{"id":40521,"date":"2025-08-28T16:44:06","date_gmt":"2025-08-28T19:44:06","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/cazuza-era-uma-lampada-com-varias-mariposas-em-volta\/"},"modified":"2025-08-28T16:44:06","modified_gmt":"2025-08-28T19:44:06","slug":"cazuza-era-uma-lampada-com-varias-mariposas-em-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/cazuza-era-uma-lampada-com-varias-mariposas-em-volta\/","title":{"rendered":"&#8216;Cazuza era uma l\u00e2mpada, com v\u00e1rias mariposas em volta&#8217;"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Era 1981. N\u00e3o havia <strong>Bar\u00e3o Vermelho<\/strong>, nem <strong>RPM<\/strong>. Cursava jornalismo desde o ano anterior na <strong>Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Arte<\/strong> da <strong>USP<\/strong>. Sempre quis ser m\u00fasico, mas jornalismo \u00e9 uma profiss\u00e3o multimidi\u00e1tica: lida-se com tudo, de imagem a som. Al\u00e9m disso, <strong>Caetano Veloso<\/strong> fez filosofia, <strong>Chico Buarque<\/strong> fez arquitetura\u2026 temos que estudar algo, mas n\u00e3o o curso de m\u00fasica \u2014 porque, da\u00ed, se estuda m\u00fasica cl\u00e1ssica, orquestra\u00e7\u00e3o, reg\u00eancia, coisas assim. Por fim, optei por essa gradua\u00e7\u00e3o porque enquanto lutava por meu lugar na m\u00fasica, infiltrava-me nas gravadoras e fazia contato com grandes artistas.<\/p>\n<p>Procurei trabalho em ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. Passei por alguns at\u00e9 chegar \u00e0 revista <em>Som Tr\u00eas<\/em>. L\u00e1, escreviam \u00eddolos meus como <strong>Ana Maria Bahiana<\/strong>, <strong>Lulu Santos<\/strong>, <strong>J\u00falio Barroso<\/strong>\u2026 e <strong>Ezequiel Neves<\/strong>, de quem era muito f\u00e3, n\u00e3o apenas por seu texto, como tamb\u00e9m por ser uma personalidade. Ele mentia, fantasiava coisas que n\u00e3o tinham acontecido. Era o nosso <strong>Lester Bangs<\/strong>.<\/p>\n<p>Um dia, cheguei no <strong>Ezequiel<\/strong> e falei: \u201cSou <strong>Paulo Ricardo Medeiros<\/strong>, que tem uma p\u00e1gina do lado da sua na revista\u201d. Fizemos amizade e logo eu conheci o <strong>Cazuza<\/strong>. Eles me chamavam de <strong>Paul Richard<\/strong>, por essa coisa do rock internacional. Ficamos amigos, pois ele era muito engra\u00e7ado.<\/p>\n<p><strong>Cazuza<\/strong> era quatro anos mais velho e tinha uma turma. Ele era uma l\u00e2mpada, com v\u00e1rias mariposas em volta. Ele era o epicentro da festa. Morava com os pais em Ipanema \u2014 e era l\u00e1 onde eu ficava quando ia para o Rio. Na beira da praia. Fic\u00e1vamos naquela loucura diurna, uma psicodelia. No fim da tarde j\u00e1 estavam todos loucos. Continuava a festa na casa do <strong>Cazuza<\/strong>. Depois, \u00edamos para algum lugar.<\/p>\n<p><strong>Cazuza<\/strong> era um showman. Uma pessoa culta e doce. Escrevia, atuava, fotografava. Ainda procurava um caminho. Al\u00e9m disso, muito carism\u00e1tico e engra\u00e7ado, de humor \u00e1cido: \u201cPerco o amigo, mas n\u00e3o a piada\u201d. Eu era aquele garoto mais novo da <strong><em>Rolling Stone<\/em><\/strong> no filme <em><strong>Quase Famosos<\/strong><\/em>, que tinha de ligar para casa e dizer: \u201cN\u00e3o, m\u00e3e, fica tranquila\u201d.<\/p>\n<p>Vi tudo aquilo acontecer: <strong>Cazuza<\/strong> crescer, o <strong>Bar\u00e3o<\/strong> acontecer. <strong>Frejat<\/strong> era da minha idade. \u00cdamos para hot\u00e9is e a nossa farra era pedir banana split na conta da gravadora. Foi lindo ver acontecer passo a passo \u2014 e testemunhar <strong>Cazuza<\/strong> logo sair em carreira solo, com <em><strong>Exagerado<\/strong><\/em>. P\u00e9 na porta.