{"id":38032,"date":"2025-08-18T22:48:09","date_gmt":"2025-08-19T01:48:09","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/o-documentario-da-netflix-que-vai-fazer-voce-repensar-o-sistema-carcerario\/"},"modified":"2025-08-18T22:48:09","modified_gmt":"2025-08-19T01:48:09","slug":"o-documentario-da-netflix-que-vai-fazer-voce-repensar-o-sistema-carcerario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/o-documentario-da-netflix-que-vai-fazer-voce-repensar-o-sistema-carcerario\/","title":{"rendered":"O document\u00e1rio da Netflix que vai fazer voc\u00ea repensar o sistema carcer\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A m\u00fasica, mais do que um produto ou qualquer outra coisa, \u00e9 um ato sagrado. Essa \u00e9 a premissa central de <strong><em>Can\u00e7\u00f5es do C\u00e1rcere<\/em><\/strong>, document\u00e1rio de 90 minutos da diretora <strong>Contessa Gayles<\/strong>, dispon\u00edvel na <strong>Netflix<\/strong>. O filme premiado destaca a trajet\u00f3ria de <strong>James \u201cJJ\u201988\u201d Jacobs<\/strong>, artista e ativista nascido em Long Beach, que evoluiu de um jovem de 15 anos desorientado, autor de um assassinato, para um farol do que ele chama de \u201cutilidade da n\u00e3o viol\u00eancia, da arte para contar hist\u00f3rias e da vulnerabilidade\u201d. No document\u00e1rio \u2014 que conquistou dez pr\u00eamios no circuito de festivais de cinema em 2024 \u2014, <strong>Gayles<\/strong> costura habilmente grava\u00e7\u00f5es de liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas feitas da pris\u00e3o por <strong>JJ\u201988<\/strong>, um \u00e1lbum visual criado por ele durante o encarceramento e um relato cru, no estilo \u201cmosca na parede\u201d, sobre como sua fam\u00edlia o apoiou ao longo de sua pena e nas repetidas tentativas de obter liberdade.<\/p>\n<p><strong>JJ\u201988<\/strong> deixou a pris\u00e3o em 2022, ap\u00f3s 18 anos. Mas antes de ser fisicamente libertado, foi espiritualmente liberto por um encontro inesperado com o homem que matou seu irm\u00e3o. O document\u00e1rio oferece um vislumbre da praticidade e da necessidade da justi\u00e7a restaurativa, ecoando os temas do filme de <strong>Gayles<\/strong> de 2018 para a <em>CNN<\/em>, <em><strong>The Feminist on Cellblock Y<\/strong><\/em>, sobre o ent\u00e3o preso e produtor <strong>Richie Reseda<\/strong>, que fundou um grupo feminista na cadeia (<strong>Reseda<\/strong> \u00e9 coprodutor de <strong><em>Can\u00e7\u00f5es do C\u00e1rcere<\/em><\/strong> e produziu os beats sobre os quais <strong>JJ\u201988<\/strong> rimou). Segundo <strong>Gayles<\/strong> e <strong>JJ\u201988<\/strong>, que falaram sobre o filme em uma exibi\u00e7\u00e3o em julho, em Nova York, a produ\u00e7\u00e3o levou v\u00e1rios anos e come\u00e7ou enquanto ele ainda estava encarcerado, o que trouxe desafios log\u00edsticos (<strong>JJ\u201988<\/strong> saiu da pris\u00e3o oito meses ap\u00f3s o in\u00edcio da edi\u00e7\u00e3o). O roteiro do \u00e1lbum visual foi escrito por ele inspirado em <em><strong>Lemonade<\/strong><\/em> (2016) e no \u00e1lbum hom\u00f4nimo de <strong>Beyonc\u00e9<\/strong>, reunindo can\u00e7\u00f5es compostas na solit\u00e1ria e gravadas com a ajuda de Reseda.<\/p>\n<p><strong>Gayles<\/strong> contou que completava, em m\u00e9dia, um videoclipe por m\u00eas, integrando-os ao restante das filmagens. Inicialmente, houve a ideia de diferenciar os clipes do material documental bruto com propor\u00e7\u00f5es de tela distintas, mas a diretora decidiu manter tudo uniforme. Foi a escolha certa: a apresenta\u00e7\u00e3o visual fluida manteve o ritmo vivo enquanto <strong>JJ\u201988<\/strong> narrava sua hist\u00f3ria, alternando fotos antigas e v\u00eddeos da fam\u00edlia <strong>Jacobs<\/strong> com cenas do \u00e1lbum visual, que, a partir de sua experi\u00eancia, d\u00e1 centralidade a jovens negros, m\u00e3es e ao sistema de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O filme traz representa\u00e7\u00f5es recorrentes de <strong>JJ\u201988<\/strong> adolescente e adulto encarcerado, al\u00e9m de outro ator interpretando seu irm\u00e3o <strong>Victor<\/strong>, morto tr\u00eas dias ap\u00f3s <strong>JJ\u201988<\/strong> cometer um homic\u00eddio em um ato que ele pr\u00f3prio admite ter sido \u201csem sentido\u201d, motivado pela busca de reputa\u00e7\u00e3o nas ruas. Reaparecem ainda cenas de crian\u00e7as dan\u00e7ando, remetendo \u00e0 inf\u00e2ncia perdida de <strong>Jacobs<\/strong> \u2014 e de tantos outros homens negros \u2014 para a viol\u00eancia das ruas.