{"id":35564,"date":"2025-08-08T06:51:27","date_gmt":"2025-08-08T09:51:27","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/relembre-a-primeira-capa-do-artista-na-rolling-stone-brasil\/"},"modified":"2025-08-08T06:51:27","modified_gmt":"2025-08-08T09:51:27","slug":"relembre-a-primeira-capa-do-artista-na-rolling-stone-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/relembre-a-primeira-capa-do-artista-na-rolling-stone-brasil\/","title":{"rendered":"relembre a primeira capa do artista na Rolling Stone Brasil"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A plateia parece estar no cio. Lota\u00e7\u00e3o esgotada. S\u00e3o tr\u00eas mil pessoas em p\u00e9, mais ou menos uniformemente divididas entre homens e mulheres. A maior parte parece ainda n\u00e3o ter chegado aos 25 anos, mas h\u00e1 tamb\u00e9m senhores com mais de 60. E adolescentes de 15, 16. \u00c9 quinta-feira, 5 de julho de 2007, estou no <strong>Gin\u00e1sio do Sesc de Santos<\/strong> (SP). Cada vez que o artista l\u00e1 no palco, passeando pelos versos de suas novas e antigas can\u00e7\u00f5es, atravessa uma palavra carregada de alguma carga sexual, o p\u00fablico reage com gritinhos lascivos. Todos ao mesmo tempo, em un\u00edssono, como se tamb\u00e9m tivessem ensaiado.<\/p>\n<p>Estamos em plena turn\u00ea de <em><strong>C\u00ea<\/strong><\/em>, o \u00e1lbum \u201croqueiro\u201d de <strong>Caetano Veloso<\/strong>. \u00c1lbum \u201croqueiro\u201d? Se esse r\u00f3tulo n\u00e3o \u00e9 abrangente em medida suficiente para definir a sonoridade de <em><strong>C\u00ea<\/strong><\/em>, muito ele pode dizer a respeito do conte\u00fado po\u00e9tico do disco (e desse show que dele se originou), tomado principalmente por sexo e \u00f3dio (ou seu par perfeito, o amor). Pode tamb\u00e9m explicar muito sobre esse reflorescimento sexual \u00e0 volta de <strong>Caetano<\/strong> \u2013 o artista, o homem. \u201c<strong>Caetano<\/strong> est\u00e1 em uma fase meio <strong>Beatles<\/strong>. Tem rolado um ass\u00e9dio, uma loucurinha\u201d, comenta o guitarrista <strong>Pedro S\u00e1<\/strong>, o mais velho dos tr\u00eas jovens m\u00fasicos que dividem o palco com o cantor. \u201cNas outras turn\u00eas que fiz com ele sempre teve f\u00e3, gente que assediava, que chegava, que queria falar. Mas agora, al\u00e9m disso, tem um frisson, um faniquitozinho. Mulher que agarra, que pega, que quer tirar a roupa, que quer comer. Que perde a linha mesmo\u201d, conta.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. <em><strong>C\u00ea<\/strong><\/em> \u00e9 o trabalho no qual <strong>Caetano<\/strong> mais se exp\u00f5e sexualmente em toda sua carreira. Se n\u00e3o isso, desde pelo menos o come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980. \u201cDesde o [<em>disco<\/em>] que tem \u2018<strong>Vera Gata<\/strong>\u2019, eu acho\u201d, tenta pontuar o pr\u00f3prio artista. Composta para <strong>Vera Zimmerman<\/strong>, a can\u00e7\u00e3o a que ele se refere est\u00e1 no \u00e1lbum <em><strong>Outras Palavras<\/strong><\/em> (1981) e descreve a hist\u00f3ria, imagina-se que real, de sua \u201cr\u00e1pida transa\u00e7\u00e3o\u201d (como o pr\u00f3prio diz na letra) com a atriz. Sim, estamos falando de sexo. Em <em><strong>C\u00ea<\/strong><\/em>, com <strong>Caetano<\/strong> na casa dos 60, a transa\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa ser t\u00e3o r\u00e1pida. Em alguns momentos chega a ser delicada, minuciosa, muito mais po\u00e9tica \u2013 mas nem por isso menos er\u00f3tica. Irm\u00e3 ca\u00e7ula de \u201c<strong>Vera Gata<\/strong>\u201d, \u201c<strong>Um Sonho<\/strong>\u201d foi composta para <strong>Luana Piovani<\/strong> e descreve a hist\u00f3ria, n\u00e3o necessariamente real (principalmente se levarmos em conta o significado on\u00edrico de seu t\u00edtulo), de seu \u201cmalho\u201d (como o pr\u00f3prio diz na letra) com a atriz. Enquanto mostra a can\u00e7\u00e3o no palco, <strong>Caetano<\/strong> desenha com o gestual do corpo uma rela\u00e7\u00e3o sexual inteira. \u201cSexo \u00e9 um assunto central, um absoluto \u2013 n\u00e3o um tema entre outros. Para mim, para a minha vida, essa \u00e9 a import\u00e2ncia que o sexo sempre teve. N\u00e3o tem nada a ver com ser atleta sexual, nem obcecado por sexo. Pelo contr\u00e1rio: reconhecendo que \u00e9 um absoluto, o sexo basta que se d\u00ea. \u00c9 muito simples. Porque \u00e9 o que \u00e9. N\u00e3o precisa muita coisa. Tendo aquele neg\u00f3cio, pronto. Rolando, chegando l\u00e1, j\u00e1 \u00e9 importante\u201d, avalia.<\/p>\n<p>O artista diz n\u00e3o saber detectar diferen\u00e7as entre o ato de cria\u00e7\u00e3o de um disco \u201csexual\u201d quando ainda se est\u00e1 na casa dos 30 anos e faz\u00ea-lo agora, aos mais de 60. E explica suas raz\u00f5es para recorrer ao tema com tanta sede neste momento. \u201cQueria criar uma banda de rock que tivesse um som pr\u00f3prio, que desse um toque relevante para o panorama de cria\u00e7\u00e3o de rock no Brasil do ponto de vista sonoro e estil\u00edstico. Timbr\u00edstico, tamb\u00e9m. E isso se deu. Nesse ponto, acho que fomos 100% bem-sucedidos\u201d, afirma. \u201cE precisava fazer um repert\u00f3rio que se adequasse a isso. O rock tem, desde o princ\u00edpio, esse componente sexual quase como tema central \u2013 mesmo quando n\u00e3o \u00e9 explicitado. Ent\u00e3o, tendi a explicit\u00e1-lo em algumas letras. Gostava de estar fazendo can\u00e7\u00f5es em que esse tema aparecesse de uma maneira direta e intensa, com poucas informa\u00e7\u00f5es, poucas imagens, poucas palavras. Gostava de fazer assim para este disco. Acho que a raz\u00e3o \u00e9 mais essa\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>Uma pe\u00e7a importante do mosaico sexual de <em><strong>C\u00ea<\/strong><\/em> acabou n\u00e3o entrando no repert\u00f3rio do disco porque n\u00e3o estava terminada na \u00e9poca das grava\u00e7\u00f5es, mas entrou no roteiro do show. \u201c<strong>Amor Mais que Discreto<\/strong>\u201d foi composta a partir de \u201c<strong>Ilus\u00e3o \u00e0 Toa<\/strong>\u201d, cl\u00e1ssico de <strong>Johnny Alf<\/strong> (que <strong>Caetano<\/strong>, ali\u00e1s, tamb\u00e9m canta no show como introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 sua), e aprofunda o contexto homoer\u00f3tico esbo\u00e7ado em \u201c<strong>Odeio<\/strong>\u201d. \u201c\u00c9 linda! Essa da\u00ed \u00e9 mesmo gay. Porque ela fala de \u2018o amante do amante\u2019. Eu adorei chegar nessa express\u00e3o porque n\u00e3o fica duvidoso, est\u00e1 expl\u00edcito: \u00e9 um cara que \u00e9, ou pode ser, ou desejaria ser, amante de outro cara. Eu tinha falado com os meninos, at\u00e9 brincando, que o C\u00ea tem muita mulher\u201d, ri.