{"id":24144,"date":"2025-05-30T21:28:30","date_gmt":"2025-05-31T00:28:30","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/e-o-momento-perfeito-para-uma-reuniao-do-pulp\/"},"modified":"2025-05-30T21:28:30","modified_gmt":"2025-05-31T00:28:30","slug":"e-o-momento-perfeito-para-uma-reuniao-do-pulp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/e-o-momento-perfeito-para-uma-reuniao-do-pulp\/","title":{"rendered":"\u00c9 o momento perfeito para uma reuni\u00e3o do Pulp"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>\u00c9 um retorno pelo qual os f\u00e3s esperaram durante anos: a volta do <strong>Pulp<\/strong>. Trinta anos depois de <strong>Jarvis Cocker<\/strong>cantar \u201cVamos todos nos encontrar no ano 2000\u201d, a adorada banda do <strong>Britpop<\/strong> finalmente est\u00e1 de volta. Mesmo ap\u00f3s as bem-sucedidas turn\u00eas de reuni\u00e3o em 2011 e 2022, ningu\u00e9m ousava sonhar com um novo \u00e1lbum da banda respons\u00e1vel por cl\u00e1ssicos dos anos 90 como <em><strong>Different Class<\/strong><\/em> e <em><strong>This Is Hardcore<\/strong><\/em> \u2014 at\u00e9 agora. Mas o novo e brilhante \u00e1lbum <em><strong>More<\/strong><\/em> ser\u00e1 lan\u00e7ado em junho. \u201cFaz 24 anos desde o nosso \u00faltimo disco\u201d, diz <strong>Cocker<\/strong>. \u201cO que, sinceramente, me deixa intrigado\u201d.<\/p>\n<p>O <strong>Pulp<\/strong> teve uma trajet\u00f3ria hist\u00f3rica como a grande banda brit\u00e2nica de sua gera\u00e7\u00e3o, com <strong>Cocker<\/strong> consolidado como um dos grandes contadores de hist\u00f3rias do rock e \u00edcone da moda trash de brech\u00f3. Eles passaram anos na obscuridade como uma banda indie ignorada, vindos da dif\u00edcil cidade industrial de Sheffield, no norte da Inglaterra. S\u00f3 explodiram nos anos 90, com a onda do Britpop, gra\u00e7as ao hit <strong>\u201cCommon People\u201d<\/strong>, que misturava sexo e consumo. Mas sempre seguiram seu pr\u00f3prio estilo \u2014 um cruzamento entre o glam rock dos anos 70 e o synth-disco dos anos 80, naquele beco entre a biblioteca e o clube g\u00f3tico. Com seu sarcasmo afiado caracter\u00edstico, <strong>Cocker<\/strong> transformava detalhes banais do cotidiano em cl\u00e1ssicos como <strong>\u201cDisco 2000\u201d<\/strong> e <strong>\u201cDo You Remember the First Time?\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas em <em><strong>More<\/strong><\/em> (que ser\u00e1 lan\u00e7ado em 6 de junho), o <strong>Pulp<\/strong> se aventura por um novo territ\u00f3rio: a vida adulta. \u201cAlgu\u00e9m me disse que o \u00e1lbum \u00e9 \u2018apropriado para a idade\u2019\u201d, conta <strong>Cocker<\/strong>. \u201cN\u00e3o sei se levo isso como um elogio ou n\u00e3o, mas acho que devo \u2014 afinal, sou um adulto\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, <strong>Cocker<\/strong> est\u00e1 sentado no <em><strong>Katz\u2019s Delicatessen<\/strong><\/em>, o restaurante mais lend\u00e1rio do Lower East Side. Aos 63 anos, ele mant\u00e9m todo o charme do gentleman do rock brit\u00e2nico, em uma tarde fria e chuvosa. Est\u00e1 empolgado para experimentar pela primeira vez a culin\u00e1ria de um deli nova-iorquino \u2014 blintzes de queijo e sopa de galinha. O local est\u00e1 lotado, com fila na porta e uma equipe famosa por ser r\u00edspida, mas h\u00e1 algo no carisma lend\u00e1rio de <strong>Jarvis<\/strong> que os faz, inesperadamente, deix\u00e1-lo \u00e0 vontade para conversar por horas. Ningu\u00e9m o reconhece \u2014 mas n\u00e3o importa. \u00c9 quase uma lei da natureza: ningu\u00e9m reclama da presen\u00e7a dele em um ambiente. Ele se anima ao notar que est\u00e1 sentado sob uma foto emoldurada de <strong>Jerry Lewis<\/strong> e tira uma foto \u2014 a \u00fanica vez que pega no celular.