{"id":25213,"date":"2025-06-06T08:24:30","date_gmt":"2025-06-06T11:24:30","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/se-ninguem-faz-eu-faco\/"},"modified":"2025-06-06T08:24:30","modified_gmt":"2025-06-06T11:24:30","slug":"se-ninguem-faz-eu-faco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/se-ninguem-faz-eu-faco\/","title":{"rendered":"&#8216;Se ningu\u00e9m faz, eu fa\u00e7o&#8217;"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p><strong>FBC<\/strong> se estabeleceu na m\u00fasica brasileira como um rapper afiado, respons\u00e1vel por discos como <em><strong>S.C.A<\/strong><\/em> (2018), <em><strong>Padrim<\/strong><\/em> (2019) e <em><strong>Best Duo<\/strong><\/em> (2020), mas atingiu grande sucesso nacional com o disco de funk oitentista <em><strong>Baile<\/strong><\/em> (2021) e, dois anos depois, seguiu na mesma pegada com o filos\u00f3fico e psicod\u00e9lico <em><strong>O Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia Ir\u00e3o nos Levar para Outro Planeta<\/strong><\/em>. Agora, em 2025, <strong>Fabricio Soares Teixeira<\/strong> retorna com <em><strong>Assaltos e Batidas<\/strong><\/em>, \u00e1lbum de est\u00fadio de rap cl\u00e1ssico que exp\u00f5e problemas de desigualdade e consumo, tirando a si mesmo dos holofotes.<\/p>\n<p>Ao longo das 11 faixas, o artista mineiro usa samples de faixas de rap de outros artistas, como &#8220;<strong>Cap\u00edtulo 4, vers\u00edculo 3<\/strong>&#8220;, dos <strong>Racionais MC&#8217;s<\/strong>, referencia &#8220;<strong>Lucro (Descomprimindo)<\/strong>&#8220;, do <strong>BaianaSystem<\/strong> e at\u00e9 usa trechos dos filmes <em><strong>Os Doze Macacos<\/strong><\/em> (1995) e <em><strong>Rede de Intrigas<\/strong><\/em> (1976) para contar uma grande hist\u00f3ria. Ou melhor, uma paralaxe com v\u00e1rias hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 <em><strong>Rolling Stone Brasil<\/strong><\/em>, <strong>FBC<\/strong> refletiu sobre o surgimento do novo lan\u00e7amento, o retorno com um \u00e1lbum completamente focado no rap e na cria\u00e7\u00e3o de projetos audiovisuais que complementam a ess\u00eancia de <em><strong>Assaltos e Batidas<\/strong><\/em>, lan\u00e7ado nesta sexta, 6, anivers\u00e1rio de 36 anos do rapper, nas plataformas digitais via <strong>ONErpm<\/strong>.<\/p>\n<p>Quanto ao processo criativo, ele categoriza como acordar e ir para o est\u00fadio, onde as coisas acontecem e voc\u00ea nunca sabe o que vai acontecer. &#8220;Diferente dos outros trabalhos, esse eu sabia que ia ser um \u00e1lbum de rap, mas n\u00e3o sabia qual subg\u00eanero do rap seria&#8221;, afirmou. &#8220;Tanto que, nesse desenvolvimento de cria\u00e7\u00e3o, separamos umas coisas que fecharam um conceito, que \u00e9 o antecessor, o EP <em><strong>Feito \u00e0<\/strong><\/em><em><strong>M\u00e3o<\/strong><\/em> (2024). Acabou se tornando o <em><strong>Assaltos e Batidas<\/strong><\/em>&#8220;.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>\u00c9 vir e estar no est\u00fadio. Trabalhar a m\u00fasica como se eu estivesse trabalhando num caixa de supermercado, ou num balc\u00e3o de padaria, ou varrendo rua, ou qualquer outro emprego, numa multinacional, tipo a Fiat. Tem que ir trabalhar, n\u00e3o tem? Ent\u00e3o eu venho. A\u00ed \u00e9 que as coisas acontecem.