<\/p>\n<p>As duas faixas, \u201c<strong>Odeio<\/strong>\u201d e \u201c<strong>Amor Mais que Discreto<\/strong>\u201d, abordam o amor (ou o sexo, simplesmente \u2013 ou a imin\u00eancia de uma dessas duas coisas, ou das duas) entre dois homens: um velho e um menino. \u201cSou velho, ent\u00e3o j\u00e1 d\u00e1 para pensar nessa perspectiva\u201d, diz o compositor. \u201cAquele modelo grego do homem com o adolescente \u00e9 um arqu\u00e9tipo na cabe\u00e7a da gente. E eu, no texto, gosto muito desse momento que diz \u2018eu sou um velho, mas somos dois meninos\u2019, que \u00e9 diferente da nossa moral convencional crist\u00e3 burguesa. E \u00e9 diferente tamb\u00e9m do modelo grego, em que [<em>o sexo entre um homem adulto e um adolescente<\/em>] era quase que um tipo especial de heterossexualidade. [<em>Em \u2018<strong>Amor Mais que Discreto<\/strong>\u2019<\/em>] s\u00e3o dois caras brincando, dois caras curtindo o sexo deles, um com o outro.\u201d Caetano rejeita inteiramente a leitura comum de que a tem\u00e1tica gay, uma constante em sua obra desde o in\u00edcio \u2013 seja na po\u00e9tica, no discurso ou no comportamento \u2013 tenha entrado em cena simplesmente para provocar. \u201c\u00c9 um tema meu. N\u00e3o entro em ambiente nenhum sem meus temas principais. N\u00e3o iria deixar isso de fora\u201d, afirma. \u201cIndependentemente de ser ou n\u00e3o relevante para todas as pessoas, a mim esse tema sempre interessou.\u201d<\/p>\n<hr\/>\n<p><span class=\"capitular\">S<\/span>abe-se l\u00e1 se por conta de sua sexualidade aflorada ou pela sonoridade incomum aos discos anteriores lan\u00e7ados por Caetano, C\u00ea n\u00e3o agradou a todo mundo na fam\u00edlia do cantor. \u201cMeu irm\u00e3o imediatamente mais velho que eu n\u00e3o gostou do disco e n\u00e3o gosta do show. Os outros gostaram. Minha m\u00e3e n\u00e3o foi ver o show em Salvador, mas n\u00e3o gostou muito do disco. Tamb\u00e9m n\u00e3o ouviu muito, mas n\u00e3o gostou. Meu irm\u00e3o que mora em S\u00e3o Paulo, Bob, detestou. E quando foi ver o show, detestou tamb\u00e9m\u201d, conta Caetano, entre quase gargalhadas. E vai apontando os poss\u00edveis motivos para o desinteresse familiar por sua nova m\u00fasica: \u201cEles n\u00e3o gostam de rock, eu acho. E a\u00ed, como tem som de rock&#8230; Mas Bob n\u00e3o gosta mais ou menos: diz que n\u00e3o gosta rindo um pouco. Mais gostando de dizer que n\u00e3o gosta do que n\u00e3o gostando propriamente\u201d, Caetano imagina. \u201cIsso \u00e9 na fam\u00edlia. Agora, nas pessoas que conhe\u00e7o \u00e9 diferente: em geral, elas gostaram \u00e0 be\u00e7a. Eu gostei. Ficou um som mais claro e puro, posso cantar normal dentro daquele ambiente de banda de rock\u2019n\u2019roll e n\u00e3o ficar inadequado.\u201d<\/p>\n<p>A cr\u00edtica se dividiu entre os muito entusiasmados com a virada de mesa do cantor e os que acham que o disco soa como mera \u201capropria\u00e7\u00e3o\u201d da est\u00e9tica indie gringa do novo rock. Caetano n\u00e3o chega a se sentir agredido com esse segundo grupo e reflete sobre a impress\u00e3o: \u201cNa teoria, o C\u00ea parece estar namorando as tend\u00eancias da atualidade, do rock pretensioso, da juventude independente. Dizendo assim, friamente, sem ter a materialidade do disco ou do show na sua frente, parece uma coisa de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas novidades para estar antenado, atualizado, para estar \u2018in\u2019, estar \u2018agora\u2019. Mas existe o disco real, existe o show real, e o fato \u00e9 que, neles, isso n\u00e3o se deu. Meu disco n\u00e3o \u00e9 isso. N\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 isso que eu quero. Basta ouvir\u201d, desafia.<\/p>\n<p>Pedro S\u00e1, que codirigiu C\u00ea com Moreno Veloso, o filho mais velho do cantor, tem 35 anos (a mesma idade de Moreno) e acompanha Caetano desde o disco Noites do Norte, de 2000. \u201cCaetano estava a fim de fazer uma parada comigo, j\u00e1 vinha falando disso desde 2001. Ele tinha algumas ideias. Primeiro, queria fazer dois discos simult\u00e2neos, um de samba e outro de rock. Depois, imaginou um trabalho tipo Gorillaz, uma coisa meio an\u00f4nima, como se fosse produzida, a voz dele distorcida\u201d, conta Pedro.<\/p>\n<p>Mas nada esteticamente muito pr\u00f3ximo a isso aconteceu \u2013 n\u00e3o naquele momento. Antes que C\u00ea se concretizasse, Caetano ainda lan\u00e7aria outros tr\u00eas discos. Primeiro, um registro ao vivo com a \u00edntegra do espet\u00e1culo gerado pelo CD Noites do Norte. Depois, Eu N\u00e3o Pe\u00e7o Desculpa (2002), estimulante \u00e1lbum dividido com Jorge Mautner \u2013 esse, sim, um precursor leg\u00edtimo de C\u00ea. Por fim, um projeto que o cantor vinha fomentando h\u00e1 bastante tempo e reunia can\u00e7\u00f5es que considerava relevantes dentro do repert\u00f3rio da m\u00fasica americana: A Foreign Sound (2004). Apesar de seu conceito s\u00f3lido (equacionando as import\u00e2ncias de Elvis Presley, Cole Porter, Bob Dylan, Duke Ellington, Steve Wonder, Irving Berlin, Nirvana e at\u00e9 de \u201cFeelings\u201d, do brasileiro-falso-gringo Morris Albert), o \u00e1lbum soava burocr\u00e1tico, longo, arrastado, distante de qualquer pe\u00e7a que se pudesse esperar de Caetano Veloso. O pior trabalho do artista, talvez. \u201cEu n\u00e3o discordo nem muito disso quanto \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 bonito e interessante, mas \u00e9 frio de um ponto de vista de como eu estava. Eu n\u00e3o tinha muito interesse em fazer aquilo quando fiz\u201d, assume o cantor. Ainda que esbarrasse no assunto rock\u2019n\u2019roll quando relia Elvis ou Nirvana, A Foreign Sound era, na pr\u00e1tica e no ouvido, a contradi\u00e7\u00e3o dos projetos que Caetano pretendia desenvolver com Pedro S\u00e1. Fr\u00edgido. Certamente por isso, por conta desse contraste, o impacto de C\u00ea se deu com tanta efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Foi Pedro o respons\u00e1vel pela vinda dos outros dois integrantes da banda de C\u00ea, Ricardo Dias Gomes (baixo, teclados) e Marcelo Callado (bateria). \u201cDepois que acabou a turn\u00ea de A Foreign Sound, eu e Caetano come\u00e7amos a estipular um cronograma, realizar mesmo o que j\u00e1 v\u00ednhamos conversando. Pensamos em fazer um disco \u2018de banda\u2019. Mas, ao mesmo tempo, que fossem poucas pessoas. Ele queria uma coisa com teclado e eu pensei imediatamente no Ricardo\u201d, relembra o guitarrista. \u201cEu me lembro que, quando recebi o e-mail do Pedro, pensei: \u2018Caralho! Porra! Vou tocar com o Caetano! O vocalista da minha banda agora vai ser o Caetano Veloso!\u2019\u201d, conta Ricardo Dias Gomes, rindo com a lembran\u00e7a de seu deslumbramento inicial. \u201cMas, quando chegou o primeiro ensaio, j\u00e1 estava mais tranquilo. E acabou que o sujeito se desfez. Hoje em dia, n\u00e3o penso mais nisso, de jeito nenhum. J\u00e1 passou, passou longe\u201d, admite. Marcelo Callado foi o \u00faltimo a ser chamado. \u201cAcho que o encontro espiritual foi instant\u00e2neo, mesmo\u201d, diz o baterista. \u201cA gente at\u00e9 j\u00e1 conhecia o Caetano de encontrar em festa, no BB Lanches, j\u00e1 tinha conversado meio r\u00e1pido, mas n\u00e3o tinha a menor intimidade com ele. E rolou uma amizade, um encontro tamb\u00e9m de refer\u00eancias n\u00e3o s\u00f3 musicais, mas de outras coisas da vida. O papo rolou.