<\/p>\n<p>Algumas das novas m\u00fasicas do <strong>Pulp<\/strong> s\u00e3o esbo\u00e7os antigos finalizados agora; a maioria \u00e9 totalmente nova, lapidada em passagens de som e ensaios durante a turn\u00ea de reuni\u00e3o de 2022. \u201c<strong>\u2018Grownups\u2019<\/strong> \u00e9 a mais antiga do disco\u201d, diz ele. \u201cSempre teve esse nome, mas eu simplesmente nunca conseguia escrever a letra. Ent\u00e3o \u00e9 quase um al\u00edvio, depois de quase 30 anos, finalmente ter conseguido. Acho que talvez seja isso \u2014 talvez a m\u00fasica tenha, enfim, crescido\u201d.<\/p>\n<p>Reuni\u00f5es de bandas costumam ser meio tristes \u2014 algu\u00e9m precisa de dinheiro, algu\u00e9m ainda guarda m\u00e1goas. Mas essa tem uma aura calorosa e gentil. O <strong>Pulp<\/strong> continua sendo um grupo de amigos de inf\u00e2ncia, com o n\u00facleo formado por <strong>Nick Banks<\/strong> na bateria, <strong>Mark Webber<\/strong> na guitarra e <strong>Candida Doyle<\/strong> nos teclados. Agora expandido para uma forma\u00e7\u00e3o de dez integrantes, com uma se\u00e7\u00e3o de cordas marcante. A balada madura <strong>\u201cFarmer\u2019s Market\u201d<\/strong> resume o esp\u00edrito do \u00e1lbum. \u201cAch\u00e1vamos que est\u00e1vamos apenas experimentando sonhos\u201d, canta <strong>Cocker<\/strong>. \u201cN\u00e3o sab\u00edamos que ficar\u00edamos presos neles para o resto da vida\u201d.<\/p>\n<p>O <strong>Pulp<\/strong> perdeu f\u00f4lego no in\u00edcio dos anos 2000, mas todos seguiram com suas vidas. <strong>Cocker<\/strong>, no entanto, permaneceu como um dos nomes mais requisitados do pop. Sua banda <strong>Jarv Is<\/strong> lan\u00e7ou o \u00f3timo <em><strong>Beyond the Pale<\/strong><\/em> em 2020, com o hino pand\u00eamico <strong>\u201cHouse Music All Night Long\u201d<\/strong>. Ele colaborou com nomes como <strong>Nancy Sinatra<\/strong> e <strong>Chilly Gonzales<\/strong>, e at\u00e9 tocou no baile de <strong>Hogwarts<\/strong> em <em><strong>Harry Potter e o C\u00e1lice de Fogo<\/strong><\/em>. Virou apresentador de r\u00e1dio no Reino Unido, com os programas <em><strong>Domestic Disco<\/strong><\/em>, e publicou o livro-manifesto <em><strong>Good Pop\/Bad Pop<\/strong><\/em>. Tamb\u00e9m se aventurou em projetos underground como a dupla eletr\u00f4nica pervertida <strong>Relaxed Muscle<\/strong>, ao lado do amigo <strong>Jason Buckle<\/strong> \u2014 que agora integra o <strong>Pulp<\/strong>.<\/p>\n<p>O maior impulso para <em><strong>More<\/strong><\/em> veio da morte de um velho companheiro \u2014 o baixista <strong>Steve Mackey<\/strong>, que n\u00e3o s\u00f3 era membro da banda, mas bra\u00e7o-direito de <strong>Cocker<\/strong> na carreira solo. \u201cQuando <strong>Steve<\/strong> morreu, por mais clich\u00ea que pare\u00e7a, isso serviu como um alerta\u201d, diz <strong>Jarvis<\/strong>. \u201cNos fez perceber que ainda temos uma chance de criar. Temos tempo para fazer algo, enquanto ainda estamos aqui. Se voc\u00ea ainda est\u00e1 vivo, ainda pode criar. Ent\u00e3o \u00e9 agora\u201d. Assim, reuniu os antigos parceiros. \u201cDisse: \u2018Vamos nos encontrar no come\u00e7o do ano que vem e fazer alguns ensaios. Cada um traz umas ideias e vemos o que rola.