<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m disso, <strong>FBC<\/strong> destacou que fez algo sem se preocupar se faria sucesso ou n\u00e3o e falou sobre o teor das m\u00fasicas de g\u00eaneros que, historicamente, sempre foram combativos, &#8220;de onde sa\u00edram v\u00e1rios ativistas e h\u00e1 uma converg\u00eancia de ideias para mudarmos o mundo da forma como acreditamos que ele deveria ser&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o cantor, o rap brasileiro precisa de um disco de est\u00fadio sem a presen\u00e7a de uma love song (m\u00fasica sobre amor): &#8220;A gente faz o \u00e1lbum, mas precisa da love song ali, porque uma tem que pagar as outras. Mas n\u00e3o me preocupei com isso, gra\u00e7as a Deus. Trabalhei minha vida toda com rap. Sempre fiz o que queria fazer, mas dessa vez eu realmente fiz o que queria, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Para este projeto, <strong>FBC<\/strong> contou com a colabora\u00e7\u00e3o dos &#8220;grandes g\u00eanios&#8221; <strong>Coyote Beatz<\/strong>\u00a0e <strong>Pepito<\/strong> \u2014 eles produziram o \u00e1lbum ao lado de <strong>DJ Cost<\/strong> e <strong>Nathan Morais<\/strong>. Por exemplo, a dupla deu a seguran\u00e7a necess\u00e1ria para o artista explorar a sonoridade do rap cl\u00e1ssico dos anos 1990.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>Com <strong>Coyote<\/strong> e <strong>Pepito<\/strong>, sempre me senti seguro at\u00e9 mesmo para trabalhar o que eu j\u00e1 queria fazer e tinha na mente. Eu me sentia muito seguro de chegar neles pra expor minhas ideias e mostrar as minhas refer\u00eancias, porque chega a ser natural.<\/p><\/blockquote>\n<p><iframe allowfullscreen=\"allowfullscreen\" frameborder=\"0\" height=\"352\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/album\/5ZCEu4tVlxt0PR0J4NJ0Ex?theme=0&amp;utm_source=generator\" style=\"border-radius: 12px;\" width=\"100%\"><\/iframe><\/p>\n<h2>Leia a entrevista de FBC com a <em>Rolling Stone Brasil<\/em> abaixo:<\/h2>\n<hr\/>\n<p><strong>Em <em>Baile<\/em> e <em>O Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia Ir\u00e3o nos Levar para Outro Planeta<\/em>, voc\u00ea trouxe uma pegada distante do rap. Como foi voltar a fazer um disco 100% rap?<\/strong><\/p>\n<p>Cara, \u00e9 muito bom voc\u00ea fazer uma parada sem se preocupar se vai fazer sucesso ou n\u00e3o, se vai se pagar ou n\u00e3o, t\u00e1 ligado? A coisa mais gostosa de ter feito esse \u00e1lbum \u00e9 isso. E eu acho que o momento do pa\u00eds \u2014 n\u00e3o estou falando da conjuntura pol\u00edtica \u2014 e da cultura, com tudo que vem acontecendo, com os retrocessos, com o avan\u00e7o dessa galera da extrema-direita, esse pessoal com medo da ascens\u00e3o do favelado\u2026 E o teor das m\u00fasicas de g\u00eaneros que, historicamente, sempre foram g\u00eaneros musicais combativos, de onde sa\u00edram v\u00e1rios ativistas e h\u00e1 uma converg\u00eancia de ideias para mudarmos o mundo da forma como acreditamos que ele deveria ser.<\/p>\n<p>Eu acho que o rap precisa de um \u00e1lbum sem love song. A gente faz o \u00e1lbum, mas precisa da love song ali, porque uma tem que pagar as outras. Mas n\u00e3o me preocupei com isso, gra\u00e7as a Deus. Trabalhei minha vida toda com rap. Sempre fiz o que queria fazer, mas dessa vez eu realmente fiz algo que eu realmente fiz o que queria, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o. Porque, mesmo eu, nos outros \u00e1lbuns, fazendo as coisas que eu queria fazer, sempre tinha aquela preocupa\u00e7\u00e3o: \u201cP\u00f4, gastei nisso, ser\u00e1 que d\u00e1 pra recuperar? Ser\u00e1 que vai ter show?\u201d Mas o meu p\u00fablico sempre lotou as casas, e isso sempre me deixou tranquilo.