{"id":26123,"date":"2025-06-12T04:56:01","date_gmt":"2025-06-12T07:56:01","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/joan-baez-sobre-estados-unidos-com-trump-parece-um-tecido-rasgado\/"},"modified":"2025-06-12T04:56:01","modified_gmt":"2025-06-12T07:56:01","slug":"joan-baez-sobre-estados-unidos-com-trump-parece-um-tecido-rasgado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/joan-baez-sobre-estados-unidos-com-trump-parece-um-tecido-rasgado\/","title":{"rendered":"Joan Baez sobre Estados Unidos com Trump: \u201cParece um tecido rasgado\u201d"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Ao entrar pela entrada arborizada da casa de <strong>Joan Baez<\/strong>, no sul de S\u00e3o Francisco, e circular pela propriedade, a primeira coisa que se nota s\u00e3o os retratos gigantes que ela mesma pintou de <strong>Volodymyr Zelensky<\/strong>, <strong>Martin Luther King Jr.<\/strong>, <strong>Anthony Fauci<\/strong>, <strong>Gandhi<\/strong> e do falecido congressista <strong>John Lewis<\/strong>. Durante anos, Baez exibiu dois por vez no jardim da frente, mas agora eles est\u00e3o encostados de forma melanc\u00f3lica na varanda.<\/p>\n<p><em>\u201cLogo depois que Trump foi eleito, algu\u00e9m dedurou para algu\u00e9m na prefeitura, que perguntou: \u2018Ela tem permiss\u00e3o para isso?\u2019\u201d<\/em>, conta Baez. <em>\u201cFoi claramente uma coisa de dedo-duro\u201d<\/em>. Enquanto um amigo cortava as pinturas, Baez subiu na casa na \u00e1rvore do quintal e colocou para tocar, bem alto, grava\u00e7\u00f5es da soprano Ren\u00e9e Fleming. <em>\u201cFoi meu jeito de desobedi\u00eancia civil\u201d<\/em>, diz ela com um sorriso maroto. <em>\u201cS\u00f3 para fazer alguma coisa\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas sob os holofotes, Baez vem <em>\u201cfazendo alguma coisa\u201d<\/em> em nome da m\u00fasica, da justi\u00e7a social e dos direitos civis. J\u00e1 foi exaltada, condenada (\u00e0s vezes at\u00e9 pela esquerda), ridicularizada, ignorada, reverenciada \u2014 e, ocasionalmente, redescoberta. Essa parte de sua vida parecia estar chegando ao fim h\u00e1 seis anos, quando Baez encerrou uma turn\u00ea de despedida que, segundo ela, foi realmente definitiva.<\/p>\n<p>Naquele momento, Baez, agora com 84 anos, entrou no que deveriam ser seus anos de descanso, dedicando-se \u00e0 pintura e \u00e0 poesia, dan\u00e7ando diariamente pelo terreno ao som dos <strong>Gipsy Kings<\/strong> e curtindo sua casa espa\u00e7osa, exc\u00eantrica e charmosa, onde vive h\u00e1 55 anos. Atualmente, o lugar abriga 13 galinhas que circulam livremente, lhe d\u00e3o ovos frescos e, de vez em quando, entram na cozinha para bicar a comida dos gatos. <em>\u201cAgora eu tamb\u00e9m posso pintar as unhas\u201d<\/em>, diz Baez, balan\u00e7ando a m\u00e3o para mostrar as unhas azul-aqu\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Mas, como mostra o burburinho em torno de seus retratos de ativistas e figuras p\u00fablicas, Baez continua sendo puxada de volta aos holofotes. Come\u00e7ando pelo filme biogr\u00e1fico de <strong>Bob Dylan<\/strong>, <strong><em>Um Completo Desconhecido<\/em><\/strong> (2024), que reacendeu os holofotes sobre sua rela\u00e7\u00e3o intensa e j\u00e1 distante com Dylan (interpretado por <strong>Timoth\u00e9e Chalamet<\/strong>). A performance bastante fiel de <strong>Monica Barbaro<\/strong> a apresentou \u2014 com sua m\u00fasica e imagem de \u201cMadona do folk\u201d \u2014 a uma gera\u00e7\u00e3o nascida d\u00e9cadas depois. E ent\u00e3o, mais uma vez, h\u00e1 Trump.\u00a0<\/p>\n<p>Quando <strong>Rolling Stone<\/strong> visitou Baez pela \u00faltima vez, ele havia acabado de ser eleito presidente pela primeira vez. Agora, de volta \u00e0 Casa Branca, mais perturbador e alarmante do que antes, Trump levou Baez novamente \u00e0s ruas em protestos. Ela tamb\u00e9m lan\u00e7ou uma nova can\u00e7\u00e3o de protesto, <strong>\u201cOne in a Million\u201d<\/strong>, com a veterana <strong>Janis Ian<\/strong>. Baez est\u00e1 ainda ajudando a criar o nome de uma nova organiza\u00e7\u00e3o da qual far\u00e1 parte, que dar\u00e1 suporte a fam\u00edlias de imigrantes cujos provedores foram presos por agentes da ICE (Imigra\u00e7\u00e3o dos EUA).