{"id":40950,"date":"2025-08-30T11:28:18","date_gmt":"2025-08-30T14:28:18","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/o-erro-de-estudio-que-originou-o-som-dos-anos-1980\/"},"modified":"2025-08-30T11:28:18","modified_gmt":"2025-08-30T14:28:18","slug":"o-erro-de-estudio-que-originou-o-som-dos-anos-1980","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/o-erro-de-estudio-que-originou-o-som-dos-anos-1980\/","title":{"rendered":"O \u2018erro\u2019 de est\u00fadio que originou o som dos anos 1980"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Imagine que voc\u00ea est\u00e1 sentado \u00e0 beira-mar, olhando para o horizonte, vendo as ondas quebrarem naturalmente, escutando o som de seu completo ciclo, desde o primeiro impacto da \u00e1gua at\u00e9 a efervesc\u00eancia da espuma borbulhando na areia: TCHUAAAAaaaaaaaa\u2026 tchhh\u2026<\/p>\n<p>Com toda licen\u00e7a po\u00e9tica \u00e0 associa\u00e7\u00e3o brasileira dos defensores do uso correto de onomatopeias, seguiremos com o exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o sonora (por mais paradoxal que possa parecer essa a\u00e7\u00e3o).\u00a0<\/p>\n<p>Pois bem, agora imagine que um muro se estenda no mesmo local onde antes era s\u00f3 a praia, o mar e a areia. A onda, agora, ao inv\u00e9s de quebrar na areia e ter o seu ciclo completo, se choca com a parede e tem o seu ciclo natural de reverbera\u00e7\u00e3o interrompido: TCHUAa. Um som curto e seco, apesar de ser feito de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Antes que voc\u00ea pense que a <em><strong>Rolling Stone Brasil<\/strong><\/em> est\u00e1 flertando com a cultura do <em>wellness<\/em> para novas publica\u00e7\u00f5es, explico: isso aqui n\u00e3o \u00e9 uma medita\u00e7\u00e3o guiada, mas sim sobre m\u00fasica, mais especificamente um assunto que poderia afugentar leitores desavisados: engenharia musical. Guarde o exerc\u00edcio descrito acima, porque ele ser\u00e1 muito \u00fatil para compreendermos o assunto de hoje: o som de bateria que marcou os anos 1980 (e que voltou!).<\/p>\n<p>Hoje vamos conhecer sobre o gated reverb, um som originado a partir de um acidente de est\u00fadio, mas que soou t\u00e3o bem que foi imposs\u00edvel descart\u00e1-lo e hoje ele habita nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Qualquer telefone hoje em dia n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 capaz de gravar um som, mas tamb\u00e9m manipul\u00e1-lo. Num simples apertar de um bot\u00e3o, obt\u00e9m-se uma voz distorcida, uma voz grave, um som que parece que estamos falando dentro de uma catedral, um corredor, etc. Mas, em 1979, n\u00e3o era bem assim.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quisesse ouvir sua voz gravada com um som de catedral, n\u00e3o tinha outra sa\u00edda: voc\u00ea tinha que ir at\u00e9 a catedral e levar caixas e mais caixas de equipamento para gravar l\u00e1 mesmo. Essa era a \u00fanica forma de obter o som dessa reverbera\u00e7\u00e3o sonora ou, como importamos do ingl\u00eas para o jarg\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o musical, reverb.<\/p>\n<p>Est\u00fadios e mais est\u00fadios se diferenciavam (e ainda hoje se diferenciam) por suas salas com seus p\u00e9s direitos altos ou baixos, pelo material de suas paredes \u2014 e tudo isso faz a diferen\u00e7a no momento da grava\u00e7\u00e3o. Est\u00fadios famosos, inclusive, foram constru\u00eddos a partir de lugares que j\u00e1 ofereciam um som de &#8220;sala&#8221; interessante antes mesmo de ser um est\u00fadio. O ic\u00f4nico <strong>Electric Lady<\/strong>, em Nova York, est\u00fadio de <strong>Jimi Hendrix<\/strong>, respons\u00e1vel por grava\u00e7\u00f5es de artistas como <strong>Stevie Wonder<\/strong>, <strong>Led Zeppelin<\/strong>, <strong>Rolling Stones<\/strong>, <strong>Taylor Swift<\/strong>, <strong>D&#8217;Angelo<\/strong> e <strong>Frank Ocean<\/strong>, al\u00e9m dos discos do pr\u00f3prio; antes mesmo de ser est\u00fadio, era uma casa de shows. O <strong>Van Gelder Studio<\/strong>, dos mais famosos \u00e1lbuns de jazz da hist\u00f3ria, era antes uma igreja. Esses dois exemplos mostram que esse som natural da constru\u00e7\u00e3o, ao qual se chamou &#8220;sala&#8221;, fazia toda a diferen\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p>A virada de bateria mais famosa dos anos 1980, presente na m\u00fasica &#8220;<strong>In The Air Tonight<\/strong>&#8220;, de <strong>Phil Collins<\/strong>, foi gravada em um est\u00fadio com paredes de pedra que simulavam um castelo! Mas n\u00e3o s\u00e3o os ares de fidalguia de sua arquitetura que a perpetuaram, mas um novo som que come\u00e7ava a dar as caras para o mundo, gra\u00e7as ao sucesso estrondoso do single, que ocupou as paradas de sucesso no ano de seu lan\u00e7amento, 1981.\u00a0<\/p>\n<p>E o que h\u00e1 de t\u00e3o especial nessa grava\u00e7\u00e3o? O som da bateria. Em \u201c<strong>In The Air Tonight<\/strong>\u201d, ouvia-se em todo o mundo uma bateria que n\u00e3o mais soava &#8220;natural&#8221; com a reverbera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sala (o som do mar quebrando livremente, lembra?), mas agora soava manipulado, controlado (o som do mar quebrando contra a parede). Traduzindo para o universo onomatopaico, a bateria que soava antes como TAAAAaaaaahhhhhhh, passou a soar mais como TAaaah e isso iria mudar a sonoridade das grava\u00e7\u00f5es para sempre.