<\/p>\n<p><strong>Adorei muito que voc\u00ea resgata a sonoridade do rap cl\u00e1ssico dos anos 1990. Lembrei muito do N.W.A ouvindo o disco. Qual foi sua inten\u00e7\u00e3o? Por que isso aconteceu?<\/strong><\/p>\n<p>Porque acho que n\u00e3o tem ningu\u00e9m fazendo. N\u00e3o tem, n\u00e9? N\u00e3o sei\u2026 At\u00e9 nos \u00faltimos lan\u00e7amentos internacionais, d\u00e1 para colocar dentro da coisa do boom bap, tipo a <strong>Doechii<\/strong>. Qual outra pessoa no mundo que est\u00e1 fazendo isso? Agora, eu n\u00e3o sei quem est\u00e1 fazendo, n\u00e9? E eu queria ouvir. Quando eu fa\u00e7o a m\u00fasica \u00e9 porque eu quero ouvir a m\u00fasica, t\u00e1 ligado? N\u00e3o \u00e9 porque eu quero vender a m\u00fasica, \u00e9 porque eu quero ouvir aquilo. Ent\u00e3o, se ningu\u00e9m faz, eu fa\u00e7o.<\/p>\n<p>P\u00f4, eu cresci ouvindo isso: <strong>Public Enemy<\/strong>, <strong>N.W.A<\/strong>&#8230;\u00a0at\u00e9 os <strong>Racionais<\/strong> \u00e9 uma parada bem <em><strong>Holocausto Urbano<\/strong><\/em>, entendeu? E eu queria ouvir isso. Eu acho que essa gera\u00e7\u00e3o nunca experienciou uma sonoridade assim, essa textura.<\/p>\n<p><strong>Te deu certa inseguran\u00e7a explorar esse estilo espec\u00edfico do rap?<\/strong><\/p>\n<figure class=\"image align-right\"><figcaption>FBC e os produtores Pepito e Coyote<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os produtores me deram essa seguran\u00e7a. <strong>Pepito<\/strong> e <strong>Coyote<\/strong> s\u00e3o grandes g\u00eanios, pessoas que vivem e respiram m\u00fasica. Nesse lugar onde poderia surgir d\u00favidas, eu sempre tive o apoio deles como pessoas que traziam refer\u00eancias e conseguiam tamb\u00e9m entender as minhas \u2014 e trabalhar isso com as deles. E a gente queria fazer a mesma coisa: esse boom bap, essa coisa do bate-cabe\u00e7a e break beat, m\u00fasica acelerada pra b-boy, entendeu? E uma coisa que soasse final dos anos 1980, come\u00e7o dos anos 1990\u2026 Aqueles timbres daquela MPC espec\u00edfica, aquele kick espec\u00edfico, aquele jeito do timbal se comportar. Aquele jeito!<\/p>\n<p>Com Coyote e Pepito, sempre me senti seguro at\u00e9 mesmo para trabalhar o que eu j\u00e1 queria fazer e tinha na mente. Eu me sentia muito seguro de chegar neles pra expor minhas ideias e mostrar as minhas refer\u00eancias, porque chega a ser natural.<\/p>\n<p><strong>Esse resgate de um som espec\u00edfico deu muito certo com o funk de <em>Baile<\/em> e <em>O Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia Ir\u00e3o nos Levar para Outro Planeta<\/em>, n\u00e9? Isso teve algum impacto em <em>Assaltos e Batidas<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>Eu olho pro meu cat\u00e1logo, os \u00e1lbuns que lancei: 2018, <em><strong>S.C.A.<\/strong><\/em>; 2019, <em><strong>Padrim<\/strong><\/em>; 2020, <em><strong>Best Duo<\/strong><\/em>; 2021, <em><strong>Baile<\/strong><\/em>; 2023, <em><strong>O Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia Ir\u00e3o nos Levar para Outro Planeta<\/strong><\/em>. Essa sonoridade [<em>de <strong>Assaltos e Batidas<\/strong><\/em>] encaixa nesse momento, depois de todos esses trampos que lancei. Eu acho que tira tamb\u00e9m um pouco\u2026 Acaba com um pouco da esperan\u00e7a, traz essa quebra de expectativa das pessoas de ouvir um Miami [<em>Bass, subg\u00eanero do hip hop<\/em>] ou alguma coisa mais pop, housezinha e dan\u00e7ante. Aqueles temas, musiquinhas de amor, baladinhas\u2026 A\u00ed vem agora com uma coisa meio <strong>Rage Against the Machine<\/strong>, <strong>Planet Hemp<\/strong>, sabe? Baixo, bateria. Voc\u00ea imagina que o show vai ser aquela loucura. Eu acho que esse \u00e9 o momento.