<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos e m\u00fasicas, em camadas, evocam a est\u00e9tica art\u00edstica de nomes como <strong>Kendrick Lamar<\/strong> e <strong>Vince Staples<\/strong>, explorando f\u00e9, moralidade, fam\u00edlia e viol\u00eancia. Em uma faixa que lamenta as \u201condas de crimes\u201d, dois garotos se jogam no mar e se afogam, enquanto <strong>JJ\u201988<\/strong> narra os perigos das ruas de Long Beach. Representando os encarcerados, ele emerge das \u00e1guas como um homem em uniforme carcer\u00e1rio; j\u00e1 <strong>Victor<\/strong>, simbolizando vidas ceifadas precocemente pela viol\u00eancia, permanece crian\u00e7a. Ambos caminham at\u00e9 uma figura materna na areia.<\/p>\n<p><strong>Gayles<\/strong> conduz cada videoclipe com cita\u00e7\u00f5es marcantes da rede de apoio de <strong>JJ\u201988<\/strong>: sua m\u00e3e <strong>Janine<\/strong>, seu pai <strong>William<\/strong>, a madrasta <strong>Jackie<\/strong>, a irm\u00e3 <strong>Reneasha<\/strong> e a esposa <strong>Indigo<\/strong>. Em certo momento, <strong>William<\/strong>, pastor, fala sobre sua f\u00e9 na liberta\u00e7\u00e3o do filho, condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua. Logo em seguida, o document\u00e1rio mostra-o pregando em um culto, entoando: \u201cTenho um louvorzinho que quero cantar\u201d, que se funde suavemente \u00e0 m\u00fasica reflexiva \u201c<strong>wake up<\/strong>\u201d, de <strong>JJ\u201988<\/strong>. A faixa se encerra com outra fala do pai: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 esteve preso? Em uma pris\u00e3o espiritual?\u201d.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio mostra de forma poderosa uma rede de apoio que muitos homens na situa\u00e7\u00e3o de <strong>JJ\u201988<\/strong>, cumprindo pena de pris\u00e3o perp\u00e9tua, n\u00e3o t\u00eam. H\u00e1 momentos calorosos \u2014 como ele cantando com <strong>Indigo<\/strong>, brincando sobre envelhecer com a m\u00e3e e a irm\u00e3, ou comemorando quando autoridades estaduais reconheceram sua elegibilidade para liberta\u00e7\u00e3o antecipada. Essa mesma fam\u00edlia tamb\u00e9m esteve presente em suas quedas, como quando o pai o consolou ap\u00f3s a nega\u00e7\u00e3o de um pedido de liberdade condicional. O filme desenvolve cada uma dessas rela\u00e7\u00f5es familiares, aumentando o peso emocional a ponto de o espectador sentir-se t\u00e3o esmagado quanto <strong>William<\/strong> quando a liga\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o \u00e9 cortada antes de sua despedida.<\/p>\n<p>Em uma dessas conversas, <strong>JJ\u201988<\/strong> chora ao dizer ao pai: \u201cEles n\u00e3o acreditam em mim\u201d, relatando que a junta de condicional usou contra ele sua participa\u00e7\u00e3o em um projeto musical chamado <strong>Defund The Sheriff<\/strong>. O momento exp\u00f5e mais uma vez como o sistema de justi\u00e7a criminaliza o hip hop em benef\u00edcio pr\u00f3prio; neste caso, mantendo <strong>JJ\u201988<\/strong> encarcerado. O filme mostra o rap como ferramenta que o ajudou a lidar com seus sentimentos e a se reabilitar \u2014 objetivo que, em tese, o sistema prisional deveria ter. Mas para o Estado, naquela audi\u00eancia de condicional, sua m\u00fasica era apenas uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Como jornalista musical, estou acostumado a ver artistas venderem autenticidade, reivindicando que suas letras representam viol\u00eancia real. J\u00e1 <strong>JJ\u201988<\/strong>, que de fato viveu a dureza das ruas \u2014 e aprendeu com os erros \u2014, luta para que sua arte n\u00e3o seja vista sob uma conota\u00e7\u00e3o negativa. Enquanto muitos rappers desejam ser levados a s\u00e9rio como se \u201cvivessem suas rimas\u201d, ele quer ser levado a s\u00e9rio como ser humano produtivo. Essa contradi\u00e7\u00e3o faz repensar o que realmente vale a \u201ccredibilidade\u201d quando aqueles que julgam n\u00e3o conseguem enxergar sua humanidade.