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, continua postando mensagens de sabedoria em suas redes sociais, como no Facebook. Ao observar um filhote de p\u00e1ssaro rec\u00e9m-nascido na entrada de sua casa, escreveu: <em>\u201cA beleza dela, por si s\u00f3, nos oferecer\u00e1 esperan\u00e7a na escurid\u00e3o e nos livrar\u00e1 de todo o mal\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Mas, como a pr\u00f3pria Baez admite \u2014 tanto em sua casa quanto em uma entrevista complementar \u2014, ela tamb\u00e9m est\u00e1 entrando em um mundo novo e desafiador. Preparando uma nova cafeteira, vestindo uma blusa de gola alta preta e com os cabelos prateados em um corte bob, Baez se acomoda \u00e0 mesa da cozinha. <em>\u201cEste \u00e9 um momento interessante\u201d<\/em>, diz ela, <em>\u201cporque nunca estive aqui antes\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Rolling Stone: Quando conversamos aqui pela \u00faltima vez, foi logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump em 2016. Quem diria que estar\u00edamos aqui de novo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Joan Baez: <\/strong>Me pegou totalmente de surpresa. Ningu\u00e9m poderia ter imaginado isso. Ningu\u00e9m poderia prever que isso ia se transformar no que se transformou, porque esse tipo de coisa acontece em outros pa\u00edses \u2014 os chamados \u201cpa\u00edses de merd@\u201d. Mas este pa\u00eds est\u00e1 virando um \u201cpa\u00eds de merd@\u201d por causa deles. Est\u00e1 fazendo todas as coisas perversas que esses pa\u00edses fazem. Por outro lado, todos n\u00f3s meio que sab\u00edamos que a Heritage Foundation estava trabalhando silenciosamente, fazendo planos, e simplesmente n\u00e3o est\u00e1vamos preparados.<\/p>\n<p><strong>RS: Onde voc\u00ea estava na noite da elei\u00e7\u00e3o quando soube do resultado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB: <\/strong>Ah, aqui mesmo. Eu nem ouvi o resultado \u2014 vi a express\u00e3o do meu vizinho. Eu soube na hora que era um desastre. Mas a verdade \u00e9 que isso vem sendo preparado h\u00e1 50 anos. Nem \u00e9 sobre o Trump, na verdade. Ele acabou sendo esse tipo de bruxo \u2014 um ser humano repulsivo \u2014 que d\u00e1 \u00e0s pessoas a permiss\u00e3o para agir como ele age.<\/p>\n<p><strong>RS: H\u00e1 algo em particular que essa administra\u00e7\u00e3o tenha feito que realmente te chocou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Nos primeiros 100 dias, mandando pessoas assim [estala os dedos] para pris\u00f5es conhecidas por tortura. Todo o trabalho que fiz no Chile, na Argentina, no Brasil e no Bloco do Leste\u2026 \u00e9 o mesmo mecanismo, com toda a crueldade e os passos rumo a uma ditadura.<\/p>\n<p>Estou preocupada com a velocidade com que est\u00e3o fazendo isso e para onde est\u00e3o indo, e com a crueldade horr\u00edvel que acontece todos os dias. Agradeci muito ao <strong>Bruce Springsteen<\/strong> por repetir: <em>\u201cEst\u00e1 acontecendo agora\u201d<\/em> [durante seus shows no Reino Unido]. Porque a gente tende a pensar: <em>\u201cAh, v\u00e3o ser quatro anos dif\u00edceis\u201d<\/em>. N\u00e3o, \u00e9 agora.<\/p>\n<p><strong>RS: Com que frequ\u00eancia voc\u00ea assiste \u00e0s not\u00edcias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Quando me aposentei das turn\u00eas, pensei: <em>\u201cVou assistir de vez em quando\u201d<\/em>. Mas n\u00e3o era desse jeito. Ent\u00e3o eu doso. Leio textos no Substack e assisto ao <strong>Stephen Colbert<\/strong>, <strong>Jon Stewart<\/strong> e <strong>John Oliver<\/strong>. E a\u00ed coloco um filme como <strong><em>Crep\u00fasculo<\/em><\/strong>. P\u00e9ssimo. Mas \u00e9 maravilhoso assistir. N\u00e3o tem nada a ver com porr@ nenhuma.<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea toma algum\u2014<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Drogas? [Ri.]<\/p>\n<p><strong>RS: Bem, isso tamb\u00e9m \u2014 mas voc\u00ea encontra algum consolo na resist\u00eancia que o Trump tem recebido dos tribunais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Tem que encontrar algum consolo nisso, sim. Minha linda neta, <strong>Jasmine<\/strong>, \u00e9 cantora e compositora, mas decidiu que queria ser advogada. Vai come\u00e7ar a faculdade de Direito em agosto, e eu penso: <em>\u201cQue momento pra isso!