<\/p>\n<p>Contudo, essa grava\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi poss\u00edvel porque, antes de \u201c<strong>In The Air Tonight<\/strong>\u201d, <strong>Phil Collins<\/strong>, o produtor <strong>Lillywhite<\/strong> e o engenheiro de grava\u00e7\u00e3o <strong>Hugh Padgham<\/strong> entraram em est\u00fadio para gravar a faixa \u201c<strong>Intruder<\/strong>\u201d com <strong>Peter Gabriel<\/strong>, seu companheiro na banda <strong>Genesis<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>O console usado para gravar na \u00e9poca, uma mesa SSL 400 B, vinha com uma nova modalidade, um canal para se ouvir atrav\u00e9s do aqu\u00e1rio (n\u00e3o, as met\u00e1foras marinhas n\u00e3o voltaram), aquela famosa janela de vidro que separa a t\u00e9cnica (onde fica a mesa de som) da sala de grava\u00e7\u00e3o (onde fica o microfone para gravar os instrumentos). Para poder ouvir o que a pessoa est\u00e1 falando, basta apertar um bot\u00e3o chamado talkback e falar no microfone que est\u00e1 na mesa: &#8220;take bom, vamos para o pr\u00f3ximo\u201d, \u201cvai entrar a bateria, 1, 2, 3, 4\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, para que quem est\u00e1 gravando ou\u00e7a bem e o som que sai das caixas da t\u00e9cnica n\u00e3o retorne para o fone do baterista, criando aquele famoso efeito de delay (\u201csandu\u00edche, iche, iche\u201d), esse microfone precisa ter o seu som comprimido. \u00c9 como uma porta que abre e fecha, deixando passar apenas os sons falados diretamente nele e bloqueando o ambiente ao redor. Essa porta ou port\u00e3o, ou passagem em ingl\u00eas, a gente chama de <em>Gate<\/em>. OK, mas o que o port\u00e3o e o gate tem a ver com o som dos anos 1980 e como ele representa a \u00e9poca mais do que cabelos com o penteado permanente?<\/p>\n<p>No momento em que <strong>Phil Collins<\/strong> gravava a faixa \u201c<strong>Intruder<\/strong>\u201d, a equipe t\u00e9cnica deixou acidentalmente o canal do talkback aberto, captando o som de bateria que o pessoal da t\u00e9cnica ouvia, por\u00e9m, processado, comprimido pela mesa, com esse gate. Ent\u00e3o a bateria que deveria soar \u201cTUM TUM DA TUM, TUM DA\u201d, passou a soar \u201cTCH TCH GU\u00c9H TCH, TCH GU\u00c9H\u201d. E esse &#8220;H&#8221; \u00e9 bem o som que a gente acrescenta \u00e0 vogal, para que soa mais arejada mesmo a onomatopeia. O som agradou tanto que eles resolveram de fato assumir esse como o som de bateria oficial da faixa.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o ficarmos s\u00f3 na imagina\u00e7\u00e3o, separei aqui parte do material usado em minhas pesquisas: trata-se do trecho de um depoimento, onde o pr\u00f3prio <strong>Phil Collins<\/strong> explica tudo isso com uma bateria de boca ou beatbox, para mostrar a diferen\u00e7a dos sons. Vale conferir!\u00a0<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do gated reverb nos ajuda a identificar aquilo que acredito que seja o elixir da vida do pop, sua pedra fundamental: a experimenta\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o basta s\u00f3 experimentar, \u00e9 preciso bancar essa escolha, n\u00e3o subestimando o ouvinte, como o fizeram os artistas <strong>Peter Gabriel<\/strong>, <strong>Phil Collins<\/strong>, <strong>Ryuichi Sakamoto<\/strong>, entre outros pioneiros dessa t\u00e9cnica, dessa sonoridade que em pouco tempo inundaria \u2014 em todos os sentidos da met\u00e1fora \u2014 as r\u00e1dios e \u00e1lbuns pelos sete mares afora.<\/p>\n<p><em>*preparei uma playlist aqui para voc\u00ea que ficou curioso e quer entrar nessa viagem no tempo atrav\u00e9s das ondas do gated reverb, boa viagem!<\/em><\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Esses memes de rock cl\u00e1ssico gerados por IA est\u00e3o enganando algu\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/gated-reverb-o-erro-de-estudio-que-originou-o-som-dos-anos-1980\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine que voc\u00ea est\u00e1 sentado \u00e0 beira-mar, olhando para o horizonte, vendo as ondas quebrarem naturalmente, escutando o som de seu completo ciclo, desde o primeiro impacto da \u00e1gua at\u00e9 a efervesc\u00eancia da espuma borbulhando na areia: TCHUAAAAaaaaaaaa\u2026 tchhh\u2026 Com toda licen\u00e7a po\u00e9tica \u00e0 associa\u00e7\u00e3o brasileira dos defensores do uso correto de onomatopeias, seguiremos com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":40951,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-40950","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40950","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40950"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40950\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40951"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40950"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}