{"id":24375,"date":"2025-06-01T08:41:03","date_gmt":"2025-06-01T11:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/o-deus-do-sertao-e-o-messianismo-que-volta-pelo-avesso\/"},"modified":"2025-06-01T08:41:03","modified_gmt":"2025-06-01T11:41:03","slug":"o-deus-do-sertao-e-o-messianismo-que-volta-pelo-avesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/o-deus-do-sertao-e-o-messianismo-que-volta-pelo-avesso\/","title":{"rendered":"O Deus do sert\u00e3o e o messianismo que volta pelo avesso"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>&#8220;Deus deixou o sert\u00e3o sem \u00e1gua porque sabia que eu seria presidente da Rep\u00fablica&#8221;.<\/em> A frase n\u00e3o saiu de um pregador exaltado em pra\u00e7a p\u00fablica, tampouco de algum personagem b\u00edblico tomado por vis\u00e3o prof\u00e9tica. Saiu da boca do presidente da Rep\u00fablica \u2014 e deveria preocupar mais do que divertir.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">O que se ouviu naquele palanque foi mais do que um exagero ret\u00f3rico. Foi uma insinua\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica de que o sofrimento hist\u00f3rico do povo sertanejo teria servido de palco providencial para a ascens\u00e3o de um l\u00edder pol\u00edtico. Como se a seca \u2014 realidade dura e milenar \u2014 tivesse sido escrita nos c\u00e9us em fun\u00e7\u00e3o de um projeto de poder terreno. A met\u00e1fora, neste caso, n\u00e3o embeleza. Exp\u00f5e.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">E exp\u00f5e porque escancara o velho v\u00edcio do messianismo pol\u00edtico, disfar\u00e7ado de humildade. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que governantes tentam vestir o manto da provid\u00eancia divina para legitimar sua trajet\u00f3ria. Mas h\u00e1 algo de particularmente inquietante quando esse gesto vem justamente de quem, por anos, acusou seus advers\u00e1rios de fazer o mesmo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A esquerda brasileira, especialmente em tempos recentes, fez da cr\u00edtica \u00e0 ret\u00f3rica religiosa de Jair Bolsonaro quase um princ\u00edpio. Rejeitou com vigor qualquer invoca\u00e7\u00e3o p\u00fablica do nome de Deus por parte do ent\u00e3o presidente. Acusou, com frequ\u00eancia, o uso indevido da f\u00e9 como mecanismo de domina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Mas o que dizer agora, quando a narrativa divina volta \u00e0 cena, sob nova roupagem?<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A incoer\u00eancia salta aos olhos. N\u00e3o porque falar de Deus na pol\u00edtica seja, por si s\u00f3, ileg\u00edtimo \u2014 n\u00e3o \u00e9. Mas porque o crit\u00e9rio de julgamento parece mudar conforme a conveni\u00eancia ideol\u00f3gica. Quando um advers\u00e1rio cita a B\u00edblia, \u00e9 teocracia. Quando um aliado se diz resultado de uma provid\u00eancia divina, \u00e9 sensibilidade popular.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Sob a \u00f3tica do Direito Religioso, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas moral ou est\u00e9tica. \u00c9 institucional. A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira estabelece um modelo de <em>laicidade colaborativa<\/em>: o Estado n\u00e3o se confunde com nenhuma f\u00e9, mas reconhece a relev\u00e2ncia da religi\u00e3o na vida coletiva e na sociedade, estabelecendo um di\u00e1logo com as confiss\u00f5es religiosas em benef\u00edcio do bem comum. A laicidade brasileira n\u00e3o \u00e9 militante, nem hostil, nem agn\u00f3stica. Ela \u00e9 aberta, dial\u00f3gica e respeitosa \u2014 mas imp\u00f5e limites. Especialmente quando o discurso religioso deixa de ser testemunho de f\u00e9 e se torna alegoria de campanha.