{"id":22620,"date":"2025-05-23T19:31:36","date_gmt":"2025-05-23T22:31:36","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/vanessa-da-mata-retoma-cronica-brasileira-em-novo-album-sou-contadora-de-historias\/"},"modified":"2025-05-23T19:31:36","modified_gmt":"2025-05-23T22:31:36","slug":"vanessa-da-mata-retoma-cronica-brasileira-em-novo-album-sou-contadora-de-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/vanessa-da-mata-retoma-cronica-brasileira-em-novo-album-sou-contadora-de-historias\/","title":{"rendered":"Vanessa da Mata retoma cr\u00f4nica brasileira em novo \u00e1lbum: \u2018Sou contadora de hist\u00f3rias\u2019"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>No caso de <strong>Vanessa da Mata<\/strong>, \u00e9 certeiro dizer que a for\u00e7a da arte nunca seca. Mais de duas d\u00e9cadas ap\u00f3s encantar o Brasil ao compor com <strong>Chico C\u00e9sar<\/strong> e ser interpretada por <strong>Maria Beth\u00e2nia<\/strong>, a criatividade da cantora de Alto Gar\u00e7as, no Mato Grosso, continua fluindo no \u00e1lbum <em><strong>Todas Elas<\/strong><\/em>, lan\u00e7ado em maio.\u00a0Ela d\u00e1 novos contornos ao papel de cronista do pa\u00eds. <strong>Vanessa<\/strong> canta sobre assuntos pol\u00edticos e sociais importantes que, al\u00e9m de tudo, calharam com o momento emocional que ela vive.\u00a0<\/p>\n<p>Multifacetada, a artista escancara as v\u00e1rias mulheres que comp\u00f5em a pr\u00f3pria identidade. Logo na abertura, <strong>\u201cMaria Sem Vergonha\u201d<\/strong> manifesta a rebeldia contra o aprisionamento feminino. <strong>\u201cEsperan\u00e7a\u201d<\/strong> traz uma mulher madura que reconhece o amor como exerc\u00edcio, n\u00e3o como posse.\u00a0<\/p>\n<p>A cr\u00edtica mel\u00f3dica lan\u00e7a olhares para a intoler\u00e2ncia religiosa em <strong>\u201cEu Te Apoio em Sua F\u00e9\u201d<\/strong>, criada com base em uma not\u00edcia de telejornal. H\u00e1 ainda espa\u00e7o para estranheza e desconforto na pouco convencional <strong>\u201cDemorou\u201d<\/strong>, um dueto com <strong>Jo\u00e3o Gomes<\/strong>; O amor suave em <strong>\u201cTroco Tudo\u201d<\/strong>, feita em parceria com <strong>Jota.p\u00ea<\/strong>; e <strong>\u201cUm Passeio Com Robert Glasper Pelo Brasil\u201d<\/strong>, que mergulha pelos sons nacionais ao lado do pianista americano <strong>Robert Glasper<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\" frameborder=\"0\" height=\"352\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/album\/39vSWTqfZUoXfJBIm6U2eg?utm_source=generator\" style=\"border-radius: 12px;\" width=\"100%\"><\/iframe><\/p>\n<p><em><strong>Todas Elas<\/strong><\/em> tamb\u00e9m inaugura a <strong>Vanessa da Mata<\/strong> p\u00f3s-<em><strong>Clara Nunes \u2013 A Tal Guerreira<\/strong><\/em>, espet\u00e1culo no qual ela revisita a trajet\u00f3ria de uma das maiores vozes da m\u00fasica brasileira. \u201c<strong>Clara Nunes<\/strong> me ensinou a ser mais profissional, ter mais ambi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao meu potencial vocal, meu potencial de espet\u00e1culo. De trazer essa interpreta\u00e7\u00e3o e essa dramaticidade\u201d, disse em entrevista \u00e0 <em><strong>Rolling Stone Brasil<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 essa dramaticidade que a artista promete para a turn\u00ea