{"id":24084,"date":"2025-05-30T16:01:37","date_gmt":"2025-05-30T19:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/trump-ramaphosa-e-a-historia-de-um-pais\/"},"modified":"2025-05-30T16:01:37","modified_gmt":"2025-05-30T19:01:37","slug":"trump-ramaphosa-e-a-historia-de-um-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/trump-ramaphosa-e-a-historia-de-um-pais\/","title":{"rendered":"Trump, Ramaphosa e a hist\u00f3ria de um pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No \u00faltimo dia 21, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu Cyril Ramaphosa na Casa Branca. Durante o encontro, como foi amplamente divulgado pela imprensa, Trump confrontou o mandat\u00e1rio sul-africano sobre o que chamou de \u201cgenoc\u00eddio branco\u201d no pa\u00eds, com refer\u00eancia \u00e0 onda de viol\u00eancia contra fazendeiros brancos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Na ocasi\u00e3o, o americano exibiu ao visitante um v\u00eddeo com discursos e entrevistas de Julius Malema, nos quais o l\u00edder do partido de extrema-esquerda EFF (<em>Economic Freedom Fighters<\/em>) dizia coisas como \u201cA revolu\u00e7\u00e3o exige que em algum momento haja mortes!\u201d. Mostrou tamb\u00e9m cenas de um com\u00edcio em que o ex-presidente Jacob Zuma (2009 \u20132018), outrora co-partid\u00e1rio de Ramaphosa, entoava uma can\u00e7\u00e3o com os versos: \u201cVoc\u00ea \u00e9 um b\u00f4er [termo que designa os fazendeiros brancos na \u00c1frica do Sul, descendentes de colonizadores holandeses], n\u00f3s vamos atirar neles e voc\u00eas v\u00e3o fugir. Atire no b\u00f4er\u201d.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Ao ver a not\u00edcia, e pensar no cen\u00e1rio sul-africano contempor\u00e2neo, lembrei-me imediatamente de um livro sobre a \u00c1frica do Sul que me marcou profundamente. Trata-se de <em>Cora\u00e7\u00e3o Traidor<\/em> (<em>My Traitor\u2019s Heart<\/em>), do jornalista e compositor sul-africano Rian Malan. Descendente de uma influente fam\u00edlia sul-africana de origem b\u00f4er \u2013 cujo antepassado mais famoso \u00e9 ningu\u00e9m menos que Daniel Fran\u00e7ois Malan, um dos arquitetos do apartheid \u2013, Malan foi um dos tantos jovens brancos sul-africanos que militaram contra o infame regime segregacionista. Da\u00ed que, em <em>Cora\u00e7\u00e3o Traidor<\/em>, ele nos conduz por uma jornada pessoal e investigativa das contradi\u00e7\u00f5es brutais da \u00c1frica do Sul dos anos 1980, um pa\u00eds dilacerado pelo \u00f3dio racial.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Mesclando elementos de jornalismo liter\u00e1rio, mem\u00f3ria pessoal e cr\u00edtica social \u2013 num estilo que remete ao <em>new journalism<\/em> de Truman Capote \u2013, o livroconsiste numa investiga\u00e7\u00e3o densa e angustiada sobre a culpa e a identidade branca no contexto do colapso pol\u00edtico do apartheid. No caso de Rian Malan, cuja forma\u00e7\u00e3o intelectual foi moldada por influ\u00eancias progressistas e modismos culturais oriundos da Europa e dos Estados Unidos, a no\u00e7\u00e3o de culpa racial \u2013 intensificada pelo passado familiar vinculado ao nacionalismo b\u00f4er \u2013 adquire uma dimens\u00e3o visceral. Sua op\u00e7\u00e3o por uma estrutura narrativa fragment\u00e1ria, em que se alternam confiss\u00f5es \u00edntimas, coment\u00e1rios pol\u00edticos e reportagens sobre crimes de brutalidade extrema, expressa o desejo de dar forma liter\u00e1ria a uma experi\u00eancia existencial marcada pela ambival\u00eancia e pela inquieta\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A trajet\u00f3ria de Malan \u2013 da juventude rebelde que rejeita o nacionalismo afric\u00e2ner e foge do servi\u00e7o militar, passando por um ex\u00edlio formativo nos Estados Unidos, at\u00e9 seu retorno como jornalista investigativo ao pa\u00eds natal \u2013 confere profundidade ao seu olhar sobre as contradi\u00e7\u00f5es da \u00c1frica do Sul. \u00c0 medida que relata epis\u00f3dios de viol\u00eancia racial, o autor busca compreender os afetos contradit\u00f3rios que o atravessam: medo, raiva, empatia, ressentimento e a necessidade de expia\u00e7\u00e3o. A pergunta que se imp\u00f5e como leitmotiv \u00e9 perturbadora: \u201c\u00c9 poss\u00edvel manter-se inocente quando se herda o privil\u00e9gio constru\u00eddo sobre a espolia\u00e7\u00e3o alheia?\u201d Esse dilema, \u00e9tico e ontol\u00f3gico, percorre toda a obra como uma ferida aberta.