\u201d<\/p>\n<p>Tudo isso, segundo os pr\u00f3prios m\u00fasicos, fez com que o processo fosse muito mais r\u00e1pido. \u201cA gente marcou tr\u00eas semanas de ensaio e acabou ensaiando duas semanas e pouquinho. \u00c9 uma coisa de banda, \u00e9 quase amador, ent\u00e3o rola mais f\u00e1cil porque n\u00e3o tem um compromisso com o profissionalismo\u201d, explica Pedro. E Ricardo completa: \u201cTinha ensaio em que a gente fazia tr\u00eas arranjos. Sa\u00eda mandando mesmo, qualquer coisa, e ia moldando na hora. Nenhum de n\u00f3s tr\u00eas nunca teve uma vida de m\u00fasico mesmo, ent\u00e3o nossa linguagem acaba fazendo com que esse<\/p>\n<p>processo todo seja mais r\u00e1pido\u201d.<\/p>\n<hr\/>\n<p>H\u00e1 de se considerar em uma hora dessas a inacredit\u00e1vel capacidade de se adaptar (rejuvenescer?) de Caetano. O cantor vinha de uma longa e confort\u00e1vel parceria com o maestro Jacques Morelenbaum, que rendeu um total de 11 discos em 13 anos e formatou a sonoridade de sua m\u00fasica durante todo esse per\u00edodo. \u201cJacques \u00e9 um superm\u00fasico, \u00e9 um maestro e pode dar toda a seguran\u00e7a que qualquer cantor precisa. De repente, [Caetano] corta para uma outra hist\u00f3ria, essa coisa meio descontrolada que uma banda \u00e9\u201d, avalia Pedro. Mas a parceria com Jacques \u2013 que rendeu suculentos frutos, como o espet\u00e1culo de Circulad\u00f4 (de 1991, que gerou o \u00e1lbum Circulad\u00f4 Vivo em 1992) ou o disco Livro (1997) \u2013 j\u00e1 andava desgastada. E o resultado de A Foreign Sound s\u00f3 reafirmava isso. Mas Caetano \u00e9 muito grato ao maestro e dedica a ele uma das m\u00fasicas do show de C\u00ea. \u201cJacquinho \u00e9 um artista extraordin\u00e1rio. Perdi muito o medo da m\u00fasica convivendo com ele, um m\u00fasico muito superior a 90% dos m\u00fasicos que conhe\u00e7o, e eu conhe\u00e7o muitos m\u00fasicos. Uma das coisas mais frequentes no mundo da m\u00fasica \u00e9 a for\u00e7a que a musicalidade de uma pessoa tem de intimidar aquelas que a t\u00eam menos. Pois ele nunca me intimidou com sua capacidade musical\u201d, elogia. \u201cTenho saudade, ele tamb\u00e9m. Mas \u00e9 muito bom para mim e \u00e9 muito bom para ele. N\u00e3o tenha d\u00favida, todo mundo sabe disso. Ele esperava isso [a separa\u00e7\u00e3o] um pouco mais cedo, j\u00e1 me tinha falado. N\u00e3o que tivesse vontade de se afastar, mas achava que, naturalmente, eu iria fazer uma coisa que n\u00e3o tivesse o neg\u00f3cio dele.\u201d<\/p>\n<p>O show de Santos foi quente, j\u00e1 podia figurar entre os melhores de toda a turn\u00ea de C\u00ea. \u201cPercebeu a diferen\u00e7a?\u201d, foram as primeiras palavras que o pr\u00f3prio Caetano lan\u00e7ou, com um sorriso satisfeito no rosto, assim que me viu entrando em seu camarim depois da apresenta\u00e7\u00e3o. A pergunta incitava uma compara\u00e7\u00e3o com o show imediatamente anterior, realizado um fim de semana antes, em Cuiab\u00e1, e que eu tamb\u00e9m tinha acompanhado. N\u00e3o havia como negar: em Santos, todo o vulc\u00e3o sexual de C\u00ea tinha sido explorado por ele. E assimilado, digerido e devolvido pela plateia ao artista no palco. R\u00e1pida e intensamente. Era isso que Caetano queria. E era isso que queria tamb\u00e9m cada um dos pagantes. Tudo estava mais claro agora.<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">C<\/span> aetano canta \u201ccomo 2 e 2\u201d em cima do palco met\u00e1lico montado no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiab\u00e1 (MT). \u00c9 s\u00e1bado, 30 de junho, e a cidade n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o quente quanto sempre ouvi dizer que era. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o faz frio. Na mesa ao lado, um grupo de quatro meninas de seus 20 e poucos anos passa o tempo tirando fotos delas pr\u00f3prias enquanto rola o show. Aproveitam os intervalos entre uma m\u00fasica e outra para gritar: \u201c\u2018Le\u00e3ozinho\u2019! \u2018Le\u00e3ozinho\u2019!\u201d. Quando percebem que o cantor l\u00e1 no palco n\u00e3o atendeu ao pedido, voltam aos pr\u00f3prios flashes. Sinto que essas garotas n\u00e3o destoam tanto assim do resto do p\u00fablico sentado ao meu redor. Minha vontade maior \u00e9 ir para o fundo do gin\u00e1sio, onde n\u00e3o h\u00e1 cadeiras, o ingresso \u00e9 mais barato e o p\u00fablico mais atento ao show. Mas, dada a dist\u00e2ncia, a vis\u00e3o dali para o palco \u00e9 quase nenhuma. Acabo desistindo de levantar da cadeira.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0quela cidade no comecinho da noite anterior. A ideia era chegar bem mais cedo e passar o dia todo com Caetano, fazendo a primeira etapa de perguntas que gerariam esta mat\u00e9ria. Por conta de mais de cinco horas de atraso no v\u00f4o, nada disso aconteceu. E ainda perdi o passeio combinado \u00e0 Chapada dos Guimar\u00e3es que toda a trupe \u2013 tendo o pr\u00f3prio Caetano como guia tur\u00edstico \u2013 fez \u00e0 tarde. Quando pisei no hotel, eles ainda n\u00e3o haviam voltado. O rem\u00e9dio era esperar \u2013 n\u00e3o sem uma consider\u00e1vel dose de ansiedade \u2013 que o telefone do quarto tocasse. Coisa que s\u00f3 foi acontecer duas horas depois.<\/p>\n<p>Do outro lado da linha, quem me chamava para subir ao quarto de Caetano era Giovana Chanley, assistente direta do cantor, a pessoa que o acompanha em todas as viagens das turn\u00eas. Ela parece entender bastante bem como lidar com a delicada fun\u00e7\u00e3o que exerce. \u201cDurante as viagens, tento fazer com que ele se sinta um pouco em casa, que mantenha o m\u00e1ximo da rotina, porque pular de cidade para cidade \u2013 e chega e \u00e9 outro quarto, \u00e9 outra cama \u2013 \u00e9 dif\u00edcil\u201d, ela me contaria depois. \u201cSei que ele gosta de Nescau, ent\u00e3o eu trago a lata e ponho no hotel para ele. Principalmente quando a gente vai para o exterior e s\u00f3 existe Quick \u2013 que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 igual ao Nescau de que ele gosta. Tiro toda a roupa da mala, mesmo que a gente v\u00e1 ficar s\u00f3 um dia, pe\u00e7o para passar, coloco tudo no guarda-roupa, bonitinho, arrumado na gaveta. Porque eu acho que d\u00e1 aquela sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar viajando. Nem sei se ele nota isso, mas fa\u00e7o quest\u00e3o de fazer.