\u201d<\/em> Ela quer ser advogada constitucionalista. Mas \u00e9 prov\u00e1vel que a gente nem tenha mais uma porr@ de Constitui\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o que posso fazer com meu filho e minha neta \u00e9 atravessar isso dia ap\u00f3s dia, e encorajar ela a continuar no caminho que escolheu.<\/p>\n<p><strong>RS: Estava ouvindo sua apresenta\u00e7\u00e3o em Woodstock, quando voc\u00ea contou \u00e0 plateia que agentes federais foram at\u00e9 sua casa e a do seu ex-marido e ativista David Harris para prend\u00ea-lo por se recusar a se alistar no ex\u00e9rcito. Voc\u00eas at\u00e9 fizeram uma festa de despedida. Alguma coisa acontecendo agora te lembra aquele momento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Sabe, \u00e9 t\u00e3o diferente hoje que nem consigo fazer essa liga\u00e7\u00e3o. As pessoas perguntam: <em>\u201cIsso \u00e9 como os anos 1960?\u201d<\/em> Eu digo que os anos 1960 foram uma festa no jardim. Para algumas pessoas, n\u00e3o foi. Algumas realmente se machucaram. Mas o que est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 uma m\u00e1quina.<\/p>\n<p><strong>RS: No seu segundo livro de mem\u00f3rias, voc\u00ea escreveu sobre o impacto de ouvir Martin Luther King falar. Existe algu\u00e9m hoje em dia que te inspire da mesma forma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> O reverendo <strong>William Barber<\/strong> veio jantar aqui outro dia; ele \u00e9 um amigo. Ele tem o esp\u00edrito de Deus dentro dele e est\u00e1 determinado a espalh\u00e1-lo. Estamos diante de uma avalanche, e voc\u00ea tem que se levantar \u2014 como ele fez ao entrar na rotunda do Capit\u00f3lio outro dia e ser preso. Ele estava orando l\u00e1, e simplesmente disse: <em>\u201cEu tinha que fazer isso\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>RS: E a Alexandria Ocasio-Cortez?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Ela \u00e9 boa. Inteligente. E acho que ela provavelmente se exp\u00f4s bastante, mas se expor hoje em dia\u2026 Eu costumava dizer \u00e0s pessoas:<em> \u201cVenham com a gente. A gente \u00e9 preso, acontece\u201d<\/em>. Mas agora \u00e9 t\u00e3o perigoso. Correr risco hoje pode ser simplesmente ficar parado numa esquina com uma camiseta dizendo \u201cSou imigrante ilegal\u201d. Nunca senti esse tipo de medo. Eu n\u00e3o tinha medo quando fui presa naquela \u00e9poca. J\u00e1 estive em lugares onde deveria ter sentido medo: Vietn\u00e3, o Sul dos EUA, Ku Klux Klan.<\/p>\n<p><strong>RS: Por que voc\u00ea n\u00e3o sentia medo naquela \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Nega\u00e7\u00e3o e a necessidade de seguir em frente, que eram mais fortes do que a preocupa\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes eu sentia medo, sim, mas coragem \u00e9 uma coisa curiosa. N\u00e3o \u00e9 porque algu\u00e9m nasce corajoso \u2014 \u00e9 porque voc\u00ea est\u00e1 disposto a fazer as coisas mesmo com medo. Para voc\u00ea ter uma ideia de como posso ficar sombria hoje em dia, minha piada mais escura \u00e9: <em>\u201cA boa not\u00edcia sobre a crise clim\u00e1tica \u00e9 que, se ela nos atingir primeiro, o Trump n\u00e3o vai ter tempo de construir seus campos da morte\u201d<\/em>. A\u00ed voc\u00ea ri\u2026 exceto que ele vai. Ele est\u00e1 se movendo t\u00e3o r\u00e1pido que minha piada nem \u00e9 mais engra\u00e7ada.<\/p>\n<p><strong>RS: Uma das preocupa\u00e7\u00f5es agora \u00e9 que qualquer protesto possa levar Trump a enviar os militares e declarar lei marcial.<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Ele est\u00e1 louco por uma oportunidade dessas. Nada facilitaria mais as coisas para eles, porque a gente n\u00e3o tem como competir. Qualquer um que ache seriamente que pode provocar mudan\u00e7a social com viol\u00eancia \u00e9 muito ing\u00eanuo. N\u00e3o \u2014 voc\u00ea \u00e9 esmagado.<\/p>\n<p>[Nota do editor: Esta entrevista foi feita antes dos protestos em andamento em Los Angeles.]<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea j\u00e1 teve momentos em que pensou que tudo pelo que voc\u00ea e outros lutaram nos anos 1960 foi desmontado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> N\u00e3o passo muito tempo me preocupando com o fato de que as coisas est\u00e3o retrocedendo. As coisas nunca ficam exatamente onde voc\u00ea quer. O governo do <strong>Havel<\/strong>, o <strong>Mandela<\/strong> \u2014 s\u00e3o pessoas incr\u00edveis, que fizeram coisas incr\u00edveis, e isso \u00e0s vezes dura um bom tempo, e a\u00ed vem algu\u00e9m e estraga tudo.