do novo \u00e1lbum, que come\u00e7a neste s\u00e1bado, 24, no Rio de Janeiro e conta com uma passagem pelo Palco Aquarela do festival <strong>Jo\u00e3o Rock<\/strong>, em Ribeir\u00e3o Preto no dia 14 de junho. Isso, \u00e9 claro, sem deixar a m\u00fasica em segundo plano: \u201cTenho uma fome muito grande dessa coisa mais manual, mais brasileira. De oferecer as letras e as harmonias para que as pessoas que est\u00e3o ali possam buscar as pr\u00f3prias experi\u00eancias. Uma necessidade de ter mais envolvimento musical.\u201d<\/p>\n<p>Ela se diz cansada, mas a <strong>Vanessa da Mata<\/strong> que visitou os est\u00fadios da <em><strong>Rolling Stone Brasil<\/strong><\/em> parece t\u00e3o viva quanto a que escreveu <strong>&#8220;A For\u00e7a Que Nunca Seca&#8221;<\/strong> no final dos anos 1990. Enquanto reflete sobre o futuro \u2014 ela se v\u00ea como uma \u201cvelhinha safada\u201d \u2014, sobre o cen\u00e1rio da m\u00fasica brasileira contempor\u00e2nea e sobre a pr\u00f3pria carreira, a cantora comprova que transformar sofrimento em poesia \u00e9 o caminho para a tranquilidade art\u00edstica.<\/p>\n<p>Leia a entrevista na \u00edntegra a seguir:<\/p>\n<hr\/>\n<p><strong>Rolling Stone Brasil: Todas Elas \u00e9 um disco que fala sobre as v\u00e1rias mulheres que voc\u00ea \u00e9. Quais mulheres s\u00e3o essas?<br \/><\/strong>Vanessa da Mata: Todos n\u00f3s temos camadas de personalidades. L\u00f3gico que n\u00e3o estou falando de esquizofrenia, mas de possibilidades, momentos, dias e horm\u00f4nios diferentes. Os meninos tamb\u00e9m. Maneiras diferentes de resolver problemas dependendo da situa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, sempre acho que n\u00e3o estar permanentemente de um jeito \u00e9 a melhor forma de voc\u00ea lidar com a vida, de aprender e dar uma chance a si mesmo para amadurecer.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea diria que esse foi um \u00e1lbum de redescoberta?<br \/><\/strong>Eu sempre tive flexibilidade, sou uma pessoa muito livre. Muito, al\u00e9m do normal. Livre no sentido de n\u00e3o querer entrar em nada que me oprima, que me encarcere de alguma maneira. Sou uma contadora de hist\u00f3rias, essas mulheres sempre estiveram comigo. Mas nesse disco, acho que est\u00e3o muito mais presentes, escancaradas, mais femininas e feministas, tamb\u00e9m mais menininhas. Tem v\u00e1rias vers\u00f5es rom\u00e2nticas, outras percebendo mais um narcisismo. Essas falhas humanas s\u00e3o muito percebidas por essas mulheres todas.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 lan\u00e7ar um disco ap\u00f3s o espet\u00e1culo Clara Nunes \u2013 A Tal Guerreira, no qual voc\u00ea interpretou a cantora no teatro?<br \/><\/strong>Achei que eu ia tirar f\u00e9rias, mas n\u00e3o consigo. J\u00e1 tentei de todas as maneiras e sempre invento alguma coisa nova. Na pandemia de Covid-19, fiz uma loja de m\u00f3veis antigos assinados, das d\u00e9cadas de 1950 a 1960, e comecei a pintar quadros enormes. N\u00e3o sei se \u00e9 uma fuga ou outra coisa, mas n\u00e3o consigo parar.<\/p>\n<p>Mas Clara me ensinou muito a cantar. Tive um preparador vocal, Rafa Miranda, todos os dias. Eu j\u00e1 tinha feito fonoaudiologia, mas nunca aula de canto. Tinha um preconceito enorme por achar que se eu fizesse muita aula, ficaria t\u00e9cnica de mais e deixaria a emo\u00e7\u00e3o de lado. Ao contr\u00e1rio, o emocional pode vir, mas eu consigo coordenar a voz e isso me deu uma liberdade maior ainda.