\u201d<\/p>\n<p>Chego ao quarto de Caetano, tr\u00eas andares acima do meu, e Giovana j\u00e1 me espera na porta. \u00c9 a su\u00edte presidencial, enorme como s\u00e3o sempre as su\u00edtes presidenciais. Ele est\u00e1 sentado \u00e0 mesa da sala de jantar, com seu notebook aberto, \u201crespondendo uns e-mails\u201d, me diz sorrindo. Seus olhos est\u00e3o vermelhos. Vai me explicando sem desviar a aten\u00e7\u00e3o da tela do computador: \u201cPreferi falar com voc\u00ea agora, n\u00e3o dormi direito por causa da viagem, pretendo ir para a cama mais cedo hoje\u201d. S\u00e3o mais ou menos 8 e meia da noite e, no caso de Caetano, ir para a cama mais cedo n\u00e3o \u00e9 exatamente o que se imagina. Sabe-se que, antes das 6 da manh\u00e3, \u00e9 imposs\u00edvel que ele j\u00e1 tenha dormido. \u201cEle fica trabalhando muito no computador, assiste filmes, faz as coisas \u00e0 noite. E, durante o dia, descansa. Acordo-o no meio da tarde e vamos para a passagem de som\u201d, conta Giovana. \u201cOs hor\u00e1rios dele s\u00e3o diferentes dos meus. Estou sempre disposta, porque durmo superbem. Isso \u00e9 uma coisa que ele sempre brinca: eu entro no avi\u00e3o e, antes de decolar, j\u00e1 estou dormindo. E acordo s\u00f3 no lugar. Ele morre de inveja porque n\u00e3o consegue dormir. Mas isso \u00e9 bom, porque estou sempre bem para quando ele precisa de mim, que \u00e9 no final do dia e \u00e0 noite, quando a gente come\u00e7a realmente a trabalhar.\u201d<\/p>\n<hr\/>\n<p>O pr\u00f3prio Caetano sugere que pe\u00e7amos o jantar e jantemos enquanto rola a entrevista. Ele escolhe um peixe ao leite de coco com legumes e uma salada. E Coca-Cola. Aceito a sugest\u00e3o. Para come\u00e7ar a conversa, decidi ler uma frase que ele pr\u00f3prio escreveu em 1970, do meio do ex\u00edlio londrino, para o jornal O Pasquim. Era um recado para Gal Costa, que acabava de lan\u00e7ar seu segundo disco solo: \u201cSeu disco \u00e9 muito bacana. Voc\u00ea deve ter brigado muito por ele. Com voc\u00ea mesma, com algu\u00e9m, com alguma coisa\u201d. Ser\u00e1 que essas conclus\u00f5es serviriam tamb\u00e9m para definir o processo de cria\u00e7\u00e3o de C\u00ea? \u201cN\u00e3o, n\u00e3o tive que brigar pelo disco\u201d, ele responde. \u201cSe tanto, comigo mesmo. Mas creio que nem comigo.\u201d<\/p>\n<p>Essa impress\u00e3o, a de \u201cvoc\u00ea deve ter brigado muito por esse disco\u201d, n\u00e3o vem apenas por suas quebras est\u00e9ticas em rela\u00e7\u00e3o ao que ele, Caetano, vinha fazendo imediatamente antes. Ela vem tamb\u00e9m, e com for\u00e7a de mesmo ou maior porte, do tom autobiogr\u00e1fico (e bastante agressivo) das letras. \u201cQueria fazer um trabalho com a banda de rock com as coisas concentradas, pe\u00e7as concisas, com uma linguagem direta e certa viol\u00eancia. Tinha a intui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do que queria e ia procurando\u201d, ele explica. \u201cOs temas de separa\u00e7\u00e3o, de brigas, estavam presentes na minha cabe\u00e7a porque eu estava me separando. Mas, enquanto fazia, n\u00e3o considerava a maior parte daquelas coisas como diretamente ligada aos epis\u00f3dios da minha vida, embora alguns temas viessem com facilidade porque estavam no repert\u00f3rio da minha cabe\u00e7a .\u201d<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">A<\/span> quela era, para Caetano, Uma fase conturbada. Seu longo<\/p>\n<p>casamento com Paula Lavigne estava oficialmente terminado. Se o romance j\u00e1 havia rendido odes carinhosas como \u201cBranquinha\u201d (em Estrangeiro, de 1989) ou \u201cVoc\u00ea \u00c9 Minha\u201d (em Livro,<\/p>\n<p>de 1997), seu t\u00e9rmino inspirava agora temas de \u00f3dio \u2013 ou de amor ao avesso \u2013 como \u201cEu N\u00e3o Me Arrependo de Voc\u00ea\u201d ou mesmo \u201cOdeio\u201d. \u201cSe voc\u00ea sofre uma perda amorosa e o mar est\u00e1 violentamente azul, e o sol, e as pessoas que passam s\u00e3o bonitas, isso d\u00f3i muito mais. O \u00fanico jeito de voc\u00ea lembrar daquela pessoa que voc\u00ea ama, e a intensidade de amor real, \u00e9 poder sentir que odeia aquela pessoa na exuber\u00e2ncia das outras coisas\u201d, ele diz. \u201cAs imagens que me vinham eram as de Fernando de Noronha onde tinha estado dois anos antes de me separar. E me lembro de l\u00e1 como um dos lugares mais deslumbrantes da minha vida. Eu n\u00e3o estava l\u00e1 [quando fez a m\u00fasica], mas meus dois filhos menores e minha ex-mulher estavam. E eu fiquei pensando nisso. Na verdade, me coloquei no lugar deles, porque eu \u00e9 que n\u00e3o estava com eles. N\u00e3o era eu odiando algu\u00e9m. Entendeu como \u00e9 o processo? \u00c9 muito indireto, jamais faria um neg\u00f3cio agressivo diretamente para uma pessoa, tornando p\u00fablico, como se fosse uma briga. Nesse ponto, a Paulinha sabe, ela \u00e9 muito esperta para saber a dist\u00e2ncia entre uma can\u00e7\u00e3o e a vida.\u201d<\/p>\n<p>Ainda sobre esse assunto, Caetano conta que, quando mostrou, ao viol\u00e3o, a can\u00e7\u00e3o \u201cOdeio\u201d a Jorge Mautner, este teve uma crise de choro. \u201cDepois, quando mostrei j\u00e1 gravada, ele chorava mais ainda. Mautner acha bonito que, na hora que entra no refr\u00e3o dizendo \u2018odeio voc\u00ea\u2019, a can\u00e7\u00e3o, em vez de subir, des\u00e7a e fique mais pr\u00f3xima, mais terna\u201d, explica. \u201cEnt\u00e3o ele dizia: \u2018A gente sabe que dizer \u2018odeio voc\u00ea\u2019 \u00e9 a maneira mais pr\u00f3xima de dizer \u2018amo voc\u00ea\u2019. Parece um carinho\u2019. Ele chorava l\u00e1grimas. E, na verdade, Jorge tem raz\u00e3o. Quando fiz a m\u00fasica, pensava justamente em como esses sentimentos de amor se convertem em \u00f3dio com muita facilidade. \u00c9 o avesso da mesma fazenda. E a gente sabe disso, todo mundo sabe, mas nesse per\u00edodo eu pensava muito nisso, e sentia. Ou melhor, eu pr\u00f3prio n\u00e3o sentia isso, estava imaginando o que se sente, porque quando voc\u00ea tem briga de amor, tem muitas raivas. Mas n\u00e3o era o caso no per\u00edodo dessa m\u00fasica, n\u00e3o era isso. Estava pensando em como acontece isso com as pessoas, e n\u00e3o estava sentindo tanto assim em mim. Achava que o fato de haver tanto amor e estar desfazendo, que aquilo criava uma maneira de dizer o amor como \u2018odeio\u2019.\u201d<\/p>\n<p>A essa altura, j\u00e1 estamos jantando. Ao contr\u00e1rio do habitual, Caetano come primeiro o prato quente para depois partir para a salada. Por alguma for\u00e7a de sua influ\u00eancia, segui essa mesma ordem \u201cinvertida\u201d. No dia seguinte, Giovana fez um coment\u00e1rio que me lembraria esse momento. \u201cTrabalhar com o Caetano tem uma parte muito legal que \u00e9 a de poder assistir as pessoas se aproximarem dele\u201d, ela conta. \u201cTanto em rela\u00e7\u00e3o aos f\u00e3s quanto aos amigos, eu vejo sempre muito esfor\u00e7o nas pessoas. Um esfor\u00e7o para n\u00e3o dar fora, para n\u00e3o falar alguma coisa errada. Todo mundo se posiciona primeiro para falar com ele.\u201d<\/p>\n<p>Numa conversa posterior, coloquei essa quest\u00e3o ao pr\u00f3prio Caetano. \u201cVejo isso menos do que uma pessoa que esteja observando de fora, porque s\u00f3 vejo as pessoas quando elas j\u00e1 est\u00e3o comigo. Algumas s\u00e3o nitidamente mais inaut\u00eanticas e demonstram esse tipo de coisa com muitas outras pessoas, n\u00e3o s\u00f3 comigo. Mas acredito que a maioria das pessoas que t\u00eam contatos reais comigo falam o que acham mesmo e reagem espontaneamente.