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio \u00e9 um forte argumento a favor dos benef\u00edcios da justi\u00e7a restaurativa. Em uma das cenas, <strong>Indigo<\/strong> revela que foi v\u00edtima de viol\u00eancia sexual e se sentiu \u201cretraumatizada\u201d pelo processo criminal. Enquanto buscava \u201cfechamento, justi\u00e7a, cura, valida\u00e7\u00e3o\u201d, percebeu que o sistema n\u00e3o era capaz de oferecer isso, entregando uma das frases mais impactantes do filme: \u201cO sistema n\u00e3o est\u00e1 me priorizando, est\u00e1 priorizando a puni\u00e7\u00e3o \u2014 e a minha cura nunca poderia ser encontrada na puni\u00e7\u00e3o de outra pessoa.\u201d<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio, <strong>JJ\u201988<\/strong> conhece, na pris\u00e3o, um homem chamado \u201c<strong>J<\/strong>\u201d e tem uma conversa poderosa com ele sobre o arrependimento de estar preso por assassinato, mas tamb\u00e9m sobre a consci\u00eancia de que, como <strong>JJ\u201988<\/strong> afirma mais tarde, \u201cminhas falhas n\u00e3o diminuem o meu bem.\u201d Ele admite que a forma como \u201c<strong>J<\/strong>\u201d abra\u00e7ou sua humanidade o ajudou a fazer o mesmo, levando-o a confrontar o \u201cluto, a covardia, a vergonha e a dor\u201d que carregava ap\u00f3s cometer o crime. A sociedade, em geral, espera que o acusado negue seus atos para tentar se livrar de uma condena\u00e7\u00e3o ou evitar o escrut\u00ednio p\u00fablico \u2014 mas foi apenas por meio da admiss\u00e3o e da reflex\u00e3o sobre sua escurid\u00e3o que <strong>JJ\u201988<\/strong> conseguiu se curar e se perdoar. E, quando demonstrou miseric\u00f3rdia a \u201c<strong>J<\/strong>\u201d, cujo nome verdadeiro \u00e9 <strong>Jamaal Smith<\/strong>, ap\u00f3s descobrir que ele havia matado seu irm\u00e3o, <strong>JJ\u201988<\/strong> reconheceu que sua capacidade de perdoar o assassino do irm\u00e3o era uma forma de expiar os pr\u00f3prios pecados. Quem pode saber como teria sido sua cura sem a oportunidade de falar com o homem que matou seu irm\u00e3o? Essa circunst\u00e2ncia aponta para a possibilidade de um sistema em que v\u00edtimas possam dialogar com os ofensores \u2014 especialmente quando esses t\u00eam a chance de enfrentar seu arrependimento fora da brutalidade da pris\u00e3o. <strong>JJ\u201988<\/strong> disse ter compreendido que o assassino de seu irm\u00e3o era \u201cmais um de n\u00f3s\u201d, refletindo sobre a multid\u00e3o de homens desiludidos pelo sistema. E, assim como ele conseguiu enxergar a humanidade em <strong>Jamaal<\/strong>, a esperan\u00e7a \u00e9 que o p\u00fablico tamb\u00e9m consiga reconhecer nele a capacidade de perdoar, refletir e crescer.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo em confinamento solit\u00e1rio, <strong>JJ\u201988<\/strong> conta que sentiu o chamado de Deus e come\u00e7ou a escrever suas rimas sem nenhuma expectativa. \u00c9 revigorante ouvir um artista \u2014 e um artista bastante talentoso \u2014 dizer isso em nosso ecossistema cada vez mais frio e obcecado por n\u00fameros. Sua experi\u00eancia remete \u00e0 g\u00eanese da cria\u00e7\u00e3o musical, quando cantar era apenas uma chance de pessoas comuns se expressarem e darem sentido ao mundo. Quando as primeiras can\u00e7\u00f5es foram entoadas, n\u00e3o havia a possibilidade de se tornar uma celebridade inquestion\u00e1vel a partir delas \u2014 apenas a chance de desabafar, festejar ou viajar por onde a imagina\u00e7\u00e3o levasse. <em><strong>Can\u00e7\u00f5es do C\u00e1rcere<\/strong><\/em> talvez n\u00e3o fa\u00e7a as bases de f\u00e3s obcecadas por estat\u00edsticas abandonarem suas trincheiras para viver em harmonia, mas pode incentivar alguns de n\u00f3s a tratar a arte e os artistas como algo mais precioso. Ainda que poucos tenham uma hist\u00f3ria t\u00e3o cinematogr\u00e1fica quanto a de <strong>JJ\u201988<\/strong> \u2014 que agora segue uma carreira como m\u00fasico profissional \u2014, todos merecem ser vistos como pessoas como n\u00f3s, que simplesmente decidiram compartilhar sua express\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>+++LEIA MAIS:<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/entretenimento\/o-documentario-da-netflix-que-vai-fazer-voce-repensar-o-sistema-carcerario\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00fasica, mais do que um produto ou qualquer outra coisa, \u00e9 um ato sagrado. Essa \u00e9 a premissa central de Can\u00e7\u00f5es do C\u00e1rcere, document\u00e1rio de 90 minutos da diretora Contessa Gayles, dispon\u00edvel na Netflix. 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