<\/p>\n<p>Temos que lembrar o que est\u00e1 costurado no tecido dos Estados Unidos. Fico pensando nos negros e brancos sentados juntos no balc\u00e3o de uma lanchonete no Mississippi. Aquilo foram atos de coragem enormes, e mudaram as coisas. \u00c9 esse tipo de compromisso que precisamos agora. Ent\u00e3o, no meio de tudo isso, parece que o tecido foi rasgado.<\/p>\n<p><strong>RS: Talvez haja um movimento de p\u00eandulo na dire\u00e7\u00e3o oposta, como aconteceu com Reagan depois de Carter, ou com Trump depois de Obama.<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> [Solenemente] Isso \u00e9 diferente. N\u00e3o sei como a gente compensa o que j\u00e1 foi feito.<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea cantou em alguns protestos anti-Trump e a favor da democracia. Como foi voltar a se apresentar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Tenho um registro mais grave que eu me recusava a aceitar porque n\u00e3o podia mais ser a famosa soprano. Ent\u00e3o, parei de cantar. Mas em algum lugar ali ainda existe a voz. Mergulhei nesse registro mais baixo e encontrei as m\u00fasicas que funcionam com ele.<\/p>\n<p><strong>RS: Quais m\u00fasicas voc\u00ea ainda consegue cantar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Consigo adaptar algumas coisas, como <strong>\u201cImagine\u201d<\/strong> e todas as m\u00fasicas do movimento dos direitos civis. <strong>\u201cWe Shall Overcome\u201d<\/strong> \u00e9 uma m\u00fasica linda, mas nos leva muito para tr\u00e1s. Precisa haver algo mais atual do que isso.<\/p>\n<p><strong>RS: Hoje em dia realmente n\u00e3o se ouvem muitas m\u00fasicas de protesto novas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Eu n\u00e3o gostaria de fazer parte de um movimento sem m\u00fasica, mas voc\u00ea tem raz\u00e3o. O que a gente precisa \u00e9 de um hino \u2014 mas \u00e9 imposs\u00edvel compor um hino. <strong>\u201cOne in a Million\u201d<\/strong> chega mais perto, mas voc\u00ea n\u00e3o consegue tirar isso do nada. Tem que vir de outro lugar. <strong>\u201cImagine\u201d<\/strong> ainda \u00e9 t\u00e3o linda. As m\u00fasicas do Dylan ainda s\u00e3o conhecidas no mundo todo, mas n\u00e3o t\u00eam o mesmo impacto para mim que <strong>\u201cWe Shall Overcome\u201d<\/strong>. L\u00e1 atr\u00e1s, eu j\u00e1 tinha consci\u00eancia de que n\u00e3o ir\u00edamos superar tudo e alcan\u00e7ar a paz mundial. Agora, ent\u00e3o, menos ainda.<\/p>\n<p><strong>RS: Na sua colet\u00e2nea de poemas <\/strong><strong><em>When You See My Mother, Ask Her to Dance<\/em><\/strong><strong>, voc\u00ea escreveu, num texto sobre o Dylan: \u201cQuem est\u00e1 escrevendo esse tipo de coisa hoje, Senhor Criador?\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Pedi para o <strong>Josh Ritter<\/strong> compor uma m\u00fasica, e ele comp\u00f4s uma chamada <strong>\u201cI Carry the Flame\u201d<\/strong>, que chega mais perto de uma can\u00e7\u00e3o de marcha, no estilo <strong>Pete Seeger<\/strong>. Cantei um pouco dela na manifesta\u00e7\u00e3o do 1\u00ba de maio [em Mountain View, Calif\u00f3rnia]. Mas precisamos de mais m\u00fasicas assim \u2014 e de <strong>\u201cOne in a Million\u201d<\/strong>, da Janis.<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea j\u00e1 ouviu o Jesse Welles, o trovador do sul dos EUA com posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas fortes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> O jovem, n\u00e9? Sim, simplesmente incr\u00edvel. Aquilo vai dar em alguma coisa. Temos que canalizar a energia desse garotinho. Quantos anos ele tem?<\/p>\n<p><strong>RS: Ele tem 30 anos. O que te impressiona nas m\u00fasicas dele?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> \u00c9 aut\u00eantico. Sai naturalmente. Ele est\u00e1 canalizando esse tipo de coisa. Simplesmente passa por voc\u00ea. Pelo menos foi isso que vi.