{"id":23867,"date":"2025-05-29T11:30:41","date_gmt":"2025-05-29T14:30:41","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/o-dever-de-toda-boa-aula-ser-chata-e-entediante\/"},"modified":"2025-05-29T11:30:41","modified_gmt":"2025-05-29T14:30:41","slug":"o-dever-de-toda-boa-aula-ser-chata-e-entediante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/o-dever-de-toda-boa-aula-ser-chata-e-entediante\/","title":{"rendered":"O dever de toda boa aula: ser chata e entediante"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Sou professor de ensino m\u00e9dio h\u00e1 mais de vinte anos. Tempo suficiente para ter assistido \u00e0 chegada do celular na sala de aula. Primeiro como novidade, depois como ru\u00eddo, hoje como v\u00edcio. Antes dos aplicativos, antes dos fones, antes da hiperconex\u00e3o, havia uma presen\u00e7a silenciosa que marcava o tempo da escola: o t\u00e9dio.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Sim, havia t\u00e9dio. E o t\u00e9dio era formativo. Adolescente precisa de t\u00e9dio. T\u00e9dio \u00e9 o intervalo entre o est\u00edmulo e o sentido. \u00c9 no t\u00e9dio que o olhar se perde no teto, que se desenha no canto do caderno, que o pensamento divaga at\u00e9 trope\u00e7ar numa d\u00favida, numa pergunta. Era no t\u00e9dio que se descobria que aprender n\u00e3o \u00e9 prazer imediato. Compreender \u00e9 fric\u00e7\u00e3o entre o que se sabe e o que n\u00e3o se entende. Ou seja, esfor\u00e7o. T\u00e3o chato quanto cansativo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Na semana passada, participei do <em>Fronteiras do Pensamento<\/em>, em S\u00e3o Paulo. Fui ouvir Jonathan Haidt, psic\u00f3logo social americano e autor de <em>A Gera\u00e7\u00e3o Ansiosa: como a inf\u00e2ncia hiperconectada est\u00e1 causando uma epidemia de transtornos mentais<\/em>. Sua tese \u00e9 simples, mas devastadora: a inf\u00e2ncia foi radicalmente reconfigurada pela cultura digital. Deixou de ser tempo de descobertas no mundo f\u00edsico para se tornar um est\u00e1gio de exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua ao mundo virtual.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Haidt chama esse processo de \u201cA Grande Reconfigura\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 a ascens\u00e3o da inf\u00e2ncia baseada no celular. A partir de 2010, a curva de ansiedade e depress\u00e3o entre adolescentes \u2014 especialmente meninas \u2014 dispara. Segundo ele, o problema est\u00e1 no ambiente em que os jovens passaram a crescer: um mundo real superprotegido, onde nada pode dar errado, e um mundo digital sem prote\u00e7\u00e3o alguma, onde tudo pode dar errado o tempo inteiro. Haidt apresenta dados s\u00f3lidos que mostram que n\u00e3o se trata de mera correla\u00e7\u00e3o. Ele demonstra que a explos\u00e3o dos transtornos mentais coincide com mudan\u00e7as concretas no modo de vida digital e que os piores indicadores aparecem justamente nas popula\u00e7\u00f5es com maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s redes. H\u00e1 um nexo causal e o argumento dele \u00e9 muito convincente.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">De qualquer forma, a inf\u00e2ncia baseada no celular transformou as rela\u00e7\u00f5es sociais. Os pais restringiram a liberdade na rua, mas abriram m\u00e3o de qualquer limite nas telas. A crian\u00e7a perdeu o corpo e ganhou um perfil. Perdeu a experi\u00eancia direta da vida social e ganhou o feed. E, nesse processo \u2014 e aqui me intrometo \u2014 perdeu tamb\u00e9m o direito de se entediar.