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">O \u201ctraidor\u201d do t\u00edtulo n\u00e3o remete apenas a um rompimento pol\u00edtico, mas a uma cis\u00e3o interna: Malan percebe-se dividido entre a lealdade cultural \u00e0 sua origem b\u00f4er e a solidariedade moral \u00e0s v\u00edtimas do regime que lhe proporcionou privil\u00e9gios. A trai\u00e7\u00e3o, nesse caso, \u00e9 dupla: contra os valores herdados e contra a pureza ideol\u00f3gica da milit\u00e2ncia antiapartheid, da qual tamb\u00e9m se sente alienado. O livro \u00e9, nesse sentido, uma cr\u00f4nica do desenraizamento \u2013 pol\u00edtico, identit\u00e1rio e at\u00e9 metaf\u00edsico \u2013, e da dificuldade de conciliar a heran\u00e7a com a consci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A viol\u00eancia, tema recorrente nas p\u00e1ginas do livro, n\u00e3o \u00e9 tratada apenas como um fato sociol\u00f3gico ou um dado estat\u00edstico. Ela aparece como uma for\u00e7a quase mitol\u00f3gica, uma esp\u00e9cie de maldi\u00e7\u00e3o que atravessa a hist\u00f3ria africana, evocando o imagin\u00e1rio sombrio de Joseph Conrad. Os crimes que Malan descreve com uma crueza perturbadora s\u00e3o sintomas de uma sociedade em ru\u00ednas, onde a conviv\u00eancia cotidiana foi sequestrada pelo medo e pela desconfian\u00e7a. Ainda assim, o autor se afasta das leituras simplistas que reduziriam o conflito a uma oposi\u00e7\u00e3o manique\u00edsta entre v\u00edtimas negras e algozes brancos. A \u201cloucura sul-africana\u201d que ele diagnostica atravessa toda a sociedade: \u00e9 compartilhada, reproduzida e sofrida por diferentes grupos \u00e9tnicos e classes sociais.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Ao voltar ao seu pa\u00eds depois de anos nos Estados Unidos, Malan se depara com uma na\u00e7\u00e3o em convuls\u00e3o: a estrutura pol\u00edtica do apartheid agoniza, mas a viol\u00eancia racial n\u00e3o apenas persiste como se intensifica. O olhar do jornalista amadurecido j\u00e1 n\u00e3o encontra as certezas que o animavam na juventude. Ao mergulhar na investiga\u00e7\u00e3o de assassinatos racialmente motivados, ele se confronta com uma realidade mais intrincada do que os esquemas ideol\u00f3gicos permitiriam reconhecer. H\u00e1 crimes de todas as ordens: negros contra brancos, brancos contra negros, e tamb\u00e9m entre membros das mesmas comunidades. A viol\u00eancia, aqui, assume contornos quase metaf\u00edsicos, como se brotasse de uma fonte ancestral, profunda e inescap\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Esse car\u00e1ter tr\u00e1gico se expressa de maneira exemplar na hist\u00f3ria do casal Neil e Creina Alcock, relatada na \u00faltima parte do livro. Brancos sul-africanos, eles optaram por abandonar a vida urbana para viver entre os zulus pobres da regi\u00e3o de Msinga, uma das \u00e1reas mais miser\u00e1veis e violentas do pa\u00eds \u2013 o \u201ccora\u00e7\u00e3o das trevas\u201d sul-africano. Guiados por ideais humanistas e por um projeto concreto de desenvolvimento rural, criaram uma ONG voltada \u00e0 autossufici\u00eancia alimentar das comunidades locais. Malan os retrata como figuras de expia\u00e7\u00e3o, que acreditavam no poder do trabalho, na a\u00e7\u00e3o generosa destinada a redimir a hist\u00f3ria de privil\u00e9gio racial a que pertenciam. Neil, em particular, \u00e9-nos apresentado como um homem consciente da injusti\u00e7a estrutural que o beneficiava, mas que buscava transcender por meio do engajamento pr\u00e1tico e da conviv\u00eancia respeitosa com os irm\u00e3os negros.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Contudo, como Malan n\u00e3o se cansa de lembrar, a boa vontade n\u00e3o anula as estruturas: \u201cNeil vivia como se o apartheid n\u00e3o existisse. O problema \u00e9 que ele existia\u201d. O desfecho tr\u00e1gico do casal \u2013 a vida de Neil \u00e9 tirada pelos mesmos zulus aos quais a dedicou \u2013 encapsula a impot\u00eancia do idealismo diante da dureza da realidade sul-africana. Sua morte simboliza o limite tr\u00e1gico da tentativa de habitar a \u00c1frica como branco sem repetir a l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o. O sangue que n\u00e3o estava em suas m\u00e3os, como sublinha Malan, n\u00e3o o livrou de ser percebido como parte da estrutura opressiva que sua morte expiat\u00f3ria deveria reparar.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Nesse epis\u00f3dio, a \u201cm\u00e1 consci\u00eancia\u201d branca n\u00e3o se apresenta apenas como um sentimento de culpa retrospectiva, mas como a percep\u00e7\u00e3o de que, mesmo quando h\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a, h\u00e1 tamb\u00e9m for\u00e7as sociais, hist\u00f3ricas e simb\u00f3licas que impedem a reconcilia\u00e7\u00e3o. A loucura sul-africana, como a descreve Malan, \u00e9 a experi\u00eancia de uma sociedade que perdeu as media\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para transformar o passado em futuro. Ao evitar moralismos f\u00e1ceis e encarar com franqueza o horror, seu livro oferece uma vis\u00e3o rara: a de um homem que, em vez de se abrigar no conforto da autocomplac\u00eancia ou do denuncismo histri\u00f4nico \u00e0 moda woke, tenta, com todas as contradi\u00e7\u00f5es que isso acarreta, pensar a trag\u00e9dia de sua terra a partir de dentro \u2013 e com o cora\u00e7\u00e3o dividido. Nas emblem\u00e1ticas palavras do autor: \u201cNo fim, todos os homens traem a sua tribo\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/flavio-gordon\/trump-ramaphosa-historia-de-um-pais-submerso-ressentimento-racial\/\">Revista Oeste<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 21, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu Cyril Ramaphosa na Casa Branca. 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