\u2019 Foi assim que come\u00e7ou. Sem press\u00e3o \u2014 n\u00e3o t\u00ednhamos contrato com gravadora nem nada. S\u00f3 para ver se ainda dava certo\u201d.<\/p>\n<p>Um dos momentos mais incr\u00edveis da turn\u00ea de 2022 foi o entusiasmo do p\u00fablico com as m\u00fasicas novas. \u201cRessuscitamos essas can\u00e7\u00f5es, algumas bem antigas\u201d, disse ele num show em Nova York, antes de soltar as seis palavras mais temidas por qualquer plateia: \u201cE agora, uma m\u00fasica nova\u201d. \u00c9 a hora em que todo mundo geralmente corre pro bar ou pro banheiro. Mas nesse caso, a rea\u00e7\u00e3o foi de aplausos \u2014 gritos, na verdade \u2014 ao ouvir material in\u00e9dito do <strong>Pulp<\/strong>. Especialmente o hino synth-glam ao estilo <strong>Bowie<\/strong>, <strong>\u201cSpike Island\u201d<\/strong>, onde <strong>Cocker<\/strong> reflete sobre os sonhos de juventude que naufragaram (\u201cNasci para me apresentar, \u00e9 um chamado\u201d), e como tudo se perdeu. Como canta ele: \u201cO universo deu de ombros e seguiu em frente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOutra coisa foi que me casei em junho\u201d, conta. \u201cEst\u00e1vamos juntos h\u00e1 muito tempo, nos separamos em 2018 por um ano, depois voltamos. Tive sorte de conseguir recuperar o relacionamento. Lidar com mudan\u00e7as \u00e9 o truque da vida \u2014 n\u00e3o que eu saiba ao certo o que isso quer dizer, mas, pela experi\u00eancia, acho que \u00e9 isso. Sempre tive esse problema com mudan\u00e7as. Mas voc\u00ea tem que tentar surfar a onda, em vez de ser engolido por ela\u201d.<\/p>\n<p>Gravaram o \u00e1lbum em apenas tr\u00eas semanas \u2014 bem diferente dos velhos tempos.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>Foi tudo muito r\u00e1pido, embora algumas m\u00fasicas j\u00e1 existissem h\u00e1 bastante tempo\u201d, ele diz. \u201cAcho que a banda ficou mais chocada que eu, porque eles sempre tinham que lidar com a minha demora para escrever letras, com toda aquela dor de esperar at\u00e9 eu acertar. Estavam se preparando para isso de novo, mas acabou que n\u00e3o foi assim. Ent\u00e3o, vejo isso como um sinal de que era algo que estava pronto para acontecer\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Cocker<\/strong> tem um hist\u00f3rico de colabora\u00e7\u00f5es variadas. Ainda assim, <em><strong>More<\/strong><\/em> tem o som cl\u00e1ssico do <strong>Pulp<\/strong>, evocando o brilho decadente de <em><strong>His \u2019N\u2019 Hers<\/strong><\/em> ou <em><strong>Different Class<\/strong><\/em>. \u201cAcho que o que mais define o som do <strong>Pulp<\/strong> \u00e9 o fato do <strong>Nick<\/strong>, o baterista, tocar muito alto, e isso faz todo mundo se esfor\u00e7ar para ser ouvido por cima. Ent\u00e3o sempre tem muita energia, porque todos est\u00e3o tentando se sobressair no meio da barulheira. E, claro, a <strong>Candida<\/strong> tem problemas de mobilidade\u201d \u2014 ela convive com artrite desde a adolesc\u00eancia \u2014 \u201cent\u00e3o ela precisa criar partes que funcionem dentro do que consegue tocar. Cada um tem suas limita\u00e7\u00f5es, e isso acaba moldando o som. Ainda bem que os temos. \u00c0s vezes \u00e9 frustrante \u2014 todo baterista ouve reclama\u00e7\u00f5es por acelerar demais. Mas <strong>\u2018Common People\u2019<\/strong> acelera uns 20 BPM! \u00c9 isso que d\u00e1 energia \u00e0 m\u00fasica\u201d.