<\/p>\n<p>Acho que acertei, porque eu sei que, daqui 20 anos, uma pessoa que n\u00e3o conhece <strong>FBC<\/strong> vai l\u00e1 escutar o primeiro \u00e1lbum, at\u00e9 chegar nesse, e eu acho que vai ser uma experi\u00eancia muito de n\u00e3o saber o que vai acontecer. \u201cPorra, uma hora \u00e9 isso, outra hora \u00e9 aquilo\u2026 Esse cara \u00e9 maluco!\u201d<\/p>\n<p><strong>Enquanto a sonoridade faz refer\u00eancia ao passado, as letras s\u00e3o bem atuais e apontam diversas cr\u00edticas sociais. Que tipo de mensagem voc\u00ea quis passar com <em>Assaltos e Batidas<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o muitas mensagens.Uma das mais importantes \u00e9 entender que as mulheres no Brasil carregam um alvo nas costas. A nossa motiva\u00e7\u00e3o para entrar nessa coisa desse consumo desenfreado \u00e9 o que muitas vezes nos faz n\u00e3o enxergar o outro do lado, n\u00e3o ser emp\u00e1tico com o outro.<\/p>\n<p>Quando eu trato o meu territ\u00f3rio como um campo de concentra\u00e7\u00e3o, um gueto, onde o bem n\u00e3o consegue entrar, e o bem tamb\u00e9m n\u00e3o consegue sair. Eu quis me dizer muitas coisas. As pessoas me perguntam, eu falo assim: \u201cMano, eu n\u00e3o sei nem por onde come\u00e7ar\u201d.<\/p>\n<p>A maior mensagem \u00e9 que tanto os que lutam para que o sistema continue quanto os que lutam para que o sistema acabe s\u00e3o manipulados por uma for\u00e7a maior. Essa gravidade \u00e9 o dinheiro. O sistema internacional de c\u00e2mbio \u00e9 a extin\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es, a extin\u00e7\u00e3o dos povos. Hoje n\u00e3o fazemos mais parte de pa\u00edses, na\u00e7\u00f5es, e sim de corpora\u00e7\u00f5es: \u201co meu pa\u00eds \u00e9 a Honda, o meu pa\u00eds \u00e9 a Coca-Cola, a minha na\u00e7\u00e3o \u00e9 a Nike, a minha na\u00e7\u00e3o \u00e9 a Tesla, a minha na\u00e7\u00e3o \u00e9 a Apple\u201d.<\/p>\n<p>Quis questionar: o que a gente representa? O que a gente traz no peito? O que a gente t\u00e1 vendendo? A gente serve pra qu\u00ea? A gente t\u00e1 sendo apenas consumidores que promovem a coisa, que at\u00e9 o sair da mis\u00e9ria, dar a volta por cima, \u00e9 uma forma de manter o sistema do jeito que\u2026 \u00c9 muita coisa, uma loucura. Eu s\u00f3 consigo explicar direito depois que eu vejo o que as pessoas acharam. Eu acabo psicografando a letra. Eu penso no tema e no que eu quero dizer e vou escrevendo. Ent\u00e3o, muitas vezes, at\u00e9 pra mim, \u00e9 dif\u00edcil digerir isso e explicar.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 consegui ter trabalhos mais fechados, de conseguir explicar o conceito, como quis fazer com <em><strong>Baile<\/strong><\/em>, mas foi proposital. Com esse \u00e1lbum, eu quis criar uma paralaxe com v\u00e1rias hist\u00f3rias. Talvez elas n\u00e3o tenham nenhuma rela\u00e7\u00e3o entre si, talvez nem estejam acontecendo na mesma linha do tempo, mas todas s\u00e3o causadas por uma coisa, como se fosse um sistema solar, com cada planeta em sua \u00f3rbita, mas todos em volta do Sol e regidos por aquela gravidade. O Sol \u00e9 o dinheiro? O poder? O controle? Confus\u00e3o \u00e9 controle? De onde eu vim? Como \u00e9 o meu territ\u00f3rio? Nesse \u00e1lbum, consegui fazer o que sempre quis: um \u00e1lbum em que voc\u00ea s\u00f3 vai conseguir entender 100% do que eu t\u00f4 falando quem mora no [<em>bairro<\/em>] Cabana ou quem \u00e9 de Belo Horizonte e conhece o Cabana.