\u201d Em seguida, ele reverte o tema para seu lado e diz que tamb\u00e9m age de forma raciocinada com algumas outras pessoas. Cita o artista pl\u00e1stico Rog\u00e9rio Duarte e o escritor Jos\u00e9 Agrippino de Paula, autor do livro PanAm\u00e9rica, dois artistas importantes para o mosaico de influ\u00eancias tropicalistas. E Chico Buarque. \u201cNa presen\u00e7a do Chico fico excitado demais, falando muito. Ele \u00e9 muito diferente de mim, gosto muito dele e n\u00e3o tenho vontade nenhuma de dizer alguma coisa que o desagrade. Sou muito tiete. As pessoas por quem tenho admira\u00e7\u00e3o, sinto essa mesma coisa que voc\u00ea est\u00e1 descrevendo. A pessoa v\u00ea que fico diferente. O pr\u00f3prio cara talvez n\u00e3o veja, porque s\u00f3 me v\u00ea quando estou com ele, mas os meus amigos, minhas mulheres, meus parentes v\u00eaem, sabem. E eu pr\u00f3prio sei muito. Ent\u00e3o, \u00e9 normal isso.\u201d<\/p>\n<hr\/>\n<p>Nosso jantar \u00e9 sem pressa, v\u00ea-se que Caetano gosta de conversar. Ele arruma o peixe no garfo, leva o talher at\u00e9 a boca e desiste, prefere continuar seu racioc\u00ednio a engolir a comida, que, a essa altura, j\u00e1 est\u00e1 fria. \u201cAdoro dar entrevistas, s\u00f3 n\u00e3o gosto de ler o que elas viram depois de impressas\u201d, disse num sorriso de quem est\u00e1 dando um recado. Escolhe bem cada palavra. Come\u00e7a a responder a uma pergunta e, se percebe que precisa entrar em outro assunto para que sua resposta fique completa, abre par\u00eanteses imagin\u00e1rios e o desenvolve por longos minutos. Vai longe, mas volta exatamente ao ponto de partida. Fecha os par\u00eanteses imagin\u00e1rios e termina de responder a pergunta original. N\u00e3o se perdeu nenhuma vez durante mais de seis horas de conversa. N\u00e3o quer saber do molho da salada. \u201cComo folha pura. Em casa, fa\u00e7o um buqu\u00ea de alface, r\u00faculas e agri\u00f5es e como, feito um bicho. Adoro azeite. Mas se for para molhar no azeite n\u00e3o vai dar para pegar na m\u00e3o, e na m\u00e3o \u00e9 que \u00e9 bacana.\u201d<\/p>\n<p>Falamos por quase quatro horas nessa primeira sentada \u2013 e s\u00f3 paramos porque esse era o tempo m\u00e1ximo que cabia no meu gravador digital. Ainda assim, s\u00f3 pouco mais de metade das perguntas anotadas estavam respondidas. Um novo encontro ficou marcado para o outro dia, depois do show. \u201cAntes n\u00e3o \u00e9 bom por causa da voz\u201d, ele explicou. No dia seguinte, ele pr\u00f3prio decidiu que a conversa poderia ser antes de sua entrada no palco. Fomos no seu carro ao Centro de Eventos do Pantanal: ele na frente com o motorista, eu no banco traseiro com Giovana. \u201cVoc\u00ea perdeu o passeio \u00e0 Chapada dos Guimar\u00e3es\u201d, ele me disse sem olhar para tr\u00e1s. \u201c\u00c9 um lugar deslumbrante.\u201d Conta que \u00e9 l\u00e1 que fica o Centro Geod\u00e9sico da Am\u00e9rica do Sul, \u201cum ponto equidistante entre o Atl\u00e2ntico e o Pac\u00edfico\u201d onde, segundo a letra de uma de suas m\u00fasicas, \u201cdescer\u00e1 o \u00edndio imp\u00e1vido que nem Mohamed Ali\u201d. \u201c[O guitarrista] Pedro S\u00e1, que Moreno chama de \u00cdndio, ficou em p\u00e9 em cima desse ponto<\/p>\n<p>equidistante. Queria ter tirado uma foto disso para mandar a Moreno\u201d, ele diz.<\/p>\n<p>Moreno \u00e9, junto com Pedro S\u00e1, o diretor do \u00e1lbum C\u00ea. E parece ter conseguido lidar muito bem com o fato de ser \u201co filho de Caetano Veloso\u201d \u2013 o que, se considerarmos o tamanho do artista em quest\u00e3o, poderia ser uma experi\u00eancia sofrida, cheia de expectativas frustradas. Mais ainda por Moreno tamb\u00e9m ter enveredado para o meio musical. \u201cNunca me preocupei com isso. N\u00e3o esperava mesmo que nada disso fosse acontecer porque ele \u00e9 \u00f3timo e a gente se deu sempre muito bem. Eu adoro ele\u201d, rebate o pai. Sua rela\u00e7\u00e3o com o filho mais velho \u00e9 interessante. Sabe-se que, muitas vezes, Caetano gosta de trocar de pap\u00e9is com Moreno: ouve suas broncas, precisa de sua for\u00e7a. \u201cO Moreno tem um esp\u00edrito de mestre. Ele me situa com muita objetividade, \u00e9 um conselheiro. Tem mais sabedoria do que eu\u201d, elogia. Sabedoria pr\u00e1tica? \u201cInclusive. Ele \u00e9 muito objetivo. Moreno \u00e9 uma personalidade peculiar: \u00e9 sonhador e objetivo. Tem um senso de perspectiva do real muito desenvolvido. Aparentemente, \u00e9 uma pessoa do mundo da fantasia, mas, quando nos falamos, ele me p\u00f5e a perspectiva de uma maneira s\u00e1bia.\u201d<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">O<\/span> camarim n\u00e3o \u00e9 muito grande, nem chega a ser aconchegante. Mas \u00e9 ali que retomaremos nossa conversa, interrompida na noite anterior. Giovana abre duas latinhas de Coca-Cola sem que ningu\u00e9m pe\u00e7a (nessa hora me dei conta de que ela fez isso v\u00e1rias vezes, sempre sem que ningu\u00e9m percebesse), uma para mim, outra para ele, e nos deixa a s\u00f3s. Caetano se recosta em um enorme pufe preto e branco. Fico sentado no tapete. Ligo o gravador (desta vez, daqueles de fita). \u201cUsei muito o gravador ao longo da vida para n\u00e3o esquecer das coisas das composi\u00e7\u00f5es, mas frequentemente, mesmo tendo gravador, uso pouco, eu decoro\u201d, ele diz. \u201cVou te dizer que perdi coisas e depois recuperei. Por exemplo, a Ded\u00e9 salvou \u2018Atr\u00e1s do Trio El\u00e9trico\u2019. N\u00e3o gravei e no outro dia n\u00e3o lembrava nada. Mas Ded\u00e9 lembrava\u201d, ele conta.<\/p>\n<p>\u201cAtr\u00e1s do Trio El\u00e9trico\u201d foi feita no final dos anos 60 e \u00e9 um cl\u00e1ssico indiscut\u00edvel para al\u00e9m dos carnavais. Tento trazer esse sentimento para nossa conversa: o do compositor cl\u00e1ssico, o do mito, o do mestre da m\u00fasica popular brasileira. Ele parece n\u00e3o se afetar com essas palavras de cargas t\u00e3o fortes. \u201cTenho pena de n\u00e3o ter trabalhado t\u00e3o bem para as can\u00e7\u00f5es serem melhores\u201d, dispara. \u201cAcho que, em todas as minhas m\u00fasicas, eu me dou por satisfeito antes de elas merecerem. Fica meio sujo, termino antes de estar pronto. \u00c9 tudo meio assim. Raras vezes isso n\u00e3o aconteceu.\u201d O melhor \u00e9 reformular minha quest\u00e3o. Como ser\u00e1 para Caetano Veloso assistir a um show dos Rolling Stones, por exemplo? Ele se v\u00ea ali, naquele palco, com um tamanho proporcional \u00e0quilo? \u201cPenso no p\u00e1reo, sim\u201d, ele responde. \u201cDo que \u00e9 que a gente faz, do que \u00e9 que essas pessoas fazem. E vejo muita coisa. Eu me lembro quando estava em Londres [entre 69 e 72], a primeira vez que vi esses espet\u00e1culos de grandes nomes. Vi todo mundo e fiquei chocado como era menos [do que imaginava].