<\/p>\n<p>O produtor <strong>James Ford<\/strong> (<strong>Arctic Monkeys<\/strong>, <strong>Fontaines D.C.<\/strong>) n\u00e3o tentou disfar\u00e7ar essas peculiaridades. \u201cDesde o come\u00e7o, era o \u00fanico jeito que sab\u00edamos fazer\u201d, diz <strong>Jarvis<\/strong>. \u201cE naquela \u00e9poca nem existia Pro Tools, ent\u00e3o n\u00e3o dava para \u2018massagear\u2019 tudo e deixar perfeitamente sincronizado. Mas qual \u00e9 o sentido de fazer m\u00fasica humana se ela n\u00e3o tem personalidade?\u201d.<\/p>\n<p>Depois do fim da banda, <strong>Cocker<\/strong> se manteve em evid\u00eancia, mas os colegas voltaram a uma vida comum em Sheffield. O divertido document\u00e1rio <em><strong>Pulp: A Film About Life, Death and Supermarkets<\/strong><\/em> (2014) tem uma cena em que <strong>Nick Banks<\/strong> se gaba por patrocinar o time de futebol da filha adolescente, enquanto ela revira os olhos por causa da \u201cbanda rid\u00edcula do meu pai\u201d. \u201cNick toca numa banda de Sheffield chamada <strong>Everly Pregnant Brothers<\/strong>, que faz shows locais\u201d, conta <strong>Cocker<\/strong> com orgulho. \u201cEles fazem vers\u00f5es folk de m\u00fasicas famosas, mas com letras sobre South Yorkshire. Tipo, tem um molho famoso l\u00e1 chamado Henderson\u2019s Relish. Eles pegam<strong> \u2018Yellow\u2019<\/strong> do <strong>Coldplay<\/strong> e transformam em <strong>\u2018It was all Hendo\u2019s\u2019<\/strong>\u201d. E assim vai o glamour do rock &amp; roll. \u201cA <strong>Candida<\/strong> virou terapeuta, trabalha com pessoas que passaram por traumas. E o <strong>Mark<\/strong> sempre teve interesse por cinema experimental \u2014 j\u00e1 publicou livros sobre isso. Mas nem ele nem <strong>Candida<\/strong> tinham feito m\u00fasica por anos\u201d.<\/p>\n<p>O que os motivou a tocar de novo? \u201cLiguei pra eles\u201d, diz <strong>Jarvis<\/strong>.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>Nos encontramos na minha casa, perto de Sheffield, e conversamos. Depois fizemos um ensaio improvisado \u2014 felizmente n\u00e3o gravado \u2014 com os instrumentos na minha sala. Tocamos umas quatro m\u00fasicas e dissemos: vamos tentar. Acho que foi por curiosidade\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>A turn\u00ea anterior, de 2011, foi dedicada aos cl\u00e1ssicos \u2014 eles se orgulhavam de n\u00e3o usar aquilo para promover um novo disco, mas sim prestar homenagem ao cat\u00e1logo. Tamb\u00e9m era uma forma de resolver pend\u00eancias emocionais. \u201cQueria dar um fim digno\u201d, admite <strong>Cocker<\/strong>. \u201cAchei que o <strong>Pulp<\/strong> tinha acabado de um jeito meio esquisito. E o [guitarrista] <strong>Russell<\/strong> [<strong>Senior<\/strong>] tinha sa\u00eddo da banda, o que me deixava mal\u201d. <strong>Senior<\/strong> foi figura central at\u00e9 1997, quando saiu no auge da fama \u2014 hoje \u00e9 antiqu\u00e1rio. \u201cConvidamos ele de volta\u201d, lembra <strong>Jarvis<\/strong>. \u201cEle chegou a tocar com a gente um tempo, estava planejando vir para os EUA, mas n\u00e3o entra mais em avi\u00e3o. Tentou pegar um barco, mas n\u00e3o rolou. Desistiu\u201d.