{"id":43725,"date":"2025-09-14T15:44:14","date_gmt":"2025-09-14T18:44:14","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/mais-antigo-que-a-internet-e-a-propria-musica\/"},"modified":"2025-09-14T15:44:14","modified_gmt":"2025-09-14T18:44:14","slug":"mais-antigo-que-a-internet-e-a-propria-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/mais-antigo-que-a-internet-e-a-propria-musica\/","title":{"rendered":"mais antigo que a internet e a pr\u00f3pria m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Acredito que vimos os memes surgirem e se acomodarem ao nosso vocabul\u00e1rio, mas eles j\u00e1 estavam impregnados em nossa cultura desde tempos remotos, e nos contam sobre nosso car\u00e1ter evolutivo. Pasmem: h\u00e1 uma ci\u00eancia que estuda os memes e seu nome \u00e9 mem\u00e9tica. Quem inventou o termo foi <strong>Richard Dawkins<\/strong>, bi\u00f3logo brit\u00e2nico, para se referir \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, mas nos aspectos culturais. Se no aspecto biol\u00f3gico \u2014 aquele do <strong>Darwin<\/strong>\u00a0\u2014 o que define a evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie \u00e9 o gene, no aspecto cultural, nossa evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 definida pelo meme.<\/p>\n<p>Segundo <strong>Susan Blackmore<\/strong>, em seu livro <em><strong>The Meme Machine<\/strong><\/em> (\u201cA M\u00e1quina de Memes\u201d, na tradu\u00e7\u00e3o livre) meme pode ser qualquer coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade aut\u00f4noma: ideias, desenhos, habilidades, conceitos, pr\u00e9-conceitos, palavras, l\u00ednguas, receitas e tamb\u00e9m m\u00fasica.<\/p>\n<p>Uma can\u00e7\u00e3o de ninar, que sua m\u00e3e cantou para voc\u00ea e sua av\u00f3 cantou para ela, que aprendeu com sua bisa, etc., pode ser considerada um meme. Assim como aquela receita passada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, que leva horas para ficar pronta, e no auge da expectativa familiar para a sua degusta\u00e7\u00e3o tem o anticl\u00edmax inevit\u00e1vel proporcionado pelo tioz\u00e3o de humor refinado: \u00e9 pav\u00ea ou pacum\u00ea? Meme.<\/p>\n<p>Humor e m\u00fasica andam juntos desde tempos incont\u00e1veis, assim como s\u00e3o incont\u00e1veis os memes da internet feitos a partir de m\u00fasica. Ent\u00e3o vamos recortar aqui mais o assunto e falar de um tipo espec\u00edfico de meme, os que transformam m\u00fasica, onde aparentemente n\u00e3o havia nada musical ali. E isso vem sendo feito antes mesmo da internet existir.<\/p>\n<p>O ano de 1912 talvez seja um bom ponto de partida para algo que temos registro. O compositor alem\u00e3o <strong>Arnold Schoenberg<\/strong>, na pe\u00e7a <em><strong>Pierrot Lunaire<\/strong><\/em>, trouxe o Sprechstimme (\u201cvoz falada\u201d).\u00a0No espet\u00e1culo, a voz \u00e9 notada em uma partitura n\u00e3o para o canto, mas para a fala. Ou seja, o int\u00e9rprete segue as alturas e ritmos escritos, mas n\u00e3o sustenta a nota como no canto; em vez disso, desliza para cima ou para baixo, aproximando-se mais da fala. E n\u00e3o h\u00e1 um tom definido, igual nossa fala. Guarde essa informa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Na trilha de <strong>Schoenberg<\/strong>, veio o italiano <strong>Luciano Berio<\/strong>, tamb\u00e9m explorando a fala como canto, com a pe\u00e7a <em><strong>Sequenza III per voce<\/strong><\/em>, em 1965. Na pe\u00e7a ouvimos o canto, a fala e as express\u00f5es vocais, como risos, interjei\u00e7\u00f5es, em uma constante intersec\u00e7\u00e3o, como \u00e9 com nossa voz, naturalmente.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria de canto-falado na cultura popular sempre foi algo comum. Aqui no Brasil, a tradi\u00e7\u00e3o do coco, da embolada, por exemplo, para um ouvido desatento e talvez culturalmente europeizado e viciado pode parecer pouco mel\u00f3dica, mas poucos seriam capazes de cantar a L\u00edngua Grega como <strong>Bezerra da Silva<\/strong> no \u00e1lbum <em><strong>O Rei Do C\u00f4co Vol.1<\/strong><\/em>, de 1973.