\u201d<\/p>\n<p>Agora, seus olhos n\u00e3o t\u00eam mais a cor avermelhada da noite anterior, sua voz tem mais brilho e seu sorriso \u00e9 mais frequente. \u201cVoc\u00ea me parece mais feliz hoje do que ontem\u201d, arrisquei. Outro sorriso dele: \u201c\u00c9 porque dormi bem. Ontem, estava sem dormir e isso \u00e9 uma coisa important\u00edssima para a felicidade de qualquer pessoa. N\u00e3o acho f\u00e1cil dormir. Estou mesmo melhor hoje por isso.\u201d A falta de boas noites de sono se deve, em grande parte, ao ritmo intenso da turn\u00ea e ele pr\u00f3prio reclama de tanto trabalho. \u201cTenho show demais para fazer, estou um pouco preocupado. Fiquei mais velho e, em vez de ficar mais econ\u00f4mico das minhas for\u00e7as, exagerei. Mas n\u00e3o quero deixar de fazer\u201d, desabafa. \u201cO mundo ficou muito maior para mim hoje, tenho muitos lugares para ir. Quando era jovem, tinha poucos lugares para fazer show, fazia um disco por ano\u201d, compara. \u201cN\u00e3o d\u00e1, n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00e3o. Depois daqui [de Cuiab\u00e1], emendo shows em Goi\u00e2nia, Juazeiro, Feira de Santana. Depois tem Am\u00e9rica Espanhola, Europa, Estados Unidos. At\u00e9 o final de novembro, dia sim, dia n\u00e3o. Em algumas cidades s\u00e3o duas noites, dois shows emendados. Fico muito acabado, ainda estou me recuperando da excurs\u00e3o no interior de S\u00e3o Paulo. Est\u00e1 meio barra.\u201d No palco, Caetano realmente n\u00e3o se poupa. \u201cTeve um show agora, acho que em Presidente Prudente [SP], em que Caetano desceu pelo palco. Era muito alto, ent\u00e3o ele se pendurou na estrutura de ferro e ficou dando tchau\u201d, conta Marcelo Callado. \u201cEm seguida, desceu, foi l\u00e1 embaixo, junto da galera. E a gente n\u00e3o o viu mais. Um bom tempo depois ele veio subindo pelo outro lado. Eu disse: \u2018Porra, caralho, Caetano! Foi demais! Tu desceu!\u2019. Ele falou: \u2018\u00c9, nos anos 70 eu fazia muito mais. Eu olhava as estruturas para ver onde podia trepar. Hoje me deu vontade\u2019.\u201d Mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais delicada fora do palco, principalmente quando se equaciona o n\u00famero de envolvidos na realiza\u00e7\u00e3o de cada show. S\u00e3o 28 pessoas fixas viajando com ele (vale lembrar que a banda \u00e9 pequena, de apenas tr\u00eas m\u00fasicos). Segundo os c\u00e1lculos fornecidos pelo contratante de Cuiab\u00e1, al\u00e9m dessas 28 pessoas, existem mais ou menos 100 outros, envolvidos em algum grau da produ\u00e7\u00e3o: motoristas, divulgadores, seguran\u00e7as, bilheteiros, gar\u00e7ons, etc. Tudo para que esse \u00fanico show aconte\u00e7a. Se esse c\u00e1lculo estiver exato, s\u00e3o 128 pessoas que, em maior ou menor intensidade, precisam dele, precisam que ele fa\u00e7a shows, precisam que ele exista.<\/p>\n<hr\/>\n<p>\u201cUma das coisas piores de envelhecer \u00e9 a mem\u00f3ria da gente. Isso atrapalha muito escrever prosa. Sinto uma diferen\u00e7a muito grande do tempo em que escrevi Verdade Tropical. Minha cabe\u00e7a era de uma velocidade que, se precisasse de uma palavra, bastava convidar que ela vinha. Hoje, acho que preciso de um dicion\u00e1rio anal\u00f3gico e umas anota\u00e7\u00f5es. Acho minha cabe\u00e7a devagar, nunca mais vou escrever com aquele ritmo bonito.\u201d O passar dos anos foi um tema recorrente em nossa conversa. Muito por eu mesmo t\u00ea-lo estimulado, \u00e9 verdade \u2013 e Caetano dava broncas, dizendo que \u00e9 cedo demais para eu me deixar levar por esse tipo de obsess\u00e3o. Mas muito por uma motiva\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do cantor, exposto tamb\u00e9m nos versos de C\u00ea. O show, que come\u00e7aria em menos de uma hora, traria de volta a pequena obra-prima \u201cO Homem Velho\u201d, can\u00e7\u00e3o feita por Caetano em meados dos anos 80 que j\u00e1 tratava do assunto com lucidez e lirismo. A grava\u00e7\u00e3o original era dedicada a Mick Jagger, Chico Buarque e a seu pai, Jos\u00e9 Telles Velloso, rec\u00e9m-falecido. Hoje, tem-se a impress\u00e3o de que Caetano dedica a can\u00e7\u00e3o a ele pr\u00f3prio. \u201cEu me acho hoje parecid\u00edssimo com meu pai. O clima, o jeito. Vejo \u00e0s vezes na fotografia ou no v\u00eddeo. Ali\u00e1s, minha fam\u00edlia, minha m\u00e3e, meus irm\u00e3os, todo mundo l\u00e1 em casa acha isso\u201d, completa. O show de Cuiab\u00e1 foi realmente confuso, desconcentrado. Caetano n\u00e3o gostou nem um pouco da rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, que falou durante as m\u00fasicas e andou de l\u00e1 para c\u00e1 o tempo todo. \u201cO pior show de toda a temporada do C\u00ea, sem d\u00favida nenhuma\u201d, afirmam os m\u00fasicos assim que entro no camarim. Segundos depois, chegam ali quatro meninas, que identifico de imediato: s\u00e3o as mesmas que ficaram fazendo autorretratos durante toda a apresenta\u00e7\u00e3o e, apesar dos incans\u00e1veis pedidos, n\u00e3o ouviram \u201cO Le\u00e3ozinho\u201d. Sorridentes (eu me arriscaria a dizer que est\u00e3o felizes de fato), contam ter adorado o show. Beijam Caetano, tiram mais fotos. Quase t\u00edmidas, v\u00eam em dire\u00e7\u00e3o aos m\u00fasicos \u2013 eu sentado entre eles. Cumprimentam, um a um, n\u00f3s quatro. Uma diz, olhando nos meus olhos, que toquei muito bem. Come\u00e7o a entender que, nas mais de duas horas de show, elas n\u00e3o tiveram tempo de notar que, al\u00e9m de Caetano, s\u00f3 havia mais tr\u00eas pessoas no palco. Por fim, pedem, \u00e9 claro, para tirar uma foto com a banda. Os meninos se voltam para mim com um olhar quase s\u00e1dico, que logo entendo e obede\u00e7o: levanto, abra\u00e7o os tr\u00eas m\u00fasicos e tr\u00eas das meninas. A quarta, atr\u00e1s da c\u00e2mera, aperta o bot\u00e3o e logo diz, animada: \u201cA foto ficou \u00f3tima!\u201d.<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">S<\/span> egundo a produ\u00e7\u00e3o do Jo\u00e3o Rock \u2013 festival de m\u00fasica que acontece anualmente em Ribeir\u00e3o Preto (SP) \u2013, cerca de 30 mil pessoas haviam rodado as catracas do Est\u00e1dio do Comercial para acompanhar as oito atra\u00e7\u00f5es desta sexta edi\u00e7\u00e3o do evento. \u00c9 s\u00e1bado, 16 de junho. A maratona inclu\u00eda bandas e artistas dos anos 90 e 2000, mas o show mais esperado da noite trazia de volta o som de um long\u00ednquo 1968. Com Z\u00e9lia Duncan ocupando o posto que um dia foi de Rita Lee, Os Mutantes demoravam muito mais do que o normal para entrar no palco e de nada adiantava a gritaria vinda do mar de gente que aguentava firme desde as 5 da tarde at\u00e9 aquele momento, mais de duas da manh\u00e3. Fui chamado nos bastidores e recebi a not\u00edcia: Caetano Veloso estava a caminho do est\u00e1dio e \u2013 momento hist\u00f3rico \u2013 participaria do show da lend\u00e1ria banda tropicalista. Era essa a raz\u00e3o do atraso.