<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea acompanha as cantoras e compositoras modernas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Escuto o que minha neta me manda. Acabei gostando bastante da <strong>Lana Del Rey<\/strong>. Tamb\u00e9m gostei da <strong>Chappell Roan<\/strong>. Quando meu filho <strong>Gabe<\/strong>, a Jasmine e eu estamos juntos, a gente toca Lana e <strong>Hozier<\/strong> no repeteco durante as longas viagens pela costa. Sou amiga da Lana. Ah, e n\u00e3o esque\u00e7a de mencionar meu crush no Hozier. \u201cTake me to church\u201d com esse bad boy.<\/p>\n<p><strong>RS: Como voc\u00ea conheceu a Lana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Do nada, ela me perguntou se eu queria cantar no show dela no Greek Theatre. Eu pensei: <em>\u201cDe onde diabos isso saiu?\u201d<\/em> N\u00e3o fazia ideia. Brinquei com ela: <em>\u201cSeu p\u00fablico \u00e9 todo de adolescentes de 16 anos. Eles n\u00e3o me conhecem\u201d<\/em>. Ela disse: <em>\u201cPois deveriam\u201d<\/em>. \u00c9 um risco para uma compositora jovem, porque se ela diz <em>\u201cTa da \u2014 Joan Baez!\u201d<\/em>, um ter\u00e7o do p\u00fablico nem vai entender do que ela est\u00e1 falando. Mas elas assumem esse risco mesmo assim. A <strong>Taylor<\/strong> [<strong>Swift<\/strong>, que convidou Baez para o palco em 2015] fez o mesmo. Alguns da gera\u00e7\u00e3o da Lana me chamaram de <em>\u201cbadass\u201d<\/em>, o que achei fant\u00e1stico. Ela \u00e9 uma mulher interessante. Um pouco de outro planeta, mas eu admiro ela, a pessoa e a m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>RS: Qual a hist\u00f3ria por tr\u00e1s da men\u00e7\u00e3o sua na m\u00fasica \u201cDance Till We Die\u201d, da Lana, quando ela canta \u201cI\u2019m coverin\u2019 Joni and dancin\u2019 with Joan\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Ela veio passar um tempo comigo, jantamos e depois fomos para um clube senegal\u00eas em S\u00e3o Francisco onde eu dan\u00e7o h\u00e1 anos. Ela n\u00e3o dan\u00e7ou, quem dan\u00e7ou foi a irm\u00e3 dela. Ela era muito t\u00edmida, de certa forma. Eu dancei por ela. Ela me deu um colar lindo, uma correntinha dourada com \u201cJoanie\u201d gravado.<\/p>\n<p><strong>RS: Alguns anos atr\u00e1s houve uma pequena pol\u00eamica sobre \u201cThe Night They Drove Old Dixie Down\u201d, a m\u00fasica de Robbie Robertson que foi um dos seus maiores sucessos. Como a can\u00e7\u00e3o \u00e9 narrada por um sulista branco durante a Guerra Civil, algumas pessoas questionaram se ela deveria ser reescrita ou cancelada. O que voc\u00ea achou disso?<\/strong><\/p>\n<p>Estava pensando nisso hoje de manh\u00e3, quando toquei <strong>\u201cOne in a Million\u201d<\/strong> para minha amiga diretora <strong>Karen O\u2019Connor<\/strong>. Ela disse: <em>\u201cDeixa eu ouvir a letra de novo\u201d<\/em>. Eu pensei: <em>\u201cJesus, eu nem presto aten\u00e7\u00e3o na letra das m\u00fasicas\u201d<\/em>. \u00c9 uma quest\u00e3o de sentimento, e o sentimento com <strong>\u201cDixie\u201d<\/strong> era o mesmo. Eu n\u00e3o sabia exatamente o que dizia, s\u00f3 achava maravilhosa. \u00c9 como quando canto em l\u00ednguas estrangeiras: depois que decoro as s\u00edlabas, nem sei o que estou dizendo, e isso n\u00e3o importa.<\/p>\n<p><strong>\u201cDixie\u201d<\/strong> n\u00e3o estava em alta, mas se algu\u00e9m quisesse ouvir e eu quisesse cantar, eu cantaria. Eu aprendi a ser politicamente correta na hora certa [sorri]. Sabia que algu\u00e9m ia pegar no p\u00e9 disso, mas quem se importa? Quem liga? M\u00fasica maravilhosa.<\/p>\n<p><strong>Falando em cantores de protesto, quando voc\u00ea ouviu falar pela primeira vez do filme <\/strong><strong><em>Um Completo Desconhecido<\/em><\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n<p>Ouvi muitos coment\u00e1rios sobre ele. No come\u00e7o, pensei: <em>\u201cN\u00e3o sei o que isso vai ser, se vai ser algo bem feito ou uma bobagem\u201d<\/em>. Mas, \u00e0 medida que foi evoluindo, percebi: <em>\u201cAs pessoas est\u00e3o levando isso a s\u00e9rio. Vai ser um filme de verdade\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>RS: Algu\u00e9m do filme ou da equipe do Dylan entrou em contato, j\u00e1 que voc\u00ea \u00e9 uma personagem na hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Voc\u00ea est\u00e1 brincando? Eu que entrei em contato com eles, com os atores: <em>\u201cEles gostariam de conversar comigo?