{"id":23079,"date":"2025-05-25T20:21:33","date_gmt":"2025-05-25T23:21:33","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/os-13-melhores-filmes-de-cannes-2025-segundo-rolling-stone\/"},"modified":"2025-05-25T20:21:33","modified_gmt":"2025-05-25T23:21:33","slug":"os-13-melhores-filmes-de-cannes-2025-segundo-rolling-stone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/os-13-melhores-filmes-de-cannes-2025-segundo-rolling-stone\/","title":{"rendered":"Os 13 melhores filmes de Cannes 2025, segundo Rolling Stone"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>\u201cEste \u00e9 o festival de <strong>Cannes<\/strong> mais pol\u00edtico desde 1968?\u201d, perguntou a manchete de um artigo do <em>The Hollywood Reporter<\/em>, pouco antes da metade do festival de cinema de 2025. \u00c9 uma pergunta leg\u00edtima. Os historiadores podem lembrar que 1968 foi o ano em que protestos sacudiram a Croisette, cineastas ocuparam o Palais, quatro jurados renunciaram, e a competi\u00e7\u00e3o oficial acabou sendo encerrada pelos organizadores. Nada dessa magnitude aconteceu no <strong>Cannes<\/strong> deste ano, que terminou ontem \u2014 embora tenha havido um blecaute de cinco horas logo antes da cerim\u00f4nia de encerramento, que, segundo sugeriram os meios de comunica\u00e7\u00e3o locais, talvez n\u00e3o tenha sido exatamente acidental.<\/p>\n<p>Mas era poss\u00edvel sentir uma certa instabilidade e inquieta\u00e7\u00e3o no ar, intensificadas pela amea\u00e7a de um certo presidente autorit\u00e1rio de impor \u201ctarifas de 100%\u201d sobre filmes produzidos fora dos Estados Unidos. Some-se a isso <strong>Robert De Niro<\/strong> provocando o presidente estadunidense nominalmente durante seu discurso ao receber a <strong>Palma de Ouro<\/strong> honor\u00e1ria na cerim\u00f4nia de abertura, e quase uma d\u00fazia de filmes exibidos nas principais mostras do festival (e em eventos paralelos) que atacavam diretamente regimes fascistas passados e presentes, conflitos pol\u00edticos e a sensa\u00e7\u00e3o geral de que estamos todos presos a uma rolagem infinita de m\u00e1s not\u00edcias na vida real. Assim, era dif\u00edcil n\u00e3o se perguntar se a resposta \u00e0quela pergunta seria, para citar o t\u00edtulo de um dos filmes mais incendi\u00e1rios da edi\u00e7\u00e3o de 2025, \u201cSIM!\u201d.<\/p>\n<p>O cinema continua sendo um passaporte, uma m\u00e1quina de empatia, uma maneira de reduzir as dist\u00e2ncias entre culturas e regi\u00f5es, uma forma de permitir que voc\u00ea caminhe quil\u00f4metros nos sapatos de outras pessoas, repetidas vezes. Isso ficou evidente para n\u00f3s que est\u00e1vamos presos na bolha da cinefilia que <strong>Cannes<\/strong> oferece \u2014 especialmente porque essa bolha esteve longe de ser imperme\u00e1vel a tudo o que acontece no resto do mundo. E embora a d\u00fazia de filmes que, na nossa opini\u00e3o, foram os melhores que este festival apresentou n\u00e3o fossem todos explicitamente pol\u00edticos, todos serviram para sublinhar o fato de que o cinema continua sendo, ao mesmo tempo, um reflexo urgente e uma necess\u00e1ria refra\u00e7\u00e3o do mundo ao nosso redor. Abaixo, veja as escolhas da <em><strong>Rolling Stone<\/strong><\/em> para os destaques do evento em 2025.<\/p>\n<p>(E algumas men\u00e7\u00f5es honrosas para: <em><strong>The Chronology of Water<\/strong><\/em>, <em><strong>Heads or Tails<\/strong><\/em>, <em><strong>The Mastermind<\/strong><\/em>, <em><strong>The Plague<\/strong><\/em>, <em><strong>The Sound of Falling<\/strong><\/em>, <em><strong>Two Prosecutors<\/strong><\/em> e <em><strong>Urchin<\/strong><\/em>.)