<\/p>\n<p>Quem viu aquela turn\u00ea sabe que foi um sucesso retumbante \u2014 musicalmente, comercialmente e emocionalmente. \u201cAchei que aquilo seria o ponto final\u201d, diz <strong>Cocker<\/strong>. \u201cUm jeito de fechar a hist\u00f3ria de forma bonita, deixar uma boa lembran\u00e7a \u2014 e foi exatamente isso que aconteceu\u201d.<\/p>\n<p>O quarteto principal compartilha uma longa hist\u00f3ria. \u201cIsso \u00e9 o melhor de tudo\u201d, diz ele.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>Porque a gente n\u00e3o convive muito fora da banda. Antes de voltarmos a tocar, a gente se via talvez uma ou duas vezes por ano. Ent\u00e3o foi um prazer perceber que ainda consegu\u00edamos tocar juntos, criar algo juntos. Acho que todos ficaram felizes com isso\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>De fato, a cumplicidade no palco \u00e9 percept\u00edvel da plateia. \u201cQue bom que passa essa sensa\u00e7\u00e3o \u2014 talvez sejamos s\u00f3 ing\u00eanuos\u201d, diz ele. \u201cVi o <strong>Fleetwood Mac<\/strong> com o <strong>Lindsey Buckingham<\/strong>, antes dele ser chutado de novo. Entendi por que ele era meio irritante, falava demais com o p\u00fablico, e dava pra ver a rea\u00e7\u00e3o dos outros. [Suspiro.] N\u00f3s demos sorte de nenhum de n\u00f3s ter irritado o resto. Ainda estamos conversando, veja s\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>O <strong>Pulp<\/strong> sempre teve uma conex\u00e3o forte com sua cidade natal, que inspirou faixas como a eletr\u00f4nica-safada <strong>\u201cSheffield: Sex City\u201d<\/strong>, de 1992. Uma das faixas mais impactantes de <em><strong>More<\/strong><\/em>, <strong>\u201cMy Sex\u201d<\/strong>, fala da cria\u00e7\u00e3o de <strong>Cocker<\/strong> com a irm\u00e3, criados por uma m\u00e3e trabalhadora num ambiente feminino. \u201cCresci num bairro onde os homens sumiram\u201d, lembra. \u201cTodos os pais foram embora. O meu, o marido da minha tia, o da melhor amiga da minha m\u00e3e \u2014 todos desapareceram quase ao mesmo tempo. Meu tio tinha morrido, ent\u00e3o o \u00fanico homem na minha vida era meu av\u00f4. E eu n\u00e3o conseguia imaginar ele transando, basicamente. Ent\u00e3o, na puberdade, queria entender o que era isso, e acabava ouvindo escondido as conversas da minha m\u00e3e com as amigas. Elas estavam tentando sair com algu\u00e9m, falavam de tudo. Foi assim que aprendi \u2014 sob a perspectiva feminina\u201d.<\/p>\n<p>Isso influenciou sua confus\u00e3o sexual na adolesc\u00eancia. \u201cJ\u00e1 era dif\u00edcil pra mim namorar, porque eu era t\u00edmido. E esses sinais mistos n\u00e3o ajudaram\u201d, diz ele. Mas esse sempre foi um dos tra\u00e7os que tornaram <strong>Cocker<\/strong> um \u00edcone \u2014 e um s\u00edmbolo sexual improv\u00e1vel: ao contr\u00e1rio de muitos colegas do Britpop, sempre teve fasc\u00ednio por personagens femininas, em faixas como <strong>\u201cInside Susan\u201d<\/strong> ou <strong>\u201cUnderwear\u201d<\/strong>. \u201cSempre me dei melhor com mulheres do que com homens, porque tive mais experi\u00eancias nesse conv\u00edvio \u2014 e tudo bem\u201d, diz ele. \u201cJ\u00e1 escrevi m\u00fasicas sob a perspectiva feminina, de forma at\u00e9 