\u201d<\/em> Ent\u00e3o Monica ligou, e depois <strong>Ed Norton<\/strong> tamb\u00e9m. Ambos tiveram conversas longas comigo. Monica disse: <em>\u201cSe voc\u00ea gostar, me conta. Mas se n\u00e3o gostar, n\u00e3o me conta\u201d<\/em>. Eu respondi: <em>\u201cOlha, se n\u00e3o gostarmos, vamos jogar pipoca na tela \u2014 mas acho que vamos gostar\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>RS: Ent\u00e3o o pr\u00f3prio Dylan n\u00e3o te procurou?<\/strong><\/p>\n<p>Ah, por favor. Voc\u00ea j\u00e1 trabalha na <strong>Rolling Stone<\/strong> h\u00e1 tempo suficiente para saber a resposta. [Imita a voz do Dylan] <em>\u201cEi, Joanie, adivinha s\u00f3, estamos fazendo isso\u201d<\/em>. Pergunta boba.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00ea assistiu ao filme?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o fui no Natal [quando estreou]. Mas fui naquela semana, com meu grupo de mulheres que come\u00e7ou com a minha m\u00e3e. [O pessoal do filme] me perguntou se eu queria ver numa sess\u00e3o privada. Eu disse que n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>RS: Como foi a experi\u00eancia de ver o filme pela primeira vez?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> As pessoas do meu c\u00edrculo ficaram indignadas, checando fatos. E eu disse: <em>\u201cDeixem disso\u201d<\/em>. \u00c9 um filme divertido. Captaram bem o clima do Village \u2014 embora eu nunca tenha morado no Village. S\u00f3 fiquei l\u00e1 por um curto per\u00edodo com o Bob. E n\u00e3o foi no Chelsea Hotel, foi no Earle. Mas s\u00e3o detalhes, detalhes, entende? Algu\u00e9m me perguntou: <em>\u201cVoc\u00ea realmente fez isso com o Bob?\u201d<\/em> [Mostra o dedo do meio.] E eu respondi: <em>\u201cN\u00e3o, fiz isso\u201d<\/em>. [Mostra os dois dedos do meio.] Mas, fiquei satisfeita por acertarem o clima. A m\u00fasica estava brilhante. Chalamet mandou bem. Estava um pouco limpinho demais. Eu podia ter avisado ele disso.<\/p>\n<p><strong>RS: Quer dizer que, na vers\u00e3o dele, o Bob n\u00e3o parecia sujo o suficiente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Exatamente. Mas, convenhamos, isso fazia parte do charme. O \u201cfen\u00f4meno sem banho\u201d.<\/p>\n<p><strong>RS: O que eles acertaram sobre o Bob?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Ah, muita coisa. Os gestos, o jeito de falar, at\u00e9 algumas formas de cantar. A atitude. Quero dizer\u2026 uma atitude ruim, mesmo.<\/p>\n<p><strong>RS: Como voc\u00ea achou a representa\u00e7\u00e3o da sua personagem no filme?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Algumas cenas de costas da Monica e do Dylan eram assustadoramente parecidas comigo. Disseram que a voz dela tamb\u00e9m ficou bem parecida. Ela trabalhou duro para acertar. Ela at\u00e9 pegou esse meu gesto [mexe os dedos nervosamente] \u2014 tipo um tique. Eu a encontrei numa coletiva e liguei perguntando: <em>\u201cEsse tique \u00e9 seu ou voc\u00ea pegou de mim?\u201d<\/em> E ela respondeu que pegou de tanto me observar.<\/p>\n<p><strong>RS: Chalamet parece ter captado os gestos inquietos do Dylan, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> [Assente, e dobra o polegar para tr\u00e1s.] O Bob tem um polegar que entorta assim. Nem todo mundo consegue fazer isso. Algu\u00e9m me disse que quem tem o polegar assim \u00e9 assassino [risos].<\/p>\n<p><strong>RS: O filme tamb\u00e9m insinua um tri\u00e2ngulo entre voc\u00ea, o Bob e a Suze Rotolo, mas historicamente isso n\u00e3o bate muito bem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Olha, se aconteceu, n\u00e3o foi na minha cara. Eu achava que tinha vindo depois da Suze, mas nem sei ao certo. Nunca perguntei. Pol\u00edtica do <em>\u201cn\u00e3o pergunte, n\u00e3o conte\u201d<\/em>. Pelo que ouvi, n\u00e3o fizeram justi\u00e7a \u00e0 hist\u00f3ria da Suze. Mas gostei que colocaram <strong>Bobby Neuwirth<\/strong>. E o engra\u00e7ado do [<strong>Albert<\/strong>] <strong>Grossman<\/strong> \u2014 o ator [<strong>Dan Fogler<\/strong>] estava igual a ele.<\/p>\n<p><strong>RS: Mais de 60 anos depois, o que voc\u00ea acha que ainda fascina as pessoas sobre voc\u00ea e Bob?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Se voc\u00ea me procurar no Google, aparece uma coisa sobre mim e, logo em seguida, j\u00e1 vem \u201cJoan Baez e Bob Dylan\u201d. Mas tive um presente maravilhoso outro dia. Uma mo\u00e7a de 23 anos, assistente numa cl\u00ednica onde fui, estava me descobrindo. Ela disse: <em>\u201cVoc\u00ea \u00e9 famosa!