<\/p>\n<h2><em>Adam\u2019s Sake<\/em><\/h2>\n<p>O filme de abertura da Semaine de la Critique \u2014 um festival paralelo que, assim como a Quinzena dos Realizadores, ocorre simultaneamente a Cannes, mas que tamb\u00e9m foi, de certa forma, incorporado ao evento principal; \u00e9 complicado \u2014, o procedural m\u00e9dico da cineasta belga Laura Wandel parte de uma trama que poderia muito bem ter sido um subenredo de Plant\u00e3o M\u00e9dico, envolvendo uma m\u00e9dica (L\u00e9a Drucker) e uma m\u00e3e solo (Anamaria Vartolomei, de O Acontecimento), que entram em conflito pelo tratamento do filho desta (Jules Desart) ap\u00f3s uma decis\u00e3o judicial. A partir disso, o filme analisa como protocolos institucionais podem tanto proteger quanto causar danos irrepar\u00e1veis. Assim como em seu filme anterior, Recreio (2021), este estudo de personagens duplo sabe como abordar uma quest\u00e3o social delicada e esmiu\u00e7\u00e1-la de forma \u00edntima, sem soar dogm\u00e1tico. E tamb\u00e9m \u00e9 a vitrine perfeita para ambas as atrizes, especialmente Drucker; somada \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o em Dossier 137, filme da competi\u00e7\u00e3o oficial, o festival deste ano refor\u00e7a a ideia de que a vencedora do C\u00e9sar \u00e9 uma das melhores atrizes francesas em atividade.<\/p>\n<h2><em>Eddington<\/em><\/h2>\n<p>O festival de 2025 certamente teve sua cota de &#8220;Cannes-trov\u00e9rsias&#8221; (se nunca mais precisarmos participar de outra discuss\u00e3o sobre o desastre chamado Alpha, de Julia Ducournau, j\u00e1 ser\u00e1 tarde demais). O del\u00edrio febril de Ari Aster \u2014 uma esp\u00e9cie de editorial cinematogr\u00e1fico sobre a carnificina americana do momento \u2014 teve, no entanto, a honra de ser o filme mais divisivo desta edi\u00e7\u00e3o. O que, francamente, encaixa-se na vis\u00e3o paranoica de Aster sobre uma na\u00e7\u00e3o fatalmente em conflito consigo mesma: uma macro-narrativa condensada no confronto entre um xerife (Joaquin Phoenix) e um prefeito (Pedro Pascal) em uma pequena cidade fict\u00edcia no Novo M\u00e9xico. Aqui, todo progressismo \u00e9 perform\u00e1tico, todos os direitistas &#8220;despertos&#8221; est\u00e3o a um bon\u00e9 vermelho de dist\u00e2ncia de virar MAGA, todas as experi\u00eancias pessoais dolorosas s\u00e3o pass\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e toda a misantropia do discurso &#8220;dos dois lados&#8221; est\u00e1 elevada ao m\u00e1ximo. O que come\u00e7a como uma par\u00f3dia escrachada logo se revela um thriller conspirat\u00f3rio paranoico, estranhamente sintonizado com as m\u00e1s vibra\u00e7\u00f5es do colapso do centro pol\u00edtico do pa\u00eds. Ainda estamos processando esse excesso todo. Mal podemos esperar para rever.<\/p>\n<h2><em>Honey Don&#8217;t!<\/em><\/h2>\n<p>Uma adi\u00e7\u00e3o de \u00faltima hora \u00e0 Sele\u00e7\u00e3o da Meia-Noite do festival (um lugar bem mais adequado do que as sess\u00f5es especiais ou a competi\u00e7\u00e3o, sejamos honestos), o segundo filme da autoproclamada \u201ctrilogia l\u00e9sbica de filmes B\u201d de Ethan Coen e Tricia Cooke gira em torno de Honey O\u2019Donoghue (Margaret Qualley) \u2014 uma detetive sagaz e espirituosa que tenta descobrir quem deixou um cad\u00e1ver carbonizado no deserto do Novo M\u00e9xico. O caso logo se revela tudo menos simples, envolvendo um popular pastor local (Chris Evans), mafiosos, adolescentes desaparecidas e uma misteriosa femme fatale francesa (Lera Abova).