presun\u00e7osa&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Uma de suas novas inspira\u00e7\u00f5es em <em><strong>More<\/strong><\/em> \u00e9 um poeta do rock a quem ele nunca deu muita aten\u00e7\u00e3o \u2014 at\u00e9 agora. \u201cComecei a ouvir <strong>Bob Dylan<\/strong> pela primeira vez\u201d, ele conta. \u201cComecei no trem. Foi por uma quest\u00e3o pr\u00e1tica, porque a linha Victoria [do metr\u00f4 de Londres] \u00e9 muito barulhenta. Voc\u00ea s\u00f3 aguenta se andar com os dedos nos ouvidos. Ent\u00e3o pensei: em vez disso, posso ouvir <strong>Bob<\/strong>, com <em><strong>Blood on the Tracks<\/strong><\/em>. Fiquei viciado em <strong>\u2018Tangled Up in Blue\u2019<\/strong>, e depois, qual \u00e9 a pr\u00f3xima? <strong>\u2018Simple Twist of Fate\u2019<\/strong>. Ele conta uma hist\u00f3ria de um jeito t\u00e3o m\u00e1gico\u201d.<\/p>\n<p>Para um f\u00e3 exc\u00eantrico como <strong>Jarvis Cocker<\/strong>, faz sentido que sua fase adolescente de obsess\u00e3o por <strong>Dylan<\/strong> tenha chegado s\u00f3 aos sessenta. &#8220;Comecei a ouvir porque vi ele em Londres, na turn\u00ea <em><strong>Rough and Rowdy Ways<\/strong><\/em>. O palco estava bem escuro, mas eu gostei disso \u2014 parecia que voc\u00ea estava assistindo a uma sess\u00e3o esp\u00edrita, como se eles estivessem tentando fazer contato com esp\u00edritos. Ele estava tocando piano, s\u00f3 encostado nele. Tocou aquela m\u00fasica <strong>\u2018Key West\u2019<\/strong> e foi simplesmente a coisa mais incr\u00edvel \u2014 parecia prestes a desaparecer. Fui procurar saber mais sobre Key West \u2014 \u00e9 quase como uma ilha, n\u00e3o \u00e9? Mas ainda n\u00e3o sei do que aquela m\u00fasica fala. <strong>\u2018Murder Most Foul\u2019<\/strong> \u2014 quando ouvi pela primeira vez, simplesmente n\u00e3o consegui acreditar\u201d.<\/p>\n<p>Para algu\u00e9m que sempre defendeu o \u201clixo pop\u201d com tanto entusiasmo, <strong>Cocker<\/strong> parece surpreendentemente desconectado do r\u00e1dio atual. As ondas do dial est\u00e3o cheias de jovens estrelas que constroem narrativas com um olhar para detalhes banais ao estilo <strong>Jarvis<\/strong> \u2014 de <strong>Chappell<\/strong> [<strong>Roan<\/strong>] a <strong>Billie<\/strong> [<strong>Eilish<\/strong>], passando por <strong>Olivia<\/strong> [<strong>Rodrigo<\/strong>]. Mas, ao ser perguntado sobre qualquer uma delas, ele sorri educadamente e diz: \u201cVou dar uma olhada depois\u201d. S\u00f3 para citar o exemplo mais gritante: <strong>\u201cPink Pony Club\u201d<\/strong> \u00e9 praticamente um sucesso do <strong>Pulp<\/strong> que nunca aconteceu.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tenho nenhum conhecimento sobre pop atual\u201d, ele admite. \u201cEu ouvia o programa de paradas no Reino Unido \u2014 sempre passava aos domingos \u2014 mas acho que n\u00e3o fa\u00e7o isso desde o come\u00e7o do mil\u00eanio. Ent\u00e3o meu retrato do pop \u00e9 bem antiquado. <strong>Taylor Swift<\/strong>? Ouvi porque a filha do <strong>Mark<\/strong> gosta muito \u2014 ele j\u00e1 levou ela para ver a <strong>Taylor<\/strong> algumas vezes. Mas eu mesmo n\u00e3o conhe\u00e7o as m\u00fasicas\u201d.<\/p>\n<p>Ele fica surpreso ao saber que f\u00e3s jovens est\u00e3o descobrindo o <strong>Pulp<\/strong> pelo <em>TikTok<\/em>.