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o eu me ferrei, j\u00e1 ca\u00ed [risos].<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, mas a galera fala e vai comentando, n\u00e3o tem jeito. BH precisa \u2014 a minha regi\u00e3o, Zona Oeste \u2014 se entender mais como cultura original e expoente de arte, originalidade, conceito, proposta e entrega. Desde a t\u00e9cnica at\u00e9 a coisa mais sens\u00edvel, a coisa que foge \u00e0 primeira vista. Um olhar mais apurado de quem consegue enxergar mais a fundo. BH precisa de algo que trabalhe essa subjetividade.<\/p>\n<p>Aconteceu e a gente t\u00e1 aqui, sabe? Eu queria ter mais tempo, mas tem muitos contratos, n\u00e9? Os contratos acabam.<\/p>\n<p><strong>Mas quem sabe uma parte dois, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00d4, irm\u00e3o, <strong>Felipe<\/strong>! Quem ouve o \u00e1lbum e \u00e9 cin\u00e9filo v\u00ea um \u201ccontinua\u201d ali no final. Quando voc\u00ea ouve o \u00e1lbum no repeat, tem aquela \u00faltima coisa, com aquelas falas, e a\u00ed quando come\u00e7a a primeira m\u00fasica, eu falo assim: \u201cAh, velho, \u00e9 isso mesmo, n\u00e9?\u201d A gente acaba sendo pastor dessa porra. Os maiores promotores do sistema somos n\u00f3s que consumimos ele. N\u00e3o tem como abdicar.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea continua morando em BH, n\u00e9? Muitos artistas acabam se mudando pra SP ou RJ. Qual a import\u00e2ncia de voc\u00ea se manter a\u00ed tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p>Para a minha comunidade, \u00e9 ter um exemplo de vit\u00f3ria al\u00e9m do tr\u00e1fico.<\/p>\n<p><strong>Algo bem legal no seu novo \u00e1lbum s\u00e3o as refer\u00eancias a Racionais MC&#8217;s, Fac\u00e7\u00e3o Central e BaianaSystem. Queria entender como foi escolher esses nomes para referenciar. Eles chegaram a ver as respectivas faixas?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro eu mandei pro <strong>Vandal<\/strong>, que passou o contato do <strong>Russo<\/strong> [<em><strong>Passapusso<\/strong><\/em>]. A\u00ed eu mostrei pro Russo, e todo mundo do <strong>BaianaSystem<\/strong> gostou, eles aprovaram. S\u00f3 teve um problema com o nome, que seria \u201c<strong>M\u00e1quina de Louco<\/strong>\u201d, mas ficou \u201c<strong>Voc\u00ea Pra Mim \u00c9 Lucro<\/strong>\u201d porque eles t\u00eam uma marca. Eu pensei assim: \u201cBeleza, n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica que eu vou trabalhar como carro-chefe do \u00e1lbum, mas vai que seja a m\u00fasica que estoura e eu queira fazer uma camisa \u2018<strong>M\u00e1quina de Louco<\/strong>\u2019? N\u00e3o d\u00e1\u201d. Esse foi o acordo verbal e de camarada que eu tive com eles. Deu tudo certo, a galera curtiu muito, velho.<\/p>\n<p>E a quest\u00e3o dos samples \u00e9 assim: s\u00f3 sampleei rap de m\u00fasica. P\u00f4, algu\u00e9m do rap processar outro rapper por samplear um rap? A\u00ed acabou\u2026 e voc\u00ea pode entregar pro <strong>Nikolas Ferreira<\/strong> [<em>deputado federal<\/em>] e pro <strong>Cleitinho<\/strong> [<em><strong>Azevedo<\/strong>, Senador da Rep\u00fablica Federativa do Brasil, por Minas Gerais<\/em>] a chave do Brasil. O rap sempre teve a cultura de samplear o pr\u00f3prio rap tamb\u00e9m. Trouxemos essa coisa [<em>para <strong>Assaltos e Batidas<\/strong><\/em>], nem que seja um pontinho. Quem curte, entende e consome rap vai [<em>falar<\/em>]: \u201cCaralho, que \u00e1lbum foda, velho. Saudade de ouvir um \u00e1lbum de rap\u201d. Sem ouvir aquele tanto de mimimi no come\u00e7o pra, na segunda m\u00fasica, ser uma love song.