<\/p>\n<p>Em 2007, a invas\u00e3o tropicalista completa quatro d\u00e9cadas. Foi em 1967 que Caetano, acompanhado pelo grupo de i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea argentino Beat Boys, apresentou \u201cAlegria, Alegria\u201d no Festival da Record. Que Gilberto Gil e Os Mutantes, tamb\u00e9m armados de guitarras el\u00e9tricas, conquistaram o 3\u00ba lugar com \u201cDomingo no Parque\u201d. De l\u00e1 para c\u00e1, muitas outras manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas foram armadas no pa\u00eds, experi\u00eancias musicais bastante renovadoras se deram. Mas a Tropic\u00e1lia continua reinando como o \u00faltimo grande movimento da m\u00fasica popular brasileira. Em entrevista que fiz recentemente com Lob\u00e3o, ele reclamava justamente disso. E dizia que, no come\u00e7o de sua carreira, tinha como plano \u201cmatar\u201d a gera\u00e7\u00e3o tropicalista para poder ser reconhecido como m\u00fasico brasileiro. \u201cFalava isso para o Cazuza em 1982, queria que nossa gera\u00e7\u00e3o promovesse a ruptura com tudo isso. Mas n\u00e3o conseguimos\u201d, disse Lob\u00e3o na conversa.<\/p>\n<p>Caetano reconhece que, na arquitetura do tropicalismo, ele j\u00e1 tinha vontade de que aquele fosse \u201cum movimento para acabar com todos os movimentos\u201d. Mas n\u00e3o concorda com o modus operandi imaginado por Lob\u00e3o. \u201cN\u00e3o sei se isso \u00e9 necess\u00e1rio [destronar quem veio antes]\u201d, continua o baiano. \u201cTalvez isso seja contraproducente, porque voc\u00ea entra na coisa parecendo que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 acreditando tanto no seu taco. Penso como Jorge Luis Borges: \u2018Um grande autor inventa seus precursores\u2019. Ele fala que muita coisa anterior a [o escritor Franz] Kafka passou a ser mais interessante depois dele. Que o passado foi muito mais influenciado por Kafka que o futuro \u2013 ou pelo menos t\u00e3o influenciado quanto.\u201d Essa teoria parece ser confirmada com o depoimento que Lulu Santos deu recentemente aqui mesmo na Rolling Stone Brasil. Artista surgido na segunda metade dos anos 70 na mesma banda de Lob\u00e3o, o V\u00edmana, Lulu afirma que s\u00f3 conseguiu se interessar por samba (est\u00e9tica anterior ao tropicalismo) depois de o g\u00eanero ser processado \u2013 e clareado conceitualmente \u2013 pelos pr\u00f3prios tropicalistas.<\/p>\n<p>Um cap\u00edtulo sobre a gera\u00e7\u00e3o do rock dos anos 80 seria inclu\u00eddo em Verdade Tropical, livro de mem\u00f3rias e ensaios que Caetano lan\u00e7ou em 1997. Mas o texto acabou ficando de fora da edi\u00e7\u00e3o. \u201cAli eu falava sobre a quest\u00e3o dessa primeira grande gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos de rock que funcionou no Brasil em todos os n\u00edveis: comercialmente, culturalmente, de personalidade\u201d, diz. \u201cFoi quando o rock dominou pela primeira vez o panorama da coisa brasileira. Mas os precursores disso pareciam para eles n\u00e3o existir. Nem Roberto, nem Erasmo, nem Celly Campelo. N\u00e3o tinha nada. Nem Raul Seixas, nem Rita Lee, nada. S\u00f3 Paula Toller deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Rita: \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra\u201d, continua. E come\u00e7a a investigar os motivos: \u201c\u00c9 uma falta de vontade de admitir esse desenvolvimento org\u00e2nico da criatividade brasileira, do que acontece de fato aqui. E como isso vai encorpando. Cada um tem um desejo de se desvencilhar de tudo isso e se vincular automaticamente a um modelo de l\u00edngua inglesa. \u2018N\u00e3o tenho nada a ver com Raul Seixas, nem com Roberto e Erasmo, nem com os tropicalistas, nem com a m\u00fasica brasileira. Mas tenho tudo a ver com Joy Divison ou The Smiths\u2019. Parece que tem que ser uma ades\u00e3o imediata a alguma coisa que \u00e9 forte no mundo da cultura de massa dominante\u201d.<\/p>\n<p>Quando a van que trazia a trupe de C\u00ea chegou ao Jo\u00e3o Rock, um bando de f\u00e3s dos Mutantes (j\u00e1 b\u00eabados ou malucos) fechava a entrada do camarim, tentando uma palavra de paz e amor com os irm\u00e3os Baptista. Caetano desceu meio sem saber o que fazer. Como n\u00e3o viu nenhum rosto mais conhecido que o meu nas redondezas, veio diretamente na minha dire\u00e7\u00e3o. Aproveitei a deixa para contar que estava louco atr\u00e1s dele desde mar\u00e7o, pois pretendia fazer uma mat\u00e9ria comemorando os 40 anos do tropicalismo, mas que achava agora que o melhor seria fazer sobre sua fase atual, sobre o hoje, sobre o C\u00ea. Ele topou na hora. \u201cGosto de falar, falo sobre qualquer assunto, \u00e9 s\u00f3 me perguntar que saio respondendo\u201d, brincou.<\/p>\n<hr\/>\n<p>Essa \u00e9 quase a mesma frase que ele repete nos shows, quando cita suas constantes opini\u00f5es dadas sobre pol\u00edtica (al\u00e9m de muitas outras) nos jornais e nas revistas. Eu mesmo, em uma das entrevistas que fiz para esta mat\u00e9ria, pedi um resumo atualizado dessas opini\u00f5es. \u201cToda essa com\u00e9dia rom\u00e2ntica da pol\u00edtica brasileira p\u00f3s-ditadura \u00e9 at\u00e9 um luxo\u201d, disse. \u201cPorque depois do governo Sarney \u2013 um governo com altos e baixos \u2013 a gente teve o \u2018meteoro Collor\u2019. Este passou como um raio, foi horr\u00edvel com aquela cafonada e aquela corrup\u00e7\u00e3o espalhafatosa, mas abriu o mercado. Tivemos o Itamar, que botou FHC pra fazer o Plano Real. Dois mandatos de FHC e agora dois mandatos de Lula. Se em pleno governo Sarney algu\u00e9m dissesse, projetando para o futuro, que ter\u00edamos um governo de FHC e, depois dele, um governo Lula, iam dizer que era uma utopia, que era sonho dos sonhos. Pois bem, o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 o sonho dos sonhos, ent\u00e3o \u00e9 de assustar que isso tenha feito o sucesso que fez e vem fazendo.\u201d E continua: \u201cLula tem muita sorte. Isso \u00e9 bom. Eu considero isso como valor pol\u00edtico. Porque, durante todo o tempo em que ele est\u00e1, todas as configura\u00e7\u00f5es da economia internacional foram ben\u00e9ficas aos planos da pol\u00edtica econ\u00f4mica brasileira. Ele consegue um ritmo. Sorte n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 pura sorte. Ele tem um jeito dele. Aprendeu a fazer pol\u00edtica, a sair ganhando de todas, se desvencilhando dos companheiros que se tornam problem\u00e1ticos. Ele viaja na hora e, quando<\/p>\n<p>volta, est\u00e1 certo de que se safa de todas. E ele se coloca bem para manter o sucesso que \u00e9 ele ter chegado \u00e0 presid\u00eancia. O Lula \u00e9 a Madonna. Ele \u00e9 assim: \u2018Vai fazer sucesso ou n\u00e3o? Quero provar que vou fazer mais sucesso do que todos\u2019. A sensa\u00e7\u00e3o que a gente tem at\u00e9 hoje \u00e9 que ainda estamos na festa da posse do Lula\u201d.