<\/p>\n<p>Esse menor m\u00fasculo do nosso corpo, chamado cordas vocais, \u00e9 muito sens\u00edvel. Ent\u00e3o se voc\u00ea exercita todos os dias, voc\u00ea mant\u00e9m ele no lugar onde quer. Voc\u00ea joga uma nota para cima, ele vai onde voc\u00ea quer. Se tenta colocar ele mais forte cantando um rock \u2018n\u2019 roll, ele vem mais forte sem te machucar. Se quer algo mais sussurrado, vai sussurrar com a nota certa.\u00a0<\/p>\n<p>Clara me ensinou isso e me colocou em um repert\u00f3rio maravilhoso. Quando sa\u00ed, parei e come\u00e7ou a m\u00fasica. Eu acordava pensando em m\u00fasica, ia dormir com outra. Tanto que a gente fez esse disco em quatro dias. O resto foram ajustes, mas ele estava semi-pronto em quatro dias, o que \u00e9 um milagre hoje em dia.<\/p>\n<p><strong>Foi um dos seus trabalhos mais r\u00e1pidos para fazer?<br \/><\/strong>Mais r\u00e1pidos, mais espont\u00e2neos, mas tamb\u00e9m mais certeiros. Mesmo t\u00e3o r\u00e1pido, ele tinha um plano, tinha essas meninas na minha cabe\u00e7a, os assuntos que eu queria tratar.\u00a0<\/p>\n<p>Por exemplo, \u201cEu Te Apoio em Sua F\u00e9\u201d, eu anotei o assunto e fiquei dias com ele na cabe\u00e7a depois de uma meteria de telejornal sobre uma fac\u00e7\u00e3o que entrou em um terreiro de Candombl\u00e9 e mandou o babalorix\u00e1 quebrar o terreiro inteiro. Eu olhei aquela tristeza, mas com uma resili\u00eancia enorme e uma camiseta de Jesus Cristo. E os caras que estavam quebrando diziam que era em nome de Jesus Cristo. Que contraste. Absurdo, tristeza, mas, ao mesmo tempo, maravilhoso, porque mostra o ser humano na sua loucura. Uma arrog\u00e2ncia em nome de Jesus Cristo e o outro ali com a camiseta que era a guia dele naquele momento. Eu n\u00e3o resisti, fiz essa m\u00fasica, \u201cEu Te Apoio em Sua F\u00e9\u201d, que eu gostaria que chegasse nesse homem em algum momento.<\/p>\n<p>A\u00ed tem \u201cCiranda\u201d, uma m\u00fasica que fala de uma mulher que veio de um lugar onde a sede \u00e9 pior do que a fome. Ela cuida de um nen\u00e9m, tem essa coisa da m\u00e3e solo no Brasil. A gente vem de um lugar que \u00e9 uma sequ\u00eancia da escraviza\u00e7\u00e3o das pessoas, onde o homem era colocado sempre no papel de fazedor de filho. Fazia o filho e era mandado para outro lugar. Ent\u00e3o as mulheres est\u00e3o sempre cuidando sozinhas de seus filhos.<\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rios assuntos e, ao mesmo tempo, assuntos pol\u00edticos e sociais importantes que vieram a calhar para mim emocionalmente.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sempre teve um olhar social, assim como Clara Nunes. O espet\u00e1culo intensificou isso?<br \/><\/strong>Sempre fiz, desde o primeiro disco. Tinha a m\u00fasica \u201cEu N\u00e3o Tenho\u201d na qual eu cantava \u201cEu n\u00e3o tenho ch\u00e3o\/Eu n\u00e3o tenho casa\/Eu n\u00e3o tenho p\u00e3o\/Estou vendendo as asas que possuo\/Por n\u00e3o ter mais nada\u201d. Vendia a inoc\u00eancia porque a fome corrompia.