<\/p>\n<p>Diferente do desastre automobil\u00edstico que foi Drive-Away Dolls (2024), esta tentativa ainda um tanto bagun\u00e7ada de misturar o caos t\u00edpico dos Coen com erotismo s\u00e1fico resulta em um coquetel muito mais satisfat\u00f3rio; provavelmente voc\u00ea ainda estar\u00e1 comentando a cena de sexo entre Honey e a policial durona vivida por Aubrey Plaza por um bom tempo. O que realmente garante seu lugar aqui \u00e9 a forma como Qualley transforma essa investigadora particular numa atualiza\u00e7\u00e3o de um cl\u00e1ssico do noir, equilibrando o humor screwball e a dureza do estilo hardboiled. \u00c9 um dos melhores trabalhos da carreira dela, e assistir\u00edamos com prazer a toda uma trilogia s\u00f3 dedicada a essa detetive sensual e implac\u00e1vel.<\/p>\n<h2><em>It Was Just an Accident<\/em><\/h2>\n<p>Mesmo que a extraordin\u00e1ria par\u00e1bola de vingan\u00e7a de Jafar Panahi n\u00e3o tivesse vencido a Palma de Ouro (e feito dele um dos pouqu\u00edssimos cineastas a levar os principais pr\u00eamios de Berlim, Veneza e Cannes), ainda assim seria considerada uma vit\u00f3ria monumental: foi a primeira vez em mais de 20 anos que o politicamente perseguido Panahi pisou no tapete vermelho do festival. S\u00e9rio, parecia que Mick Jagger tinha entrado no recinto quando o cineasta iraniano apareceu na sala Lumi\u00e8re para a estreia de seu filme.<\/p>\n<p>A premissa geral \u00e9 simples: um homem (Ebrahim Azizi) tem sua viagem em fam\u00edlia interrompida quando o carro quebra. Um mec\u00e2nico (Vahid Mobasseri) acredita reconhec\u00ea-lo como a pessoa que o torturou durante anos na pris\u00e3o. Ele sequestra o viajante e, em seguida, re\u00fane v\u00e1rios outros ex-presos para confirmar se ele \u00e9 de fato o culpado. O filme alterna entre um thriller de tirar o f\u00f4lego, um road movie el\u00edptico e uma esp\u00e9cie de farsa de bastidores, s\u00f3 que ao inv\u00e9s de girar em torno de uma montagem teatral, envolve um acerto de contas. Cada momento atesta o trabalho de um mestre, culminando numa cena final sublime e devastadora. A vit\u00f3ria foi mais que merecida.<\/p>\n<h2><em>My Father\u2019s Shadow<\/em><\/h2>\n<p>Ambientado na Nig\u00e9ria de 1993, o drama de Akinola Davies Jr. acompanha dois irm\u00e3os pr\u00e9-adolescentes (Godwin Egbo e Chibuike Marvellous Egbo) que fazem uma rara viagem da zona rural at\u00e9 Lagos com o pai (Sope Dirisu), enquanto ele tenta receber sal\u00e1rios atrasados. Ao longo de um dia, eles passam a conhecer o pai de uma maneira que lhes abre os olhos sobre suas longas aus\u00eancias de casa. No entanto, a turbul\u00eancia em torno da elei\u00e7\u00e3o presidencial de MKO Abiola est\u00e1 prestes a explodir.<\/p>\n<p>Parcialmente um filme de mem\u00f3ria \u2014 mesmo que voc\u00ea n\u00e3o soubesse que o diretor escreveu o roteiro com o irm\u00e3o, ou que um dos meninos compartilha seu primeiro nome, ele soa dolorosamente pessoal \u2014 e parcialmente um daqueles filmes que retratam grandes convuls\u00f5es hist\u00f3ricas atrav\u00e9s do olhar das crian\u00e7as, esta \u00e9 uma daquelas descobertas que lembram por que a se\u00e7\u00e3o Un Certain Regard, dedicada a novos cineastas, \u00e9 uma parte t\u00e3o vital do festival.