<\/p>\n<p>\u201cAh, porque o rap \u00e9 a briga do ego, n\u00e9?\u201d A\u00ed eu tento fugir disso e ser uma terceira pessoa, um narrador. N\u00e3o falar de mim. <strong>FBC<\/strong> n\u00e3o importa aqui. Foda-se o <strong>FBC<\/strong>. Aqui, <strong>FBC<\/strong> n\u00e3o existe, n\u00e3o \u00e9 a vida dele. Queria que as pessoas ouvissem e vissem. Ouvissem!<\/p>\n<p><strong>Em \u201cM\u00e1quina de Louco\u201d voc\u00ea colocou falas de <em>Os Doze Macacos<\/em> (1995) e, em \u201cA Cosmologia Corporativista do Senhor Arthur Jansen\u201d, inseriu trechos de <em>Rede de Intrigas<\/em> (1976). Como elas te ajudam a contar essa hist\u00f3ria que voc\u00ea quis trazer?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Felipe<\/strong>, \u00e9 porque o rap \u00e9 a cultura do sample. Desde os \u00e1lbuns cl\u00e1ssicos do rap, a galera sampleou filmes, pe\u00e7as e programas de TV. E eu tava na busca de falas em filmes porque eu n\u00e3o queria escrever frases de efeito. O efeito \u00e9 tempor\u00e1rio. Um \u00e1lbum no qual a pessoa precisa digerir e procurar as refer\u00eancias vai perpetuar mais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m quis buscar falas que sintetizassem a minha ideia de atacar essa coisa de que voc\u00ea s\u00f3 presta enquanto consumidor. Se voc\u00ea n\u00e3o consome, automaticamente voc\u00ea \u00e9 execrado, considerado um retardado, louco e maluco, que n\u00e3o serve pra estar vivendo em sociedade, que s\u00f3 se aceita enquanto consumidor e promotor do sistema.<\/p>\n<p><strong>Por falar em produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, <em>Assaltos e Batidas<\/em> \u00e9 acompanhado de um curta-metragem que, pelo que entendi, tamb\u00e9m foi pensado para o p\u00fablico das redes sociais. Como foi a cria\u00e7\u00e3o deste curta? O que voc\u00ea pretende com ele?<\/strong><\/p>\n<p>Essa foi a primeira vez, <strong>Felipe<\/strong>, que a quest\u00e3o do v\u00eddeo foi independente. O meu produtor, que tamb\u00e9m \u00e9 videomaker e designer \u2014 essas pessoas que fazem tudo \u2014, fez. Eu n\u00e3o quis ver, confiei pra ver s\u00f3 no lan\u00e7amento. N\u00e3o gosto muito de v\u00eddeo porque n\u00e3o d\u00e1 dinheiro, j\u00e1 foi o tempo que dava. Mas, por eu tratar o \u00e1lbum como filme (a hist\u00f3ria, o enredo e a narrativa), o curta encaixou. E <strong>Renan 1RG<\/strong> t\u00e1 fazendo isso.<\/p>\n<p>Hoje eu trabalho pra Xeque Mate, sou diretor criativo do est\u00fadio Xeque Mate, onde estou. Esse \u00e9 o primeiro trabalho da Xeque Mate Produ\u00e7\u00f5es. S\u00e3o tr\u00eas coisas diferentes: o \u00e1lbum, o curta e o show, que fazem parte do mesmo universo do disco.<\/p>\n<figure class=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Capa de Assaltos e Batidas\" height=\"773\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/rollingstone.uol.com.br\/media\/uploads\/2025\/06\/capa-fbc-assaltos-e-batidas-foto-divulgacao.jpg\" width=\"773\"\/><figcaption>Capa de Assaltos e Batidas, disco de FBC (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Voc\u00ea praticamente lan\u00e7ou um \u00e1lbum in\u00e9dito por ano desde <em>S.C.A.<\/em> (2018). Como voc\u00ea consegue ser t\u00e3o produtivo? Quanto isso te ajuda e tamb\u00e9m pode te prejudicar enquanto artista?