\u00a0<\/p>\n<p>Mas acho que n\u00e3o d\u00e1 para passar por Clara, foi um divisor de \u00e1guas para o meu lado art\u00edstico. Ainda mais naquele espet\u00e1culo, com aquele repert\u00f3rio, a incumb\u00eancia de fazer tudo de uma maneira muito profissional. Estar naquela \u00e9poca, naquela presen\u00e7a, naquela mulher e com aquele hist\u00f3rico.\u00a0<\/p>\n<p>Temos v\u00e1rias coincid\u00eancias: \u00e9 uma mulher que tinha um teatro \u2014 eu tenho uma casa de show, a Casa Natura Musical; uma mulher que veio do interior, que tinha a catira congada, e eu a folia de reis, o Cururu Siriri; uma mulher de rios, eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Uma mulher que tamb\u00e9m era pol\u00edtica, que n\u00e3o tinha medo de falar das coisas, como voc\u00ea. E que sofreu as consequ\u00eancias dessa coragem\u2026<br \/><\/strong>E em um momento muito crucial, dif\u00edcil. Uma mulher muito dolorida com todos os homens que passaram na vida dela, e isso ainda acontece muito hoje. A gente procura essa coisa de romances que n\u00e3o existem. Mas ela me ensinou muito. Me ensina muito.<\/p>\n<p><strong>Todas Elas tem uma perspectiva feminina, mas as tr\u00eas colabora\u00e7\u00f5es no disco s\u00e3o masculinas: Jota.p\u00ea, Robert Glasper e Jo\u00e3o Gomes. Como esses universos se complementam?<br \/><\/strong>Com o Jo\u00e3o, eu j\u00e1 estava com a m\u00fasica \u201cDemorou\u201d pronta, gostei dos agudos e falei: \u201cGente, preciso de um bar\u00edtono aqui, a voz de um velhinho. Quem eu vou chamar? O Jo\u00e3o Gomes\u201d. A banda do Jo\u00e3o chama ele de voz de velho. Aquele menino magrelinho \u2014ele falou que agora tem uma barriguinha, mas continua magrelinho\u2014 com aquela voz \u00e9 muito raro. E essa est\u00e1 entre as m\u00fasicas mais tocadas do disco at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>O Jota.p\u00ea, antes de gravar o primeiro disco, a gente j\u00e1 conversava muito. Eu gostava muito dele como artista e antes de ele assinar contrato com gravadora, veio falar comigo. Me perguntou o que fazer e eu falei: \u201cOlha, existem algumas armadilhas, tal coisa pode acontecer, ent\u00e3o deixa tudo muito claro no contrato\u201d. A gente conversou bastante. Eu estava quase fechando o disco e no \u00faltimo dia enviei uma mensagem: &#8220;Me manda alguma coisa, cria uma melodia a\u00ed e me manda&#8221;. Ele fez. Imediatamente eu gravei o restante, no celular mesmo, devolvi para ele e a gente se encontrou no outro dia para fazer a letra. Foi uma m\u00fasica muito fluida, daquelas que nascem sem dificuldades, e eu acho linda.<\/p>\n<p>E com o Robert Glasper foi muito engra\u00e7ado. H\u00e1 uns 10 anos eu estava em um caf\u00e9 de Nova York escrevendo e come\u00e7ou a tocar uma m\u00fasica que me chamou aten\u00e7\u00e3o. Comecei a pesquisar e era do Robert, n\u00e3o parei de ouvir. Esse cara veio aqui no ano passado, demorou um pouco para as pessoas saberem quem ele era. Fui ao camarim, conversei com ele, a gente trocou telefone e um dia eu falei: \u201cEstou precisando de harmonias, de alguma levada que voc\u00ea tiver. Me manda a levada que eu fa\u00e7o f\u00e1cil.\u201d Ele mandou tr\u00eas e eu fiz a melodia e a letra em cima. A m\u00fasica \u00e9 maravilhosa, \u00e9 engra\u00e7ada, parece uma coisa da d\u00e9cada de 1980 ou final de 1970, quando as pessoas falavam muito do Brasil nas can\u00e7\u00f5es, coisa que a gente n\u00e3o faz mais. Ent\u00e3o eu quis entrar nessa, mas falando dos sons do Brasil, do interior, do Brasil profundo. A\u00ed surge essa m\u00fasica que \u00e9 um passeio com Robert Glasper pelo Brasil.