<\/p>\n<h2><em>Orwell: 2+2=5<\/em><\/h2>\n<p>Raoul Peck retorna ao festival com um olhar sobre a transforma\u00e7\u00e3o de George Orwell, de uma pe\u00e7a na engrenagem colonialista brit\u00e2nica (ele serviu na for\u00e7a policial da Birm\u00e2nia nos anos 1920) at\u00e9 se tornar um cr\u00edtico pol\u00edtico, ensa\u00edsta e autor mundialmente famoso de A Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos e 1984. Se o cineasta tivesse apenas entregue um document\u00e1rio sobre a radicaliza\u00e7\u00e3o do escritor e seus alertas sobre poder, corrup\u00e7\u00e3o e mentiras, isso j\u00e1 seria um filme essencial. Mas ele vai v\u00e1rios passos al\u00e9m, emprestando o design expansivo de Extermine Todos os Brutos (2021) e conectando os pontos entre esses dois romances dist\u00f3picos, os regimes totalit\u00e1rios do s\u00e9culo XX e as formas como a hist\u00f3ria tende a se repetir. Como, por exemplo, na Am\u00e9rica contempor\u00e2nea. \u00c9 uma verdadeira enxurrada de informa\u00e7\u00f5es &#8220;duplip\u00e9ssimas&#8221; sobre como o fascismo se instala insidiosamente, colapsando a dist\u00e2ncia entre o ontem e o hoje de um modo que chega a ser quase sufocante. Voc\u00ea n\u00e3o chamaria essa vis\u00e3o de \u201cboa\u201d. Mas reconheceria este guia sombrio como absolutamente vital neste momento espec\u00edfico da hist\u00f3ria.<\/p>\n<h2><em>Nouvelle Vague<\/em><\/h2>\n<p>Qualquer um poderia, tecnicamente, criar uma reconstitui\u00e7\u00e3o dos bastidores da realiza\u00e7\u00e3o de Acossado, a obra-prima que marcou a estreia de Jean-Luc Godard. S\u00f3 Richard Linklater poderia transform\u00e1-la em um glorioso &#8220;filme de camaradagem&#8221;, no qual voc\u00ea embarca como copiloto ao lado do cr\u00edtico-de-cinema-que-virou-cineasta-de-\u00f3culos-escuros, enquanto ele e seu grupo de outsiders cin\u00e9filos fazem hist\u00f3ria, 24 quadros por segundo. A maneira como Linklater identifica todo mundo, desde os lend\u00e1rios nomes da Cahiers du Cin\u00e9ma dos anos 1960 (Chabrol, Rivette, Truffaut, Rohmer) at\u00e9 personagens mais obscuros, e depois re\u00fane todos esses jogadores, faz parecer que ele est\u00e1 montando os Vingadores para o p\u00fablico hardcore do Letterboxd \u2014 aqui est\u00e3o todos os seus super-her\u00f3is favoritos da Nouvelle Vague, reunidos para uma grande aventura coletiva.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o de Guillaume Marbeck como Godard, um enfant terrible que vive citando frases de efeito, \u00e9 impag\u00e1vel; Zoey Deutch, narrando a convers\u00e3o de Jean Seberg de c\u00e9tica a crente fervorosa, \u00e9 sublime; Aubry Dullin faz de Jean-Paul Belmondo um grande e bobo sorriso em forma de tributo. (Nosso voto de MVP: Matthieu Penchinat e sua interpreta\u00e7\u00e3o c\u00f4mica do diretor de fotografia de Acossado, Raoul Coutard.) Pura felicidade.<\/p>\n<h2><em>O Esquema Fen\u00edcio<\/em><\/h2>\n<p>Wes Anderson marca um grande acerto com esta mistura de thriller de espionagem corporativa, com\u00e9dia pastel\u00e3o e drama familiar pai-e-filha, centrado em Anatole \u201cZsa Zsa\u201d Korda (Benicio Del Toro), um magnata internacional de neg\u00f3cios cercado de mist\u00e9rio. Ele tenta garantir que seu projeto dos sonhos \u2014 um sistema multinacional de transporte \u2014 se torne realidade antes que rivais o assassinem; se tamb\u00e9m conseguir se reconciliar com sua filha distante (Mia Threapleton), que n\u00e3o quer saber do pai e sonha em se tornar freira, ser\u00e1 um b\u00f4nus.