{"id":22991,"date":"2025-05-25T12:49:33","date_gmt":"2025-05-25T15:49:33","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/revolucao-dos-bichos-uma-denuncia-de-totalitarismo\/"},"modified":"2025-05-25T12:49:33","modified_gmt":"2025-05-25T15:49:33","slug":"revolucao-dos-bichos-uma-denuncia-de-totalitarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/revolucao-dos-bichos-uma-denuncia-de-totalitarismo\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos: uma den\u00fancia de totalitarismo"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div id=\"hd80s9wa1h892edh8192\">\n<p>Um dos maiores desafios de um resenhista, sem d\u00favida, \u00e9 falar sobre aqueles livros dos quais muito j\u00e1 se tratou e encontrar neles alguma cr\u00edtica original e digna de ser feita. Nem toda resenha cr\u00edtica, contudo, necessariamente precisa ser estupendamente original, deve ser antes uma esp\u00e9cie de rec\u00e1lculo de rota, pois, ainda que as conclus\u00f5es desse novo caminho sejam as mesmas do caminho anterior, a nova via recalculada pode trazer novas perspectivas e gozos.<\/p>\n<p>Publicada originalmente em 17 de agosto de 1945, no final da Segunda Guerra, <strong><em>A Fazenda dos Animais<\/em><\/strong> \u2014 mais conhecida no Brasil por <em>Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos<\/em> \u2014, de George Orwell, emergiu no cen\u00e1rio liter\u00e1rio como uma s\u00e1tira pol\u00edtica que uniu a f\u00e1bula e um conte\u00fado incendi\u00e1rio, desafiando os poderes ideol\u00f3gicos de sua \u00e9poca e a m\u00eddia amplamente endossadora da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS) no mundo ocidental naqueles dias.<\/p>\n<p>Ou seja, num momento hist\u00f3rico em que a Segunda Guerra Mundial mal havia terminado, e a URSS gozava de prest\u00edgio como aliada na derrota do nazismo, Orwell ousou fazer o que poucos faziam: criticar abertamente o stalinismo e todos os que censuravam, aplaudiam ou at\u00e9 defendiam o totalitarismo comunista da URSS.<\/p>\n<p>Sob o disfarce de uma par\u00e1bola agr\u00e1ria, a obra narra a rebeli\u00e3o de animais de uma fazenda contra seus opressores humanos, apenas para, em seguida, instaurar uma tirania ainda mais brutal sob o comando dos porcos. O lema da obra \u00e9 conhecido at\u00e9 mesmo por aqueles que jamais leram o livro: \u201cTodos os animais s\u00e3o iguais, mas alguns s\u00e3o mais iguais que os outros\u201d. A frase, s\u00edntese ir\u00f4nica do autoritarismo que cresce sob a bandeira da igualdade, resume o n\u00facleo cr\u00edtico do romance: a trai\u00e7\u00e3o dos ideais revolucion\u00e1rios e a corros\u00e3o do poder pelo poder.<\/p>\n<p>T\u00e3o profunda e basilar \u00e9 a f\u00e1bula de Orwell, que muitos se esqueceram do pref\u00e1cio assustadoramente atual ao Ocidente, e em especial, ao Brasil. Denominado <em><strong>T<\/strong><\/em><strong><em>he Freedom of the Press<\/em>,<\/strong> e publicado como ensaio para o <em>The Times Literary Supplement<\/em>, postumamente, em 15 de setembro de 1972, o texto havia sido escrito em 1944 para ser o pref\u00e1cio de <em>A Fazenda dos Animais<\/em>, por\u00e9m, foi suprimido pelos editores, pois era altamente cr\u00edtico \u00e0 URSS. No texto em v\u00e1rio momentos ele foi prof\u00e9tico, como quando afirmou que a censura no Ocidente de seus dias \u201cera na maioria volunt\u00e1ria\u201d. Sobre as desculpas para a censura e a ditadura, na parte final do ensaio, ele parece falar para o Brasil de 2025:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Al\u00e9m da conhecida alega\u00e7\u00e3o marxista de que a \u201cliberdade burguesa\u201d \u00e9 uma ilus\u00e3o, h\u00e1 agora uma tend\u00eancia generalizada de argumentar que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel defender a democracia por meio de m\u00e9todos totalit\u00e1rios. Se algu\u00e9m ama a democracia, diz o argumento, deve esmagar seus inimigos por qualquer meio que seja. E quem s\u00e3o seus inimigos? Sempre parece que eles n\u00e3o s\u00e3o apenas aqueles que a atacam aberta e conscientemente, mas tamb\u00e9m aqueles que \u201cobjetivamente\u201d a colocam em perigo ao disseminar doutrinas equivocadas. Em outras palavras, defender a democracia envolve destruir toda a independ\u00eancia de pensamento. (Tradu\u00e7\u00e3o minha)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>A Fazenda dos Animais<\/em> vem sendo analisada apenas pelas vistas de um ataque liter\u00e1rio \u00e0 URSS, mas ela \u00e9 bem mais. \u00c9 um raio-x da estrutura argumentativa de toda e qualquer ditadura. E se hoje ela ainda faz sentido, ali\u00e1s, se hoje, por vezes, parece at\u00e9 fazer mais sentido do que antes, \u00e9 porque as estruturas que o texto revela s\u00e3o mais que den\u00fancias temporais, mas antes, afirma\u00e7\u00f5es profundamente filos\u00f3ficas sobre as entranhas do totalitarismo em suas mais diversificadas facetas.