<\/p>\n<p><strong>Por falar em parceiros homens, Mick Jagger, dos Rolling Stones \u00e9 um f\u00e3 seu e assistiu \u00e0 sua apresenta\u00e7\u00e3o em Londres. Como foi isso?<br \/><\/strong>Pois \u00e9. Eu conheci ele h\u00e1 muitos anos; Paula Lavigne nos apresentou durante uma festa na casa dela. Ele me achou engra\u00e7ada, sei l\u00e1 o que eu disse. Falei sobre as praias do Rio que n\u00e3o tinham ningu\u00e9m e ele gostou. Acho que percebeu que eu n\u00e3o ia colocar ele em uma fria.\u00a0<\/p>\n<p>Depois de alguns anos, a gente se falou de novo. Mostei Luiz Gonzaga para ele, e ele ama. A\u00ed eu comentei sobre o show e falei para ele ir caso estivesse sem nada para fazer. Mick ficou no show do come\u00e7o ao fim. No in\u00edcio ele estava embaixo, dan\u00e7ando com a galera. Depois subiu, porque n\u00e3o conseguiu dan\u00e7ar mais, e ficou na coxia ali. Achei maravilhoso. Ele me falou: \u201cCara, sou seu f\u00e3. Comecei a ouvir suas coisas, acho muito profundo, muito original. Uma mulher compositora.\u201d<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea ouve Rolling Stones?<br \/><\/strong>Ou\u00e7o. Falei para ele: &#8220;Sou sua f\u00e3, mas eu devo te dizer que os meus \u00eddolos s\u00e3o brasileiros, eu n\u00e3o conhe\u00e7o tanto&#8221;. Ele falou: &#8220;\u00d3timo, melhor&#8221;. Normal, n\u00e9? Eu cresci ouvindo o Chico Buarque, depois fui ouvir tudo o que chegava de Milton Nascimento, as coisas que apareciam nas novelas. Porque no Mato Grosso daquela \u00e9poca, a gente s\u00f3 conhecia por causa disso.<\/p>\n<p>Mas eu fiquei chocada com a presen\u00e7a dele, os meninos mal conseguiam tocar direito. Loucura. Ele \u00e9 impressionante, cheio de vida. Eu n\u00e3o quero assistir a show nenhum. J\u00e1 estou cansada. Algu\u00e9m me chama e eu respondo igual ao Tom Jobim. Ele dizia: &#8220;Eu cobro 100 mil para fazer um show, 200 mil para assistir&#8221;. Tom Jobim era terr\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Mesmo cansada, voc\u00ea se envolve muito com o pr\u00f3prio trabalho\u2026<br \/><\/strong>N\u00e3o tem como n\u00e3o me envolver. Meu filho veio junto aqui na Rolling Stone Brasil para me ver. Depois de crescido, porque antes eu parei as minhas turn\u00eas, parei v\u00e1rias coisas para poder ficar com eles. A gente era muito presente. Agora a gente est\u00e1 ensaiando no Rio, vai estrear l\u00e1, a banda est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o tem como, a voca\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte, sempre foi. Eu sa\u00ed muito cedo de casa, com 14 anos, deixando para tr\u00e1s a pessoa que eu mais amava na vida, minha av\u00f3, sabendo do medo, da possibilidade de ela ir embora r\u00e1pido. Era um sofrimento devastador, mas foi muito mais forte que eu. N\u00e3o tinha como competir.<\/p>\n<p><iframe title=\"Vanessa da Mata - Esperan\u00e7a (Webclipe Oficial)\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sNwhbqhH7bI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o \u00e9 um envolvimento por voca\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o por uma necessidade na ind\u00fastria musical?