\u201d<\/em> Eu disse: <em>\u201cMeh&#8230; Me procura no Google\u201d<\/em>. A\u00ed ela viu uma foto do Dylan e perguntou: <em>\u201cQuem \u00e9 esse cara?\u201d<\/em> E eu pensei: <em>\u201cObrigada!\u201d<\/em> Depois resolvi explicar. Estar em qualquer lugar com o Bob sempre te diminui um pouco. Mas, honestamente, h\u00e1 pessoas piores para ficar colada a vida inteira.<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea mencionou que escreveu uma carta para Dylan expressando seus sentimentos, sem deixar forma de resposta. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Faz uns 10 anos. Eu estava pintando um retrato dele no meu est\u00fadio \u2014 ele bem jovem, com uns 21 anos. Coloquei um disco dele e comecei a chorar. Chorei sem parar, pintando, e foi como lavar tudo aquilo. E acabou. Sem mais ressentimentos. Fiquei grata por ele ter feito parte da minha vida, por ter cantado suas m\u00fasicas, por ter tido aquela voz. A gratid\u00e3o substituiu a m\u00e1goa, a frustra\u00e7\u00e3o e as besteiras.<\/p>\n<p><strong>RS: O que dizia a carta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Basicamente o que acabei de te contar. Simples assim.<\/p>\n<p><strong>RS: Na nossa entrevista de 2017, voc\u00ea disse que seu nome foi uma esp\u00e9cie de \u201cmaldi\u00e7\u00e3o\u201d nos anos 1980, quando ningu\u00e9m queria te gravar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> \u00c9 verdade. Se a gente tivesse feito uma demo e dissesse \u201ccompositora jovem\u201d, talvez tivessem nos ouvido com mais aten\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, ser uma lenda me atrapalhou, porque eu n\u00e3o era mais atual.<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea acha que o filme pode mudar essa percep\u00e7\u00e3o e te apresentar para uma nova gera\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Espero que sim. N\u00e3o fico muito focada nisso, mas sei que ele trouxe uma visibilidade que n\u00e3o existia h\u00e1 um tempo.<\/p>\n<p><strong>RS: J\u00e1 se passaram seis anos desde o fim da sua turn\u00ea de despedida. Algum arrependimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Nenhum. Eu n\u00e3o sabia o que esperar, porque todo mundo fala: <em>\u201cAssim que voc\u00ea para, eles continuam\u201d<\/em>. O <strong>Elton<\/strong> [<strong>John<\/strong>] me disse: <em>\u201cMal posso esperar pra ficar com meus filhos\u201d<\/em>. E agora est\u00e1 na estrada de novo\u2026 Eu mesma fui assistir um show logo depois de parar e pensei: <em>\u201cVai ser um bom teste\u201d<\/em>. E n\u00e3o senti falta, nem um pouco. Era a hora certa. Foram 10 noites no Olympia \u2014 melhor parar por cima. N\u00e3o quero voltar para fazer 20 [risos].<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea tamb\u00e9m falou publicamente no document\u00e1rio <\/strong><strong><em>I Am a Noise<\/em><\/strong><strong> sobre abuso sexual que voc\u00ea e sua irm\u00e3 Mimi sofreram do seu pai. Por que decidiu contar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Foi um conjunto de fatores. Eu estava com 79 anos quando come\u00e7amos o filme. Achei que estava na hora de deixar um legado honesto \u2014 nada de tentar parecer mais bonita ou mais perfeita do que sou. \u00c9 uma vida bem vivida. E \u00e9 interessante ver quantas pessoas responderam a isso. Assim como o Trump \u201cautoriza\u201d pessoas a serem porcos, essa revela\u00e7\u00e3o talvez autorize outras pessoas a olharem pro pr\u00f3prio passado, onde antes n\u00e3o tinham coragem de olhar. Uma mulher veio at\u00e9 mim e disse que a m\u00e3e dela, com mais de 70 anos, chorou muito e revelou coisas que nunca tinha contado. A Karen [O\u2019Connor, diretora do filme] dizia: <em>\u201cTodo mundo tem alguma coisa\u201d<\/em>. Se isso ajudar algu\u00e9m a identificar a sua, ou a se permitir falar\u2026 j\u00e1 valeu.<\/p>\n<p><strong>RS: O que voc\u00ea pessoalmente ganhou ao tornar isso p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB: <\/strong>De certa forma, foi um al\u00edvio, porque passei grande parte da vida com as pessoas achando: <em>\u201cAh, ela \u00e9 t\u00e3o calma, t\u00e3o pac\u00edfica\u201d<\/em>. E n\u00e3o! Foi \u00fatil para eu mostrar que tenho alguma no\u00e7\u00e3o das batalhas que enfrentei e de como sou completamente imperfeita em todos os sentidos.