<\/p>\n<p>Est\u00e3o aqui todas as marcas registradas de um projeto de Anderson, desde o elenco estelar at\u00e9 a composi\u00e7\u00e3o meticulosa das imagens que o tornaram um \u00eddolo dos cin\u00e9filos. Mas este novo filme encontra uma coes\u00e3o genuinamente satisfat\u00f3ria que v\u00e1rias de suas obras recentes n\u00e3o tiveram. E nos brinda com uma verdadeira revela\u00e7\u00e3o em Threapleton, cujas rea\u00e7\u00f5es impass\u00edveis, timing c\u00f4mico e qu\u00edmica com Del Toro fazem com que pare\u00e7a haver um cora\u00e7\u00e3o pulsando sob toda a est\u00e9tica.<\/p>\n<h2><em>O Agente Secreto<\/em><\/h2>\n<p>Ambientado no Brasil por volta de 1977 \u2014 \u201cum tempo de muita trapassa\u201d \u2014, o retrato de Kleber Mendon\u00e7a Filho de um fugitivo (Wagner Moura, de Narcos, que ganhou o pr\u00eamio de Melhor Ator) parece, inicialmente, preparar o terreno para um thriller pol\u00edtico paranoico. Logo, por\u00e9m, adota uma abordagem de &#8220;pia de cozinha&#8221; que incorpora de tudo: desde esquetes de terror grotesco (cuidado com aquela perna peluda e decepada que mata!) at\u00e9 reflex\u00f5es sobre a alegria de lembrar dos velhos cinemas de bairro.<\/p>\n<p>D\u00e1 para perceber que este \u00e9 o mesmo cineasta que fez o drama incisivo e centrado nos personagens Aquarius (2016) e co-dirigiu a pepita de cinema de explora\u00e7\u00e3o moderno Bacurau (2019), al\u00e9m de ser o autor da carta de amor eleg\u00edaca ao cinema brasileiro Retratos Fantasmas (2023). Ainda assim, o escopo e a ambi\u00e7\u00e3o desta longa pe\u00e7a de \u00e9poca parecem algo novo para ele, e uma observa\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica na metade do filme logo se transforma numa revela\u00e7\u00e3o sobre o que Filho est\u00e1, na verdade, perseguindo o tempo todo: a passagem do tempo e como ela nunca cura completamente nenhuma ferida.<\/p>\n<h2><em>Sentimental Value<\/em><\/h2>\n<p>A escolha mais pr\u00f3xima de um consenso como melhor filme do festival \u2014 dava para praticamente ouvir os gritos de alegria do outro lado do Atl\u00e2ntico quando venceu o Grand Prix \u2014, o drama familiar de Joachim Trier mant\u00e9m sua sequ\u00eancia de sucessos ap\u00f3s o altamente elogiado A Pior Pessoa do Mundo (2021), que redefiniu sua trajet\u00f3ria criativa. E tamb\u00e9m lembrou a muitos de n\u00f3s por que nos apaixonamos pelo trabalho do cineasta noruegu\u00eas l\u00e1 no come\u00e7o, com seu impactante longa de estreia, Come\u00e7ar de Novo (2006). Mais uma vez trabalhando com seu roteirista de longa data Eskil Vogt e com sua estrela de A Pior Pessoa do Mundo, Renate Reinsve, Trier constr\u00f3i cuidadosamente uma par\u00e1bola moral em torno de um diretor de cinema outrora proeminente (Stellan Skarsg\u00e5rd) que espera fazer um retorno com um novo projeto. Ele oferece o papel, baseado em sua filha, para a pr\u00f3pria filha \u2014 uma atriz de teatro ansiosa (Reinsve), que guarda m\u00e1goas do pai. Depois decide escalar uma estrela de cinema americana (Elle Fanning) no lugar, e filmar tudo na verdadeira casa da fam\u00edlia. Fanning usou uma camiseta \u201cJoachim Trier Summer\u201d durante a sess\u00e3o de fotos do filme. Esse ver\u00e3o n\u00e3o pode chegar r\u00e1pido o bastante.