<\/p>\n<p>Orwell enfrentou grande resist\u00eancia para publicar sua obra. V\u00e1rias editoras brit\u00e2nicas recusaram o manuscrito por temor de repres\u00e1lias pol\u00edticas \u2014 temia-se que criticar a URSS naquele momento fosse uma esp\u00e9cie de heresia geopol\u00edtica, j\u00e1 que o Reino Unido havia se aliado a Stalin para enfrentar os nazistas. Foi apenas pela interven\u00e7\u00e3o do poeta conservador T.S. Eliot, ent\u00e3o editor na Faber &amp; Faber, e do pequeno selo Secker &amp; Warburg, que o texto finalmente chegou ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>A estrutura fabular do romance \u00e9 deliberadamente simples. Orwell recorre \u00e0 linguagem direta e ao simbolismo transparente \u2014 os porcos Napole\u00e3o e Bola-de-Neve, por exemplo, representam figuras como Stalin e Tr\u00f3tski. Mas, sob essa superf\u00edcie infantil, corre uma correnteza amarga. A progressiva deforma\u00e7\u00e3o dos ideais de liberdade e justi\u00e7a espelha o curso hist\u00f3rico da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, de 1917 at\u00e9 os expurgos sangrentos dos anos 1930. Justamente por essa clareza que muitos cr\u00edticos denotam o sucesso posterior do texto, outros ainda falam da estrutura quase infantil da alegoria. A mim parece claro que se trata de uma fus\u00e3o de linguagem simples, enredo envolvente e mensagem moral cara; at\u00e9 um adolescente distra\u00eddo do Brasil entende, por exemplo, o que quer dizer a imagem final da obra, onde os porcos est\u00e3o sentados \u00e0 mesa com os humanos que juravam odiar.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, o ensa\u00edsmo do romance se expressa menos na forma e mais na sua fun\u00e7\u00e3o: <em>A Fazenda dos Animais<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas uma hist\u00f3ria moral \u2014 ainda que o seja de forma evidente \u2014, mas um coment\u00e1rio pol\u00edtico e incisivo sobre a maleabilidade da verdade sob regimes totalit\u00e1rios. A reescrita das regras no celeiro, a manipula\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva dos animais e a vigil\u00e2ncia constante s\u00e3o mecanismos familiares aos leitores do s\u00e9culo XX \u2014 e assustadoramente reconhec\u00edveis ainda hoje.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><picture><source data-srcset=\"https:\/\/medias.revistaoeste.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/George-orwell-BBC-736x1024.jpg.webp\" type=\"image\/webp\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"736\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/medias.revistaoeste.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/George-orwell-BBC-736x1024.jpg\" alt=\"George-orwell-BBC\" class=\"wp-image-900873\" data-eio=\"p\"\/><\/source><\/picture><figcaption class=\"wp-element-caption\">O escritor George Orwell | Foto: Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quase 80 anos ap\u00f3s sua publica\u00e7\u00e3o, o texto permanece atual, como um espelho desconfort\u00e1vel n\u00e3o apenas da pol\u00edtica sovi\u00e9tica, mas de toda forma de poder que se legitima pela mentira, pela opress\u00e3o da dissid\u00eancia e pelo judicialismo da pol\u00edtica popular. A precis\u00e3o com que Orwell desmascara a l\u00f3gica do autoritarismo torna a leitura de <em>A Fazenda dos Animais<\/em> quase pedag\u00f3gica para os adultos e jovens e um conto envolvente para as crian\u00e7as: \u00e9 um manual moral em forma de f\u00e1bula, uma anatomia da opress\u00e3o com linguagem acess\u00edvel e contund\u00eancia filos\u00f3fica. Mais que uma cr\u00edtica ao stalinismo, Orwell escreveu um tratado sobre os ciclos viciosos do poder \u2014 e sobre como revolu\u00e7\u00f5es podem devorar seus pr\u00f3prios filhos sob a promessa de um amanh\u00e3 igualit\u00e1rio. Ao final, <em>A Fazenda dos Animais<\/em> permanece como uma obra inc\u00f4moda porque revela, em termos claros demais para serem ignorados, que a liberdade exige vigil\u00e2ncia constante, coragem heroica e homens e mulheres com brio para pratic\u00e1-la, reafirm\u00e1-la e defend\u00ea-la \u2014 e que, \u00e0s vezes, os porcos j\u00e1 est\u00e3o entre n\u00f3s, usando de palavras bonitinhas como \u201cigualdade\u201d e \u201cdemocracia\u201d para domar a <em>Fazenda Brasilis<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m: \u201cA farsa legal escancarada\u201d, reportagem publicada na Edi\u00e7\u00e3o 270 da Revista Oeste<\/strong><\/p>\n<p><related-posts class=\"border-y border-gray-300 py-5\"><\/p>\n<h2 class=\"!text-2xl text-black font-primary font-semibold leading-none mb-3\">\n    Confira ainda<br \/>\n  <\/h2>\n<p><\/related-posts><\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/revistaoeste.com\/politica\/revolucao-dos-bichos-a-fazenda-dos-animais-uma-denuncia-do-totalitarismo-que-nunca-envelheceu\/\">Ag\u00eancia Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos maiores desafios de um resenhista, sem d\u00favida, \u00e9 falar sobre aqueles livros dos quais muito j\u00e1 se tratou e encontrar neles alguma cr\u00edtica original e digna de ser feita. 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