<\/p>\n<p><strong>RS: As pessoas realmente te veem como imperturb\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Eu mesma fa\u00e7o um bom trabalho em me perturbar.<\/p>\n<p><strong>RS: O filme tamb\u00e9m explorou seu relacionamento com outra mulher, Kim Chappell, nos anos 60.<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Ningu\u00e9m deu aten\u00e7\u00e3o a isso [no filme]. \u00c9 coisa velha. Na \u00e9poca, com certeza n\u00e3o \u00edamos dizer nada. Ach\u00e1vamos que est\u00e1vamos conseguindo esconder tudo aquilo. Agora, a Jasmine tem uma amiga que acabou de se assumir bissexual, e todo mundo faz festa. Quando Kim e eu est\u00e1vamos juntas, n\u00e3o se falava disso, mas hoje \u00e9 quase o contr\u00e1rio. Voc\u00ea passa a fazer parte de clubes ou do movimento LGBTQ e dos direitos das mulheres. Agora \u00e9 tipo marcar pontos.<\/p>\n<p><strong>RS: Com o governo Trump avan\u00e7ando, como voc\u00ea v\u00ea seu papel no ativismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>JB:<\/strong> Acho que minha vida ser\u00e1 definida de novo pelo estado deste pa\u00eds no mundo. Tenho incentivado as pessoas a n\u00e3o ficarem paradas. Elas t\u00eam que fazer alguma coisa. Que tal aparecer com um amigo numa esquina usando uma camiseta dizendo \u201cSou um imigrante ilegal\u201d? N\u00e3o espere 30 mil pessoas aparecerem.<\/p>\n<p>Mas vou te contar meu dilema. Antigamente, quando fui presa brevemente, te davam seus rem\u00e9dios, deixavam voc\u00ea fazer liga\u00e7\u00f5es. N\u00e3o era uma pris\u00e3o pesada, s\u00f3 uma deten\u00e7\u00e3o. Hoje, se eu me colocar numa posi\u00e7\u00e3o de desobedi\u00eancia civil, tenho um problema em encorajar os outros se eu mesma n\u00e3o for para a cadeia com eles. Como a maioria das pessoas da minha idade, eu seria in\u00fatil sem a medica\u00e7\u00e3o que tomo regularmente.<\/p>\n<p><strong>RS: Qual o conselho que normalmente te pedem?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 universal: <em>\u201cO que eu posso fazer?\u201d<\/em> Minha resposta \u00e9: encontre algo que te chame, que n\u00e3o seja em grande escala. Da pr\u00f3xima vez que voc\u00ea se ouvir dizendo: <em>\u201cEstou sobrecarregado\u201d<\/em>, complete com <em>\u201ce\u201d<\/em>. <em>\u201cEstou sobrecarregado, e preciso fazer algo\u201d<\/em>. At\u00e9 <em>\u201cEstou morrendo de medo, e vou tomar uma margarita\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Haver\u00e1 pequenas vit\u00f3rias \u2014 se agarre a elas, continue fazendo, e veremos o que acontece. Eu realmente sou uma defensora do \u201ccontinue fazendo\u201d sem esperar mudar o mundo. Apenas mostre sua cara agora. Levante-se. Apare\u00e7a.<\/p>\n<p>Divertir-se virou um ato de resist\u00eancia. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 o ant\u00eddoto para o desespero. Estamos supostamente encolhidos de medo. Fui \u00e0 formatura da minha neta em Miami e acabei dan\u00e7ando com drag queens. Pensei: <em>\u201cOk, \u00e9 assim que a gente faz\u201d<\/em>. Voc\u00ea enlouquece. Bebe bastante. Fui a um strip club. Essa foi a minha declara\u00e7\u00e3o da semana. Dan\u00e7ar com uma grande, lasciva drag queen e postar. \u00c9 uma encrenca boa dan\u00e7ar com drag queens, porque eles querem acabar com as cenas drag. Tenho certeza de que [Trump] gostaria de acabar comigo tamb\u00e9m, mas espero ter merecido isso se chegar a esse ponto.<\/p>\n<p><strong>+++ LEIA MAIS: Doechii critica repress\u00e3o de Trump a protestos em L.A. ao receber BET Award<br \/>+++ LEIA MAIS: Billie Joe Armstrong manda o ICE &#8216;se f-der&#8217; em apoio aos manifestantes de LA<br \/>+++ LEIA MAIS: Bono apoia Bruce Springsteen em pol\u00eamica com Trump: \u2018S\u00f3 existe um chefe na Am\u00e9rica\u2019<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/joan-baez-sobre-estados-unidos-com-trump-parece-um-tecido-rasgado\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao entrar pela entrada arborizada da casa de Joan Baez, no sul de S\u00e3o Francisco, e circular pela propriedade, a primeira coisa que se nota s\u00e3o os retratos gigantes que ela mesma pintou de Volodymyr Zelensky, Martin Luther King Jr., Anthony Fauci, Gandhi e do falecido congressista John Lewis. 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