<br \/><\/strong>Industrial eu n\u00e3o estaria nunca. Essa necessidade industrial \u00e9 muito perigosa. Dede o primeiro disco eu cheguei com o cassetete na mesa dizendo: \u201cMinhas m\u00fasicas s\u00e3o assim, meu cabelo \u00e9 assim\u201d. Tinha uma gravadora em S\u00e3o Paulo que queria que eu alisasse o cabelo, usasse minissaia. Uma gravadora que dizia que tinha mais dinheiro para figurino do que para videoclipe. Parti para outra. Falei: \u201cEnt\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma gravadora, \u00e9 uma marca de roupa\u201d. Escolhi entrar na minha gravadora da \u00e9poca, a Sony, porque eles me respeitavam muito. Eu j\u00e1 cheguei com um estilo, j\u00e1 cheguei com umas m\u00fasicas que eu fazia.<\/p>\n<p><strong>E chegou com Chico C\u00e9sar e Maria Beth\u00e2nia cantando suas m\u00fasicas.<br \/><\/strong>Tinham muitos projetos na \u00e9poca em que eles lan\u00e7avam as mulheres com os caras que eles queriam. \u201cEst\u00e1 faltando tal tipo de m\u00fasica, vamos botar umas meninas cantando isso.\u201d At\u00e9 hoje esses projetos existem. Mas eu j\u00e1 tinha tudo, j\u00e1 sabia o que queria e era muito dona do meu estilo musical.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea continua sendo dona de si em <em>Todas Elas<\/em>.<br \/><\/strong>Continua fluindo, o que para mim \u00e9 muito importante. Vejo muitos amigos que n\u00e3o fazem mais \u00e1lbuns t\u00e3o vivos quanto os primeiros, isso \u00e9 angustiante. Voc\u00ea v\u00ea a pessoa lan\u00e7ando um super trabalho, uma grana e um tempo gastos, e o disco n\u00e3o \u00e9 vivo, n\u00e3o tem energia, sabor, nenhuma m\u00fasica te envolve.<\/p>\n<p>Acho que essa fluidez minha enquanto compositora aconteceu desde o primeiro disco, o que \u00e9 muito raro. Ela \u00e9 muito angustiada, viva, profunda. \u00c9 uma for\u00e7a que nunca seca. Mesmo.<\/p>\n<p><strong>A m\u00fasica te tirou de casa, te levou para o mundo, consolidou sua carreira. O que ela representa para voc\u00ea hoje?<br \/><\/strong>Eu tinha tr\u00eas anos quando meu pai estava me gravando e perguntou o que eu queria ser quando crescer. Eu disse: &#8220;Quero cantar&#8221;. Ele respondeu: &#8220;N\u00e3o, voc\u00ea vai ser m\u00e9dica&#8221;. Eu insistia: &#8220;N\u00e3o, eu vou cantar&#8221;. Meu pai era muito bravo. Com sete anos eu dizia que eu ia cantar para milhares de pessoas. E com 10, 12 anos, eu dizia que eu ia cantar para o mundo. Ent\u00e3o, n\u00e3o sei se era uma previs\u00e3o ou coisa da minha cabe\u00e7a, uma teimosia que botei ali para que meu futuro desse certo. Mas fui criada por uma av\u00f3 que cantava o tempo todo. E a voz lind\u00edssima. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m tem uma voz cristalina, eu j\u00e1 tentei v\u00e1rias vezes levar ela para gravar, mas ela tem uma timidez horrorosa. Fico pensando como vou fazer para gravar ela escondido.<\/p>\n<p>A m\u00fasica tomou conta de mim e me deu tudo que eu sou e que eu tenho hoje. De um jeito que todos os meus sofrimentos, todas as coisas que passei, eu transformei em uma constru\u00e7\u00e3o. E foi muito s\u00e1bio do meu organismo transformar isso numa fun\u00e7\u00e3o de vida. Depois que aprendi a fazer isso, meu sofrimento ficou bonito. Meu sofrimento se tornou uma poesia.<\/p>\n<p><strong>E quando foi que voc\u00ea aprendeu a fazer isso?