<\/strong><\/p>\n<p>Foi por isso que eu mudei, porque eu tava lan\u00e7ando um \u00e1lbum por ano at\u00e9 <em><strong>Baile<\/strong><\/em>, em 2021, quando teve aquele estouro. Em 2022, a gente ficou s\u00f3 115 dias em casa, o resto foi tudo viajando. Pensa no esgotamento f\u00edsico e mental. Tenho fam\u00edlia, tr\u00eas filhos, mulher, sabe? Mesmo com voc\u00ea trabalhando e tudo, essa dist\u00e2ncia \u00e9 tipo uma ruptura do jeito que a gente levava a vida.<\/p>\n<p>E a\u00ed eu fui l\u00e1\u2026 Demorei dois anos pra lan\u00e7ar <em><strong>O Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia Ir\u00e3o nos Levar para Outro Planet<\/strong><strong>a<\/strong><\/em>. Agora demorei mais dois anos porque eu precisava ler um livro, ouvir um disco, ver um filme, viver, bater o ded\u00e3o na quina do guarda-roupa, me machucar, brigar com algu\u00e9m, discutir, perder a raz\u00e3o, ter a raz\u00e3o\u2026 eu tinha que viver! A arte \u00e9 resultado da vida, da viv\u00eancia e experi\u00eancias que a gente tem ao decorrer do tempo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se voc\u00ea n\u00e3o tem uma estrutura bilion\u00e1ria e 25 escritores trabalhando pra voc\u00ea\u2026 Temos que valorizar muito os MCs do Brasil, todos e todas que se prop\u00f5em a escrever no Brasil hoje, porque n\u00f3s somos MCs que cantam as letras que escrevem, diferente da l\u00f3gica mercadol\u00f3gica estadunidense ou europeia, onde um artista apenas \u00e9 int\u00e9rprete \u2014 n\u00e3o que isso seja ruim, eu queria ser um grande int\u00e9rprete e cantar igual \u00e0 <strong>Elis Regina<\/strong> e \u00e0 <strong>Clara Nunes<\/strong>, mas n\u00e3o deu.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 muito louv\u00e1vel a gente escrever e cantar o que vive. Eu t\u00f4 tentando aproveitar a oportunidade que eu tenho de aprender, conhecer e me aprimorar, seja enquanto m\u00fasico e instrumentista, poeta, escritor, pai, empres\u00e1rio e dono de um neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode achar que acertou e \u201copa! Voc\u00ea t\u00e1 solteira? Vamo ficar de casal? N\u00e3o\u2026 mas agora vai ter: se t\u00e1 solteira, vamo ficar de trisal. Depois vai ter o: se t\u00e1 solteira, conhe\u00e7a o poliamor. A\u00ed, do poliamor, vai pro\u2026 N\u00e3o \u00e9 uma franquia\u201d [<em>risos<\/em>].<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: BK&#8217; anuncia turn\u00ea com shows em S\u00e3o Paulo, Porto Alegre e Salvador; saiba mais<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/fbc-retorna-com-album-de-rap-classico-sobre-desigualdade-e-consumo-fbc-nao-importa-aqui\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FBC se estabeleceu na m\u00fasica brasileira como um rapper afiado, respons\u00e1vel por discos como S.C.A (2018), Padrim (2019) e Best Duo (2020), mas atingiu grande sucesso nacional com o disco de funk oitentista Baile (2021) e, dois anos depois, seguiu na mesma pegada com o filos\u00f3fico e psicod\u00e9lico O Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":25214,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-25213","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25213","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25213"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25213\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25214"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25213"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25213"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25213"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}