<\/p>\n<p><strong>Bezerra<\/strong>, pernambucano, cresceu envolto nessa atmosfera sonora do preg\u00e3o da feira, animais da natureza, emboladas, assim como outros tantos artistas geniais do Brasil, como <strong>Hermeto Pascoal<\/strong>, o ouvido mais agu\u00e7ado e sens\u00edvel que a m\u00fasica contempor\u00e2nea testemunhou, sem sombra de d\u00favida, tanto que a esses sons considerados \u201cn\u00e3o musicais\u201d que est\u00e3o \u00e0 nossa volta deu o nome de \u201c<strong>Os Sons da Aura<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Em 1970, <strong>Hermeto<\/strong>, na m\u00fasica \u201c<strong>Vel\u00f3rio<\/strong>\u201c, iria reproduzir, qual fizeram os vanguardistas <strong>Schoenberg<\/strong> e <strong>Luciano Berio<\/strong>, as texturas de vozes presentes em um vel\u00f3rio, para nos trazer essa ideia de sobreposi\u00e7\u00f5es de vozes, compondo um instrumento s\u00f3 de canto-falado e essa experi\u00eancia continuou a ter desdobramentos ao longo de sua carreira.<\/p>\n<figure id=\"attachment_258327\" aria-describedby=\"caption-attachment-258327\" style=\"width: 2560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><figcaption id=\"caption-attachment-258327\" class=\"wp-caption-text\">Airto Moreira, Flora Purim e Hermeto Pascoal em 1970 (Foto Hulton Arhive\/Getty Images)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Eu disse que era importante lembrarmos que nossa fala \u00e9 atonal, n\u00e3o possui um tom e n\u00e3o respeita uma escala musical: ela flui. E por isso mesmo, para notar as suas nuances, precisa-se de um bom ouvido. Em 1984, o m\u00fasico, utilizando-se do que h\u00e1 de mais mem\u00e9tico, gravou \u201c<strong>Tiruliruli<\/strong>\u201c. Uma musicaliza\u00e7\u00e3o a partir do bord\u00e3o de narra\u00e7\u00e3o do lend\u00e1rio locutor <strong>Osmar Santos<\/strong>, extra\u00eddo da partida entre <strong>Flamengo<\/strong> e <strong>Corinthians<\/strong>, no mesmo ano. O gol de <strong>S\u00f3crates<\/strong> rendeu uma melodia \u201ccantada\u201d pelo locutor, digna de ser transcrita e acompanhada por um harm\u00f4nio (uma esp\u00e9cie de \u00f3rg\u00e3o que funciona \u00e0 base de um fole; o som \u00e9 quase de sanfona). Futebol, narra\u00e7\u00e3o, bord\u00e3o e m\u00fasica. Tudo cultura capaz de ser reproduzida de forma aut\u00f4noma. Tudo meme!<\/p>\n<p>Outros exemplos de \u201c<strong>Sons da Aura<\/strong>\u201d\u00a0na obra de Hermeto aparecem em cima da voz do ex presidente <strong>Fernando Collor de Mello<\/strong> em \u201cPensamento Positivo\u201d, ou em cima da fala do poeta <strong>Mario Lago<\/strong>, declamando sua poesia <em><strong>Tr\u00eas Coisas<\/strong><\/em>, tamb\u00e9m em \u201c<strong>Aula de Nata\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201c, todas faixas presentes no \u00e1lbum <em><strong>Festa dos Deuses<\/strong><\/em>, de 1992.<\/p>\n<p>Na trilha dos \u201c<strong>Sons da Aura<\/strong>\u201d, <strong>Steve Reich<\/strong>, um dos mais importantes compositores da m\u00fasica minimalista, traria ao mundo <em><strong>Different Trains<\/strong><\/em>, uma obra composta pela orquestra\u00e7\u00e3o a partir de 46 depoimentos de sobreviventes ao holocausto nazista. Um ano depois, viria o guitarrista canadense <strong>Ren\u00e9 Lussier<\/strong> com o LP <em><strong>Le Tr\u00e9sor de la Langue<\/strong><\/em> (\u201cO Tesouro da L\u00edngua\u201d), explorando o sotaque e a musicalidade do idioma franc\u00eas falado em Quebec, Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Os m\u00fasicos <strong>P\u00fablio Delgado<\/strong>, <strong>Mono Neon<\/strong> e <strong>Charles Cronell<\/strong> trouxeram a experi\u00eancia do Alagoano de Arapiraca para o YouTube e memes musicais. Um tanto quanto nerds e espec\u00edficos para m\u00fasicos, devo admitir, tornaram-se globalmente conhecidos e inspiraram produ\u00e7\u00f5es