{"id":22953,"date":"2025-05-25T08:45:33","date_gmt":"2025-05-25T11:45:33","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/orwell-e-a-ditadura-dos-democratas\/"},"modified":"2025-05-25T08:45:33","modified_gmt":"2025-05-25T11:45:33","slug":"orwell-e-a-ditadura-dos-democratas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/orwell-e-a-ditadura-dos-democratas\/","title":{"rendered":"Orwell e a ditadura dos &#8216;democratas&#8217;"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div id=\"hd80s9wa1h892edh8192\">\n<p>Existem v\u00e1rios ensaios prof\u00e9ticos de George Orwell, mas sem d\u00favidas, <strong><em>The Prevention of Literature<\/em> <\/strong>e<strong> <em>The Freedom of the Press<\/em><\/strong> s\u00e3o um libelo raro para os nossos dias \u2014 principalmente se formos brasileiros. Uma das teses esquecidas do escritor dist\u00f3pico \u00e9 a de que a censura ditatorial n\u00e3o come\u00e7a exatamente por meio da imposi\u00e7\u00e3o estatal de silenciamentos seletivos, mas antes por meio de duas frentes: da aceita\u00e7\u00e3o da justificativa de medidas censoras por parte daqueles que mais deveriam batalhar pela liberdade de express\u00e3o; e pela tomada ret\u00f3rica e jur\u00eddica das institui\u00e7\u00f5es pelos \u201cditadores democratas\u201d. Esse \u00e9 o tema principal desses dois ensaios esquecidos de Orwell.<\/p>\n<p>Se existia algo que realmente tirava o sono do convicto \u2014 por\u00e9m extremamente cr\u00edtico e l\u00facido \u2014 socialista ingl\u00eas, era constatar que literatos, jornalistas e incont\u00e1veis intelectuais ocidentais de seus dias n\u00e3o s\u00f3 defendiam de forma aberta e decidida ditaduras como a sovi\u00e9tica, como em in\u00fameros casos escreviam obras, distorciam e at\u00e9 mesmo escondiam not\u00edcias que poderiam manchar a imagem de suas ditaduras de estima\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m desses, falava Orwell, existiam ainda os que escondiam suas prefer\u00eancias ditatoriais atr\u00e1s de ret\u00f3ricas como \u201ca liberdade de express\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o burguesa\u201d ou \u201cdevemos defender, sim, a liberdade de express\u00e3o, por\u00e9m, antes \u00e9 necess\u00e1rio que haja um autoritarismo virtuoso para derrubar a direita\u201d.<\/p>\n<p>Orwell foi um dos poucos socialistas moralmente engajados em jamais aceitar tais argumentos. \u00c9 fato que ele jamais rompeu publicamente com o socialismo at\u00e9 o fim de sua vida, mas n\u00e3o deixou de elogiar aquilo que chamou de \u201cdemocracia liberal\u201d e sua defesa decidida da liberdade individual \u2014 pauta que no s\u00e9culo XX era amplamente sustentada por liberais e conservadores, e n\u00e3o por socialistas. Sua den\u00fancia sobre a cumplicidade de intelectuais e escritores ocidentais com as ditaduras comunistas poderia bem ser explicada pelo termo utilizado pelo fil\u00f3sofo Jos\u00e9 Ortega y Gasset em seu monumental livro <em>A Rebeli\u00e3o das Massas<\/em>; para o fil\u00f3sofo espanhol, tal postura trata-se de um claro \u201cacanalhamento\u201d, isto \u00e9, a posi\u00e7\u00e3o consciente de defender, ao mesmo tempo, duas posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas, sabendo que s\u00e3o inconcili\u00e1veis, mas que, para todos os efeitos, garantem ao portador da contradi\u00e7\u00e3o um espa\u00e7o intelectual mais aconchegante e lucrativo ante determinado p\u00fablico ou empresa. Afinal, as pessoas sempre pagaram para ter suas ideias confirmadas e fundamentadas.<\/p>\n<p>Entre as teses defendidas por Orwell nesses dois ensaios citados acima, \u00e9 not\u00e1vel aquela na qual ele afirma que uma ditadura nasce quando suas institui\u00e7\u00f5es passam a ser artificiais, isto \u00e9, quando elas passam a viver um teatro tragic\u00f4mico, um faz de conta de legalidade, enquanto, na verdade, est\u00e3o em plena disputa pelo poder absoluto de uma m\u00e1quina estatal. Falam de direito, mas o direito se foi; falam de liberdade, mas a regulam at\u00e9 que a tal \u201cliberdade\u201d diga somente o que \u00e9 permitido por eles; falam de democracia, mas controlam a vontade popular valendo-se do poder policial e judicial. Arrisquei-me a traduzir o seguinte trecho, pois vale a pena ler do pr\u00f3prio escritor ingl\u00eas:<\/p>\n<p><strong>Uma sociedade se torna totalit\u00e1ria quando sua estrutura passa a ser flagrantemente artificial, ou seja, quando sua classe dominante perdeu sua fun\u00e7\u00e3o, mas consegue se agarrar ao poder pela for\u00e7a ou pela fraude<\/strong>. Tal sociedade, n\u00e3o importa por quanto tempo persista, nunca poder\u00e1 se dar ao luxo de ser tolerante ou intelectualmente est\u00e1vel. Ela nunca poder\u00e1 permitir o registro verdadeiro dos fatos ou a sinceridade emocional que a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria exige.