<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">F<\/span> oi inevit\u00e1vel, numa hora dessas, querer saber as opini\u00f5es de<\/p>\n<p>Caetano sobre o minist\u00e9rio de Gilberto Gil, seu maior parceiro de jornada tropicalista e outras viagens. \u201cN\u00e3o esperava muito, n\u00e3o queria nem que Gil fosse para l\u00e1. Ainda disse: \u2018Gil, voc\u00ea vai ser o Lula do Lula. O s\u00edmbolo de um s\u00edmbolo\u2019. Mas ele queria ir\u201d, comenta.\u201cA meu ver, est\u00e1 sendo muito mais do que med\u00edocre, muito melhor do que med\u00edocre. Porque a mera presen\u00e7a dele deu uma visibilidade ao Minist\u00e9rio da Cultura que ele nunca teve antes. E essa visibilidade \u00e9 tanto nacional quanto internacional, porque ele de fato \u00e9 mesmo o Lula do Lula, para o mal e para o bem. Eu vou viajar para a It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Alemanha e os artistas, jornalistas ou pessoas inteligentes de l\u00e1, todo mundo adora Lula. Eu \u00e9 que tenho que fazer as cr\u00edticas. Mas fico orgulhoso. O Gil contribui muito para isso.\u201d Poucos dias antes desse encontro, ouvi uma conversa de uma fonte mais ou menos confi\u00e1vel de que Gil estaria decidido a deixar de fazer m\u00fasica em favor da pol\u00edtica. Seria o fim do m\u00fasico, do cantor. Decidi checar a informa\u00e7\u00e3o com Caetano. \u201cParece que ele j\u00e1 esteve mais assim [decidido a parar] do que agora, depois que fez essa excurs\u00e3o tocando viol\u00e3o pelo mundo todo. Eu tinha tanta vontade de que ele fizesse isso, demorou tanto para fazer. As pessoas precisavam ver que grandioso m\u00fasico que ele \u00e9. E viram\u201d, disse.<\/p>\n<p>Mas esse tipo de rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega a ser exatamente uma novidade na hist\u00f3ria de Gilberto Gil. Caetano conta que, no come\u00e7o dos anos 60, quando sa\u00edram os primeiros discos do ent\u00e3o Jorge Ben, o agora ministro tamb\u00e9m decretou aposentadoria. \u201cGil dizia que nunca mais ia compor nem cantar nenhuma das m\u00fasicas que havia feito. S\u00f3 cantaria Jorge Ben. Eu tive que brigar com ele\u201d, lembra. \u201cNaturalmente eu amei Jorge Ben j\u00e1 na primeira vez que o ouvi, mas, \u00e0quela altura, jamais o compararia a Jo\u00e3o Gilberto, Carlos Lyra ou Tom Jobim. Depois, terminei botando Jorge l\u00e1 na frente, mesmo, junto com Jo\u00e3o. Mas Gil teve uma intui\u00e7\u00e3o. Como se j\u00e1 visse naquilo que estava sendo feito pelo Jorge Ben o futuro j\u00e1 acontecido.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu me benzo quando o avi\u00e3o vai decolar. Eu fa\u00e7o o sinal-da-cruz.\u201d Essa foi uma das \u00faltimas confiss\u00f5es que ouvi de Caetano nos muitos minutos que conversamos. Vi naquele ritual uma l\u00f3gica, pois me lembrei imediatamente de versos do pr\u00f3prio artista, os que abrem \u201cMilagres do Povo\u201d: \u201cQuem \u00e9 ateu e viu milagres como eu sabe que os deuses sem Deus n\u00e3o cessam de brotar nem cansam de esperar\u201d. \u201cA gente n\u00e3o tem nem o direito de dizer que \u00e9 ateu. Minha cabe\u00e7a se fez, como indiv\u00edduo, em um mundo muito estruturado, e j\u00e1 tem na sua estrutura\u00e7\u00e3o o componente religioso, \u00e0s vezes tomado como determinante. E eu pr\u00f3prio n\u00e3o posso me desvincular disso, individualmente, sozinho. As coisas que fa\u00e7o s\u00e3o de uma certa forma consequ\u00eancia de caminhos que passaram pela quest\u00e3o da religi\u00e3o, e pela f\u00e9 religiosa dos outros. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdadeiro que eu esteja totalmente sem Deus, ou seja, ateu\u201d, ele explica. \u201cMas, por outro lado, n\u00e3o consigo me identificar com as pessoas que se apoiam na cren\u00e7a religiosa. Porque \u00e9 um terreno em que a opress\u00e3o de indiv\u00edduos e grupos sobre os outros se exerce de uma maneira indiscut\u00edvel. Acho isso chato, \u00e9 um terreno prop\u00edcio para engana\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o total. Acho que essa quest\u00e3o religiosa \u00e9 social e historicamente de grande import\u00e2ncia. N\u00e3o acho que seja um neg\u00f3cio que a pessoa simplesmente se desvencilha e joga fora. Mas olho para esses personagens todos \u2013 os bispos, os pastores, os papas, Cristo, S\u00e3o Paulo \u2013 e acho tudo igual, todos parecidos. Acho que o bispo [Edir] Macedo se parece com o Vaticano. E ambos achariam isso desabonador, e acho que ambos merecem.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos versos de Tenda dos Milagres, Caetano tem outra frase que desequilibra com bastante efici\u00eancia todas as certezas absolutas do homem inteligente frente ao Divino \u2013 e \u00e9 ainda uma das mais bonitas declara\u00e7\u00f5es de amor e amizade a Gilberto Gil: \u201cEu n\u00e3o acredito em Deus, mas Gil acredita e eu acredito nele\u201d. A frase continua valendo? \u201c\u00c9 muito mais do que isso. Porque os meus filhos acreditam, todos os tr\u00eas. E isso n\u00e3o veio da educa\u00e7\u00e3o. Nem eu com a m\u00e3e de Moreno, nem eu com a m\u00e3e de Zeca e Tom demos isso a eles. Veio deles, mesmo. Veio do mundo e deles. Ent\u00e3o, mais importante ainda do que Gil, eu n\u00e3o acredito em Deus, mas Moreno acredita, Zeca acredita e Tom acredita. E eu acredito neles tr\u00eas.\u201d<\/p>\n<p>Por se tratar de um festival de m\u00fasica, o show dos Mutantes no Jo\u00e3o Rock foi mais enxuto que os que a banda vinha fazendo at\u00e9 ent\u00e3o. Se algumas can\u00e7\u00f5es fizeram falta para quem j\u00e1 tinha visto uma apresenta\u00e7\u00e3o completa, a presen\u00e7a de Caetano dividindo os vocais de \u201cBaby\u201d com Z\u00e9lia Duncan foi inesquec\u00edvel. Era o reencontro do artista com a cama sonora que o apoiou em momentos hist\u00f3ricos, l\u00e1 nos prim\u00f3rdios tropicalistas, como na vaia ululante do festival de \u201c\u00c9 Proibido Proibir\u201d ou nas temporadas da boate Sucata, ou nas poucas edi\u00e7\u00f5es do programa de TV Divino Maravilhoso. Para mim, pessoalmente, a noite tinha valido tamb\u00e9m porque havia conseguido do pr\u00f3prio Caetano a confirma\u00e7\u00e3o que precisava para finalmente viabilizar esta reportagem. Agora, era partir para a parte mais dif\u00edcil da hist\u00f3ria: tentar entender um pouco melhor como funciona aquela cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: As duas m\u00fasicas de rock mais belas do Brasil, segundo Caetano Veloso<\/strong><\/p>\n<p><em>*Texto publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o 11 da Rolling Stone Brasil, agosto\/2007.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/um-homem-chamado-caetano-relembre-a-primeira-capa-do-artista-na-rolling-stone-brasil\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A plateia parece estar no cio. Lota\u00e7\u00e3o esgotada. S\u00e3o tr\u00eas mil pessoas em p\u00e9, mais ou menos uniformemente divididas entre homens e mulheres. A maior parte parece ainda n\u00e3o ter chegado aos 25 anos, mas h\u00e1 tamb\u00e9m senhores com mais de 60. 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