por aqui, onde o \u201c<strong>Som da Aura<\/strong>\u201d encontra com uma forma de arte proveniente da cultura dos gri\u00f4s do oeste africano (membros da sociedade respons\u00e1veis por manter a mem\u00f3ria viva atrav\u00e9s da oralidade) e que desaguaria no rap. Falo aqui do <em>spokenword<\/em>, uma arte perform\u00e1tica capitaneada pelo grupo <strong>The Last Poets<\/strong>, cujo integrante <strong>Gil Scott-Heron<\/strong>\u00a0iria nos legar o hino \u201c<strong>The Revolution Will Not Be Televised<\/strong>\u201c, em 1970, referenciado durante a performance de <strong>Kendrick Lamar<\/strong> no <strong>Superbowl 2025<\/strong>. O mesmo <strong>Scott-Heron<\/strong> aparece em par\u00f3dia com o personagem <strong>Rafael do Gueto<\/strong>, em <strong>Um Maluco no Peda\u00e7o<\/strong>. Mais uma vez aqui, m\u00fasica, mem\u00f3ria, piada, cultura. Tudo meme.<\/p>\n<p>Sou testemunha do encontro dos \u201c<strong>Sons da Aura<\/strong>\u201d com o <em>spokenword<\/em>\u00a0no tempo que trabalhei como compositor para o \u00e1lbum <em><strong>Xenia<\/strong><\/em>, de 2017, de <strong>Xenia Fran\u00e7a<\/strong>, indicado ao <strong>Grammy Latino<\/strong> na categoria <em>Melhor \u00c1lbum Pop em L\u00edngua Portuguesa<\/em> no mesmo ano. Em uma das faixas, intitulada \u201c<strong>Garganta \u2013 Interl\u00fadio<\/strong>\u201d, a atriz <strong>Roberta Estrela D\u2019alva<\/strong>, uma das fundadoras do teatro hip hop no Brasil, interpreta sua poesia <strong><em>Garganta<\/em><\/strong>, musicada pelo pianista <strong>F\u00e1bio Leandro<\/strong> e pelo baterista <strong>Vitor Cabral<\/strong>.<\/p>\n<p>Esse \u00faltimo exemplo, para mim, exemplifica, a ess\u00eancia da pot\u00eancia dos memes, onde temos a cultura pop servindo como plataforma de artes a culturas existentes desde os tempos mais remotos, como a cultura mem\u00e9tica griot que se desdobra no tempo, desaguando no rap, o lastro das paradas de sucesso do s\u00e9culo XXI ou nas culturas populares que fundam a m\u00fasica brasileira, lastro para a criatividade e renova\u00e7\u00e3o musical global, como a embolada, o coco, o funk.<\/p>\n<p>Apesar de serem palavras diferentes, gosto da \u201cjusti\u00e7a po\u00e9tica\u201d que h\u00e1 na rima entre as duas palavras, gene e meme, pois h\u00e1 um prop\u00f3sito comum nelas, impl\u00edcito \u00e0 nossa sobreviv\u00eancia. Fica aqui a reflex\u00e3o: de que adiantaria seguir nossa exist\u00eancia, perpetuada por uma evolu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, se n\u00e3o pud\u00e9ssemos evoluir enquanto esp\u00edrito, atrav\u00e9s de nossas hist\u00f3rias, nossa arte, nossa cultura, nossos medos. Nossos memes?<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Chorando Can\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<div class=\"author-box clearfix mb-4\">\n<div class=\"d-flex align-items-center\">\n<div class=\"author-avatar\">\n        &#13;<br \/>\n          <img decoding=\"async\" alt=\"Lucas Cirillo (@cirigaita)\" src=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/lucascirilo.png\" class=\"avatar avatar-115 photo rounded-circle\" height=\"115\" width=\"115\"\/>\n      <\/div>\n<div class=\"author-info ms-3\">\n<p>\u00c9 produtor, compositor, gaitista, membro da Latin Grammy Academy, autodeclarado nerd sonoro, gosta de mergulhar no abissal dos \u00e1lbuns e trazer hist\u00f3rias para suas produ\u00e7\u00f5es, para superf\u00edcie, junto com alguns peixes, quando o rio t\u00e1 bom pra pesca: sua outra paix\u00e3o.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/memes-musica-e-voz-mais-antigo-que-a-internet-mais-antigo-que-a-propria-musica\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acredito que vimos os memes surgirem e se acomodarem ao nosso vocabul\u00e1rio, mas eles j\u00e1 estavam impregnados em nossa cultura desde tempos remotos, e nos contam sobre nosso car\u00e1ter evolutivo. 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