<\/p>\n<p>Entre 1981 e 1991, foram dez anos. At\u00e9 o fim, <strong>Cazuza<\/strong> foi incr\u00edvel e corajoso. Em nenhum momento<br \/>ficou religioso ou se sentiu culpado, em meio ao preconceito enorme por causa da aids. \u00c9 reconhecido at\u00e9 hoje, pois incorporava sua obra. Ele era o \u201cexagerado\u201d. As m\u00fasicas s\u00e3o sobre ele.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ele era focado. Trabalhava bastante. N\u00e3o era um porra louca. V\u00e1rias vezes passei na casa dele \u00e0 tarde e ele estava l\u00e1 na m\u00e1quina de escrever fazendo texto. Ele n\u00e3o compunha rabiscando o guardanapo: era sempre na m\u00e1quina de escrever. Tinha m\u00e9todo e hor\u00e1rio. Estava em seu DNA o blues, o rock, a dor de cotovelo, a gera\u00e7\u00e3o beat\u2026 foi natural dele o encontro da interse\u00e7\u00e3o entre blues e samba. O mesmo com a transi\u00e7\u00e3o natural do rock \u00e0 MPB. Ningu\u00e9m nem notou. Se voc\u00ea tirar o rock de suas m\u00fasicas, ficam grandes poesias.<\/p>\n<p>A obra dele est\u00e1 intacta. \u00c9 atemporal. \u201c<strong>O Tempo N\u00e3o Para<\/strong>\u201d tem uma das letras mais incr\u00edveis da hist\u00f3ria da m\u00fasica popular brasileira. Quando toco alguma de suas m\u00fasicas ao vivo, sempre gera uma rea\u00e7\u00e3o tipo: \u201cUau, parece que foi hoje\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cazuza<\/strong> era incompar\u00e1vel. Insuper\u00e1vel. Ningu\u00e9m chegava perto. Ele era o trapezista do triplo mortal carpado. Ningu\u00e9m nem brincava de chegar perto do grau de sua loucura, tampouco de sua seriedade com o trabalho. Era muito influente. De alguma forma, as pessoas incorporavam e imitavam algo dele. Tinha uma personalidade magn\u00e9tica. Todos o amavam.<\/p>\n<p>\u00c9 um caso raro em que a obra \u00e9 t\u00e3o interessante quanto a pessoa. <strong>Carlos Drummond de Andrade<\/strong> \u00e9 um dos maiores poetas da nossa literatura, mas era um funcion\u00e1rio p\u00fablico. Somente a obra de Drummond fascina; a vida, n\u00e3o. Com <strong>Cazuza<\/strong>, \u00e9 diferente. Vida e a obra interessam. Deixou um trabalho atemporal que rende filme, pe\u00e7a, musical, livro, exposi\u00e7\u00e3o. Sempre ser\u00e1 assim.<\/p>\n<p class=\"text-muted\"><em>*Paulo Ricardo em depoimento dado \u00e0 Rolling Stone Brasil<\/em><\/p>\n<hr\/>\n<h2>Edi\u00e7\u00e3o de colecionador da Rolling Stone Brasil: Cazuza &#8211; Mem\u00f3rias do Poeta<\/h2>\n<p>Este texto est\u00e1 presente na edi\u00e7\u00e3o de colecionador da Rolling Stone Brasil em homenagem ao Cazuza. A revista, dispon\u00edvel na <em>Loja da Editora Perfil<\/em>, conta com depoimentos de amigos e pessoas pr\u00f3ximas, um passeio pela Exposi\u00e7\u00e3o Cazuza Exagerado, lista das 20 m\u00fasicas mais regravadas, a discografia comentada e muito mais!<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/paulo-ricardo-cazuza-era-uma-lampada-com-varias-mariposas-em-volta\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era 1981. N\u00e3o havia Bar\u00e3o Vermelho, nem RPM. Cursava jornalismo desde o ano anterior na Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Arte da USP. Sempre quis ser m\u00fasico, mas jornalismo \u00e9 uma profiss\u00e3o multimidi\u00e1tica: lida-se com tudo, de imagem a som. 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