<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o veio de <em>The Prevention of Literature<\/em>; e o mais assustador \u00e9 que no trecho, embora Orwell estivesse definindo o <em>modus operandi<\/em> do regime sovi\u00e9tico, a sua conceitua\u00e7\u00e3o parece delinear muito mais e melhor a maneira de agir das ditaduras progressistas atuais. Isto \u00e9: o rapto institucional dos poderes de uma democracia, seguido da imposi\u00e7\u00e3o, por vias formais, de uma ideologia ou modo de poder que garanta a perpetua\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o pol\u00edtica. Na verdade, parece que o escritor escreveu tal texto apenas ontem.<\/p>\n<p>Em outra passagem, agora do ensaio <em>The Freedom of Press<\/em>, Orwell afirma:<\/p>\n<p>Um dos fen\u00f4menos peculiares de nosso tempo \u00e9 o liberal renegado. Al\u00e9m da conhecida alega\u00e7\u00e3o marxista de que a \u201cliberdade burguesa\u201d \u00e9 uma ilus\u00e3o, h\u00e1 agora uma tend\u00eancia generalizada de argumentar que <strong>s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel defender a democracia por meio de m\u00e9todos totalit\u00e1rios<\/strong>. Se algu\u00e9m ama a democracia, diz o argumento, deve esmagar seus inimigos por qualquer meio que seja. E quem s\u00e3o seus inimigos? Sempre parece que eles n\u00e3o s\u00e3o apenas aqueles que a atacam aberta e conscientemente, mas tamb\u00e9m aqueles que \u201cobjetivamente\u201d a colocam em perigo ao disseminarem doutrinas equivocadas. <strong>Em outras palavras, defender a democracia envolve destruir toda a independ\u00eancia de pensamento<\/strong>.<\/p>\n<p>O que Orwell explica acima \u00e9 que os agentes que sequestram as institui\u00e7\u00f5es de um pa\u00eds at\u00e9 podem se declarar \u201cliberais\u201d ou \u201cdemocratas\u201d, mas, como precisam levar adiante a miss\u00e3o de poder, assumem prontamente aquela carapu\u00e7a de contradi\u00e7\u00e3o que Ortega chamava de \u201cacanalhamento\u201d. Eles entendem que essa tal \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d, que muitos cr\u00edticos do regime vociferam, n\u00e3o passa de um \u201cinstrumento burgu\u00eas\u201d ou \u201cconservador\u201d a fim de implantar uma ditadura. E para isso valem-se de desinforma\u00e7\u00e3o, narrativas e fantasias.<\/p>\n<p>E assim, \u00e9 claro, para salvaguardar a reta \u201cdemocracia\u201d, deve-se utilizar todos os instrumentos de defesa institucional, desde a subvers\u00e3o jur\u00eddica e pol\u00edtica at\u00e9 a demoniza\u00e7\u00e3o p\u00fablica e encarceramento de opositores. Ou seja, para ser democrata \u2012 j\u00e1 havia notado Orwell na vis\u00e3o dos comunistas do s\u00e9culo XX \u2012 \u00e9 preciso antes ser ditador.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio ensaio <em>The Freedom of Press<\/em> foi censurado pelos editores de <em>A Fazenda dos Animais<\/em> \u2012 ou, como \u00e9 mais conhecido aqui, <em>A Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos<\/em> \u2012, e embora tenha sido escrito em 1944 para ser pref\u00e1cio do livro citado, s\u00f3 foi publicado em 1972 no <em>The Times Literary Supplement<\/em>. Ou seja, Orwell sabe bem, n\u00e3o s\u00f3 pela \u00e9poca em que viveu, mas por ter sido ele mesmo v\u00edtima de censores, como funcionava o mecanismo interno de uma mentalidade ditatorial. <em>1984<\/em> \u00e9 o seu grande tratado sobre o tema.<\/p>\n<p>George Orwell devia ser redescoberto no Brasil, e n\u00e3o somente por meio de <em>A Fazenda dos Animais<\/em> e <em>1984<\/em>, mas tamb\u00e9m por seus artigos e ensaios publicados em jornais e revistas. Sua clareza moral e pol\u00edtica s\u00e3o louv\u00e1veis e inspiradoras, um socialista que soube quando devia ceder quanto aos defeitos de suas cren\u00e7as, bem como lutar ao lado de liberais e conservadores quando valores primordiais e inegoci\u00e1veis se encontravam amea\u00e7ados. Acima de tudo, foi um intelectual livre, que manteve at\u00e9 o fim aquele brio que falta \u00e0s toneladas para mais da metade dos jornalistas ocidentais antigos e contempor\u00e2neos. Orwell parece ter sido aquele tipo raro de homem que n\u00e3o se dobrou, nem mesmo ante os defeitos da ideologia que assumia como sua, pois, para um homem de car\u00e1ter, \u00e9 not\u00e1vel que a verdade est\u00e1 acima de seus fetiches e prefer\u00eancias pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m: \u201cA farsa legal escancarada\u201d, reportagem publicada na Edi\u00e7\u00e3o 270 da Revista Oeste<\/strong><\/p>\n<p><related-posts class=\"border-y border-gray-300 py-5\"><\/p>\n<h2 class=\"!text-2xl text-black font-primary font-semibold leading-none mb-3\">\n    Confira ainda<br \/>\n  <\/h2>\n<p><\/related-posts><\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/revistaoeste.com\/politica\/orwell-e-a-ditadura-dos-democratas\/\">Ag\u00eancia Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem v\u00e1rios ensaios prof\u00e9ticos de George Orwell, mas sem d\u00favidas, The Prevention of Literature e The Freedom of the Press s\u00e3o um libelo raro para os nossos dias \u2014 principalmente se formos brasileiros. 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