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A l\u00f3gica da hiperconectividade n\u00e3o tolera sil\u00eancio, nem demora, nem vazio. Cada segundo sem est\u00edmulo \u00e9 tratado como falha. A escola, ent\u00e3o, passou a ser medida por esse padr\u00e3o. Foi assim que a ideia da \u201caula agrad\u00e1vel\u201d se imp\u00f4s. Lembro de uma m\u00e3e me dizendo: \u201cProfessor, minha filha precisa de aulas mais divertidas, mais leves.\u201d Ora, isso \u00e9 um sintoma. Um erro de diagn\u00f3stico sobre o que \u00e9, afinal, uma sala de aula.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Com todo respeito a quem pensa o contr\u00e1rio, aula n\u00e3o \u00e9 entretenimento. Saber n\u00e3o \u00e9 algoritmo. A inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem de agradar, mas de provocar. De ferir suavemente a intelig\u00eancia. De deixar uma pergunta corroendo em sil\u00eancio. Aula boa \u00e9 a que exige do aluno aquilo que ele ainda n\u00e3o sabe que tem: aten\u00e7\u00e3o. E isso, em outras palavras, exige esfor\u00e7o \u2014 e esfor\u00e7o, sejamos honestos, cansa.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">De forma categ\u00f3rica, Haidt prop\u00f5e o m\u00ednimo: tirar os celulares das escolas. N\u00e3o por nostalgia ou moralismo, mas por uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica. Ele elogiou, inclusive, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira sobre o tema \u2014 que, embora pouco aplicada, reconhece o problema com clareza. Aqui, mantenho alguma dist\u00e2ncia. N\u00e3o creio que a proibi\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, resolva o desequil\u00edbrio. Mas reconhe\u00e7o o ponto: onde o celular sai, o sono melhora, o rendimento aumenta, a ansiedade recua. Onde h\u00e1 menos tela, h\u00e1 mais gente. E mais t\u00e9dio.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Por isso insisto. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 ainda mais fundamental: precisamos devolver o t\u00e9dio \u00e0 escola. O t\u00e9dio \u00e9 o que antecede o pensamento. \u00c9 ele que prepara o terreno da curiosidade. O fil\u00f3sofo Martin Heidegger, em <em>Os Problemas Fundamentais da Metaf\u00edsica<\/em>, dedicou longas p\u00e1ginas ao t\u00e9dio como experi\u00eancia decisiva na busca de sentido. Quando nada nos distrai, algo mais essencial pode se mostrar. O t\u00e9dio inquieta a alma. Sem ele, tudo vira est\u00edmulo passageiro \u2014 e nada permanece.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A escola tem o dever de frustrar. De n\u00e3o se adequar ao ritmo da tela. De exigir espera. De ensinar que o pensamento precisa de tempo, de cansa\u00e7o, de esfor\u00e7o. Nenhuma ideia se fixa sem lentid\u00e3o. Ensinar, afinal, \u00e9 desacelerar o mundo. \u00c9 repetir. \u00c9 sustentar o sil\u00eancio at\u00e9 que a palavra venha. O professor n\u00e3o pode ser um animador de plateia. Ele \u00e9 a pausa inquietante entre o ru\u00eddo e o sentido. O intervalo entre o mundo e a alegria genu\u00edna de aprender. E o sentido do conhecimento s\u00f3 aparece quando aceitamos o vazio que o precede.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Ent\u00e3o, mais do que nunca, antes de resistir ao celular, \u00e9 preciso resistir \u00e0 pedagogia do agrado. Resistir a essa avers\u00e3o patol\u00f3gica \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o. E essa resist\u00eancia come\u00e7a com algo simples: devolver \u00e0 escola o direito de ser chata, lenta, silenciosa \u2014 e, por isso mesmo, fecunda.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/francisco-razzo\/dever-toda-boa-aula-chata-entediante\/\">Revista Oeste<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou professor de ensino m\u00e9dio h\u00e1 mais de vinte anos. Tempo suficiente para ter assistido \u00e0 chegada do celular na sala de aula. 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