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>S\u00e9rio? Nunca nem entrei no <em>TikTok<\/em>. Tentei o <em>Twitter<\/em> uma vez e absolutamente detestei \u2014 sa\u00ed em meia hora. Mas gostei do <em>Instagram<\/em> \u2014 \u00e9 como mandar um cart\u00e3o-postal\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas o timing de <em><strong>More<\/strong><\/em> \u00e9 perfeito \u2014 especialmente nos Estados Unidos, onde o <strong>Pulp<\/strong> \u00e9 muito mais famoso agora do que durante seus anos de atividade.<\/p>\n<p><strong>Cocker<\/strong> est\u00e1 abertamente perplexo com o apelo intergeracional da banda.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>De fato, investi muito da minha vida escrevendo m\u00fasicas\u201d, ele diz. \u201cE \u00e0s vezes minha vida real sofreu por causa disso, porque eu dizia coisas nas m\u00fasicas que n\u00e3o dizia para pessoas com quem me relacionava. Isso me causou problemas. N\u00e3o \u00e9 algo legal de se fazer. Mas a verdade \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o tem muito controle sobre isso. \u00c0s vezes voc\u00ea senta para escrever uma m\u00fasica e nada acontece. \u00c9 horrivelmente frustrante.<br \/>Por isso tentei me aposentar algumas vezes, mas sempre acabo voltando. \u00c9 como um truque de m\u00e1gica, sabe? Voc\u00ea entra em contato com algo que n\u00e3o entende completamente, e quanto mais tenta entender ou controlar, mais isso escapa. Se voc\u00ea tenta agarrar, ele desaparece\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u201cGrownups\u201d<\/strong> \u00e9 uma m\u00fasica que ele passou anos tentando \u201cagarrar\u201d, mas que acabou virando o ponto central de <em><strong>More<\/strong><\/em> \u2014 de tantas maneiras, ele e a m\u00fasica cresceram juntos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu estava tremendo de muletas\u201d, ele canta. \u201cMais morto do que vivo \/ Era o Natal de 1985\u201d.<br \/>\u00c9 um relato autobiogr\u00e1fico de sua juventude desastrosa, quando ele tinha 22 anos.<br \/>\u201cFoi quando sa\u00ed do hospital\u201d, ele relembra.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>Tinha ca\u00eddo de uma janela, e me deram alta no dia anterior ao Natal. Acho que aquilo foi um passo rumo \u00e0 maturidade. Eu tinha sa\u00eddo da escola e estava tentando fazer a banda acontecer, mas n\u00e3o estava funcionando. A\u00ed acabei caindo da janela e tive bastante tempo para ficar deitado e pensar nas coisas. Decidi que ia ter que sair de Sheffield e tentar outra coisa\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Naquele inverno, ele tamb\u00e9m come\u00e7ou o que viria a ser um relacionamento duradouro.<\/p>\n<p>\u201cA noite que descrevo na m\u00fasica, quando fui \u00e0 casa dela pela primeira vez \u2014 foi um momento muito importante pra mim\u201d, ele diz. \u201cFoi estranho porque, na manh\u00e3 seguinte, veio a not\u00edcia da explos\u00e3o do \u00f4nibus espacial [Challenger]. Naquela fase da minha vida, eu costumava interpretar eventos do mundo exterior como press\u00e1gios. Eu era uma crian\u00e7a que pensava: \u2018Quando eu crescer, vou para o espa\u00e7o!\u2019 Mas o fato de a nave ter explodido me fez pensar: \u2018\u00c9 isso. Agora voc\u00ea est\u00e1 num relacionamento e n\u00e3o pode mais ir pro espa\u00e7o\u2019. Pensamentos bem imaturos, enfim\u201d.