira que ganha o mundo. Seja MPB, samba, soul, funk 150bpm, mandel\u00e3o ou tamborz\u00e3o, nossa criatividade \u00e9 talvez o que desperta tanto interesse em quem olha de fora para nossa m\u00fasica.<\/p>\n<p>Importante que esse olhar de fora para dentro que, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 valorizado, como tamb\u00e9m funciona como uma chancela para o que \u00e9 a \u201cm\u00fasica boa\u201d, passe tamb\u00e9m a vigorar de dentro para dentro, entre n\u00f3s e que artistas nacionais passem a ser valorizados por seus legados, ainda em vida.<\/p>\n<p>A m\u00fasica negra do Brasil e do mundo n\u00e3o seria a mesma sem a exist\u00eancia de <strong>Cassiano<\/strong>, t\u00e3o celebrado nos samples. No entanto, o artista nos deixou em 2021, sem figurar em nenhum festival, sem ter surfado no hype da pulveriza\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica via samples, fora esquecido durante uma d\u00e9cada inteira, praticamente nos anos 1990 e morreu em um hospital p\u00fablico, no sub\u00farbio do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Que outros artistas celebrados pela cultura do sample tenham sua import\u00e2ncia reconhecida ainda em vida e que de fato essa cultura sirva mais do que um suporte musical, que seja um portal para visitarmos a fundo e reverenciarmos a obra de quem pavimentou o caminho que podemos trilhar hoje livremente.<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: 4 cl\u00e1ssicos da m\u00fasica que s\u00e3o covers e voc\u00ea (provavelmente) n\u00e3o sabia<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Gated Reverb: O \u2018erro\u2019 de est\u00fadio que originou o som dos anos 1980<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Kendrick e Tupac: uma mesma gl\u00f3ria, caminhos diferentes<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Chorando Can\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Memes, M\u00fasica e Voz: mais antigo que a internet, mais antigo que a pr\u00f3pria m\u00fasica<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: A Lata de Manteiga, O G\u00eanio e o Samba<\/strong><\/p>\n<div class=\"author-box clearfix mb-4\">\n<div class=\"d-flex align-items-center\">\n<div class=\"author-avatar\">\n        &#13;<br \/>\n          \n      <\/div>\n<div class=\"author-info ms-3\">\n<p>\u00c9 produtor, compositor, gaitista, membro da Latin Grammy Academy, autodeclarado nerd sonoro, gosta de mergulhar no abissal dos \u00e1lbuns e trazer hist\u00f3rias para suas produ\u00e7\u00f5es, para superf\u00edcie, junto com alguns peixes, quando o rio t\u00e1 bom pra pesca: sua outra paix\u00e3o.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/como-2024-se-tornou-o-ano-da-musica-brasileira-nos-samples\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sample, uma palavra em ingl\u00eas para \u201camostra\u201d, no universo da m\u00fasica, \u00e9 um recorte feito a partir de uma grava\u00e7\u00e3o original que passa a integrar uma nova grava\u00e7\u00e3o. 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