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">E \u00e9 justamente esse o alerta: estamos diante de um reposicionamento estrat\u00e9gico do campo pol\u00edtico que historicamente rejeitou qualquer aproxima\u00e7\u00e3o com o universo evang\u00e9lico. Nos \u00faltimos dias, vimos a Advocacia-Geral da Uni\u00e3o ser usada como pe\u00e7a de campanha institucional em temas de valores \u2014 com seu chefe, Jorge Messias, sendo apresentado como evang\u00e9lico em propaganda oficial sobre o m\u00eas da fam\u00edlia. Tamb\u00e9m, o PT vai lan\u00e7ar a iniciativa <em>F\u00e9 e Democracia<\/em>, um programa de forma\u00e7\u00e3o voltado \u00e0 base crist\u00e3 a partir da \u00f3tica de te\u00f3logos alinhados com a vis\u00e3o progressista, uma iniciativa voltada a \u201creconectar\u201d o partido com o eleitorado religioso que perdeu nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Nada disso seria problema se fosse feito com honestidade intelectual, reconhecimento de erros passados e real disposi\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo. Mas h\u00e1 algo de pragm\u00e1tico nessa reaproxima\u00e7\u00e3o s\u00fabita \u2014 uma tentativa de capturar a linguagem da f\u00e9 sem internaliz\u00e1-la. Como se bastasse adotar o vocabul\u00e1rio evang\u00e9lico para resgatar votos perdidos. Mas a linguagem da f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 apenas est\u00e9tica. Ela tem raiz, doutrina, coer\u00eancia. \u00c9 tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o expediente.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A liberdade religiosa possui duas fun\u00e7\u00f5es que se complementam: a subjetiva, que garante a cada pessoa o direito de crer, n\u00e3o crer ou mudar de cren\u00e7a; e a objetiva, que assegura \u00e0s confiss\u00f5es religiosas o exerc\u00edcio p\u00fablico, institucional e comunit\u00e1rio de sua f\u00e9. Ambas s\u00e3o pilares indispens\u00e1veis da dignidade humana, mas tamb\u00e9m oferecem um contributo essencial \u00e0 pr\u00f3pria ordem p\u00fablica. Ao reconhecer a legitimidade da religi\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o moral, na coes\u00e3o social e na media\u00e7\u00e3o de conflitos, o Estado n\u00e3o apenas protege a consci\u00eancia de cada um, mas fortalece o tecido democr\u00e1tico, promovendo um ambiente de pluralismo est\u00e1vel, onde o dissenso n\u00e3o degenera em hostilidade.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">H\u00e1, por fim, um risco mais profundo. Quando a religi\u00e3o \u00e9 transformada em c\u00f3digo pol\u00edtico, em ve\u00edculo de como\u00e7\u00e3o eleitoral, ela deixa de ser um bem p\u00fablico e passa a ser instrumentalizada como ferramenta de influ\u00eancia. E isso vale tanto para a esquerda quanto para a direita. A f\u00e9 n\u00e3o deve servir a nenhum projeto de poder \u2014 deve ser respeitada, compreendida e protegida como express\u00e3o da liberdade mais \u00edntima do indiv\u00edduo e da identidade mais profunda de uma coletividade.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A fala de Lula n\u00e3o foi apenas infeliz. Ela foi sintom\u00e1tica. Mostra que, nas elei\u00e7\u00f5es de 2026, o campo religioso ser\u00e1 novamente palco de disputa \u2014 e n\u00e3o por seus valores, mas por sua capacidade de gerar afeto e fidelidade. Transformar Deus em cabo eleitoral \u00e9 o atalho ret\u00f3rico mais perigoso de uma democracia que se pretende plural.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A seca do sert\u00e3o, t\u00e3o real quanto injusta, nunca precisou de culpados sobrenaturais nem de salvadores autoproclamados. Ela precisa de \u00e1gua, de dignidade e de pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes. Deus, por sua vez, segue soberano \u2014 e n\u00e3o se presta a slogans.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/cronicas-de-um-estado-laico\/deus-sertao-messianismo-volta-avesso\/\">Revista Oeste<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Deus deixou o sert\u00e3o sem \u00e1gua porque sabia que eu seria presidente da Rep\u00fablica&#8221;. A frase n\u00e3o saiu de um pregador exaltado em pra\u00e7a p\u00fablica, tampouco de algum personagem b\u00edblico tomado por vis\u00e3o prof\u00e9tica. Saiu da boca do presidente da Rep\u00fablica \u2014 e deveria preocupar mais do que divertir. 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