<\/p>\n<p>Mas aquele <strong>Jarvis<\/strong> de 22 anos passou anos esculpindo essa m\u00fasica, transformando <strong>\u201cGrownups\u201d<\/strong> em uma declara\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p>\u201cA \u00faltima parte que finalizei foi o trecho falado sobre aquele sonho de ir para outro planeta, olhar para tr\u00e1s e ver de onde voc\u00ea veio, mas n\u00e3o conseguir voltar\u201d.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>Foi um sonho que tive h\u00e1 dez anos. Parecia combinar com o clima. \u00c9 a m\u00fasica mais antiga, mas agora tamb\u00e9m \u00e9 a mais longa do disco \u2014 tem mais palavras que qualquer outra. Ent\u00e3o, pelo menos, quando finalmente terminei, deu pra ver que trabalhei bem nela\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para uma carreira marcada por acidentes de sorte e desastres bizarros, <em><strong>More<\/strong><\/em> funciona como um resumo da jornada de <strong>Cocker<\/strong> e seus colegas de banda ao longo dos anos. \u201cFoi tudo bem f\u00e1cil\u201d, ele diz, com um sorriso meio culpado.<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p>Pode parecer que sou pregui\u00e7oso ou algo assim, mas \u00e9 uma coisa que aprendi \u2014 quando as coisas est\u00e3o funcionando, \u00e9 assim que elas fluem. Voc\u00ea precisa estar pronto para receber a mensagem quando ela vem. E se estiver pensando demais, ela simplesmente bate em voc\u00ea e vai embora. Mas se voc\u00ea estiver aberto, ela passa \u2014 e voc\u00ea ajusta um pouco, enquanto ela atravessa voc\u00ea. Mas n\u00e3o \u00e9 como se voc\u00ea tivesse criado aquilo. Algumas m\u00fasicas s\u00e3o antigas, outras s\u00e3o novas, mas tudo estava pronto para acontecer. S\u00f3 poderia ter acontecido agora, depois de tudo o que passamos, e que nem sempre foi muito prazeroso\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 da natureza dele desconfiar da boa sorte, mas est\u00e1 finalmente aprendendo a aceit\u00e1-la. \u201cM\u00fasica \u00e9 pra ser simples\u201d, ele diz. \u201cQuer dizer, a VIDA \u00e9 pra ser simples \u2014 mas nem sempre \u00e9. Ent\u00e3o \u00e9 \u00f3timo quando \u00e9\u201d.<\/p>\n<p><em>Este texto foi originalmente publicado na Rolling Stone EUA, por Rob Sheffield, no dia 23 de maio, e pode ser conferida aqui.<\/em><\/p>\n<p><strong>+++ LEIA MAIS: Pulp anuncia volta da banda com primeiro \u00e1lbum em 24 anos<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++ LEIA MAIS: Charli XCX decreta o fim do \u2018Brat Summer\u2019 e passa o bast\u00e3o<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/e-o-momento-perfeito-para-uma-reuniao-do-pulp\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 um retorno pelo qual os f\u00e3s esperaram durante anos: a volta do Pulp. Trinta anos depois de Jarvis Cockercantar \u201cVamos todos nos encontrar no ano 2000\u201d, a adorada banda do Britpop finalmente est\u00e1 de volta. Mesmo ap\u00f3s as bem-sucedidas turn\u00eas de reuni\u00e3o em 2011 e 2022, ningu\u00e9m ousava sonhar com um novo \u00e1lbum da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":24145,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-24144","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24144"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24144\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24145"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}