<\/p>\n<h2><em>Sirat<\/em><\/h2>\n<p>Uma das primeiras sensa\u00e7\u00f5es arrebatadoras do festival, o thriller \u00e9pico e alucinat\u00f3rio de Oliver Laxe coloca um pai angustiado (Sergi L\u00f3pez) no meio do deserto marroquino, enquanto ele tenta encontrar a filha desaparecida entre os n\u00f4mades hipsters que frequentam os concertos underground de m\u00fasica trance. A princ\u00edpio, voc\u00ea se prepara para uma releitura de Rastros de \u00d3dio, adaptada para a cena rave do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o as coisas tomam um rumo extremamente lis\u00e9rgico, ainda mais sombrio, e de repente tudo mergulha em um territ\u00f3rio puro de pesadelo. Nenhum filme fez melhor uso da m\u00fasica e do design de som como meio de imergir os espectadores em um mundo que \u00e9, de alguma forma, simultaneamente ut\u00f3pico e dist\u00f3pico \u2014 e voc\u00ea vai querer assistir a isso em uma sala com o melhor sistema de som poss\u00edvel. Uma viagem, de muitas maneiras incont\u00e1veis.<\/p>\n<h2><em>A Useful Ghost<\/em><\/h2>\n<p>Quem n\u00e3o ama um filme tailand\u00eas sobre eletrodom\u00e9sticos possu\u00eddos e fantasmas tarados transando com todo mundo? Vencedor do grande pr\u00eamio da Semaine de la Critique deste ano, a obra inclassific\u00e1vel e completamente maluca de Ratchapoom Boonbunchachoke mistura com\u00e9dia e travessuras sobrenaturais, come\u00e7ando com um acidente de f\u00e1brica que aprisiona o esp\u00edrito de um oper\u00e1rio morto dentro de um aspirador de p\u00f3. E termina com uma comovente medita\u00e7\u00e3o sobre mem\u00f3ria, luto e at\u00e9 onde algu\u00e9m est\u00e1 disposto a ir para impedir que um ente querido falecido se apague suavemente na noite. Entre esses extremos, h\u00e1 uma s\u00e9rie de vinhetas hil\u00e1rias envolvendo m\u00e1quinas safadas, alguns coment\u00e1rios sociais feitos de maneira enviesada, uma performance assombrosa (em mais de um sentido) da atriz tailandesa Davika Hoorne e uma tonelada de sexo paranormal. Sem observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2><em>YES<\/em><\/h2>\n<p>O cineasta israelense Nadav Lapid sempre lan\u00e7ou um olhar cr\u00edtico sobre as posturas pol\u00edticas e as pol\u00edticas sociais de seu pa\u00eds \u2014 vide: O Policial, OAhed`s Knee, Synonymes\u2026 enfim, toda a sua filmografia. Seu mais recente trabalho n\u00e3o deve lhe render muitos amigos entre os setores mais conservadores de sua terra natal. Um compositor (Ariel Bronz) e sua esposa (Efrat Dor) desfrutam de todos os prazeres hedonistas dispon\u00edveis para a elite militar, midi\u00e1tica e de direita da na\u00e7\u00e3o. Quando ele \u00e9 convidado a compor um hino exaltando a superioridade moral do pa\u00eds, aceita o trabalho. Logo, a combina\u00e7\u00e3o dessa encomenda com o reencontro com uma antiga parceira musical\/amante (Naama Preis) desencadeia uma s\u00e9ria crise de f\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme que soa como um grito raivoso lan\u00e7ado ao vazio, uma obra que se insurge contra a normaliza\u00e7\u00e3o das atrocidades di\u00e1rias e o aumento vertiginoso das mortes transmitidas direto para os celulares das pessoas. Nem mesmo as cenas iniciais \u2014 de sexo, drogas e batalhas de dan\u00e7a com um bando de generais do ex\u00e9rcito \u2014 conseguem suavizar o golpe.<\/p>\n<p>+++LEIA MAIS:<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/os-13-melhores-filmes-de-cannes-2025-segundo-rolling-stone\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEste \u00e9 o festival de Cannes mais pol\u00edtico desde 1968?\u201d, perguntou a manchete de um artigo do The Hollywood Reporter, pouco antes da metade do festival de cinema de 2025. \u00c9 uma pergunta leg\u00edtima. 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