<br \/><\/strong>A m\u00fasica \u00e9 muito doida. A voz \u00e9 invis\u00edvel, mas ela te d\u00e1 tudo; ou ela tira tudo. Assista a um filme de terror sem m\u00fasica e voc\u00ea vai dar risada.\u00a0<\/p>\n<p>Foi no primeiro disco, com as m\u00fasicas que eu compunha sozinha, tudo feito artesanalmente e aquilo passou para os m\u00fasicos e virou um acontecimento. Porque a m\u00fasica virou um Ser. Naquela \u00e9poca, ainda eram discos, algo palp\u00e1vel. Achei aquilo t\u00e3o milagroso, t\u00e3o divino, m\u00e1gico. E outra del\u00edcia \u00e9 o show, ficar diante de tanta gente que canta as can\u00e7\u00f5es como se fossem deles, porque o momento \u00e9 deles. Nada te pertence. Acho isso muito bonito.<\/p>\n<p><strong>Qual foi seu maior aprendizado com <em>Todas Elas<\/em>?<br \/><\/strong>Ter uma garantia de que eu sou uma boa produtora; isso j\u00e1 \u00e9 um al\u00edvio. Eu procurei dois produtores antes, o M\u00e1rio Caldato e o Gustavo Ruiz. Os dois n\u00e3o tinham tempo. A\u00ed minha empres\u00e1ria falou: \u201cVanessa, dos seus \u00faltimos discos, os que tiveram os melhores resultados foram os que voc\u00ea produziu. Se estiver se sentindo bem para isso, produza de novo\u201d. Eu pensei que era isso mesmo. Se eu teria que passar tudo o que eu queria para um produtor, por que n\u00e3o fazer eu mesma? Vou ter os m\u00fasicos que eu confio e que est\u00e3o comigo h\u00e1 um tempo, e todo mundo se respeitando. Vai ter um momento coletivo de criar os arranjos e um momento das minhas frases naquela can\u00e7\u00e3o. Fiz e foi fluido, delicioso. S\u00e3o 14 m\u00fasicas e tem duas a\u00ed que eu acho que podem ser melhoradas e talvez lan\u00e7adas mais para frente.<\/p>\n<p><strong>Pintora, atriz, compostora, produtora, cantora, m\u00e3e. O que mais?<br \/><\/strong>N\u00e3o tenho tempo para mais nada [risos].<\/p>\n<p><strong>Mas voc\u00ea est\u00e1 abrindo v\u00e1rios caminhos\u2026<br \/><\/strong>Verdade. E muitas vezes eu tive parceiros. Dessa vez n\u00e3o, foram 10 m\u00fasicas sozinha e isso est\u00e1 aumentando cada vez mais. Mas acho que a express\u00e3o, para muita gente angustiada como eu, que n\u00e3o dorme, que tem muitas coisas a resolver da sua personalidade, acho que \u00e9 um excelente caminho.<\/p>\n<p>Essa arte de se se expressar, seja em roupa, pintura, escrita. Todo mundo deveria escrever. Todo mundo deveria fazer teatro. Meus filhos fazem e para eles \u00e9 muito bom. Para a empatia, para entender a sociedade, crescer como ser humano, para o desenvolvimento intelectual. \u00c9 imprescind\u00edvel, necess\u00e1rio. Deveria ter em todas as escolas desde cedinho.<\/p>\n<p><strong>Se voc\u00ea pudesse dar um conselho para voc\u00ea mesma no in\u00edcio da carreira, qual seria?<br \/><\/strong>\u201cFa\u00e7a exatamente o que voc\u00ea fez\u201d. Porque os momentos mais tensos vieram onde eu precisava focar. Eu n\u00e3o aproveitei muito a minha adolesc\u00eancia porque eu precisava focar, n\u00e3o tinha para onde voltar. Se eu voltasse para o Mato Grosso naquele momento, talvez fosse infeliz para o resto da vida.\u00a0<\/p>\n<p>Eu era uma menina pobre. Ou focava e aprendia a compor, conhecia as pessoas certas e n\u00e3o faria nenhuma bobagem que me tirasse do meu rumo, como as drogas, ou eu n\u00e3o conseguiria. Porque eu n\u00e3o tinha padrinho, n\u00e3o tinha nada. Depois fui ter a Maria Beth\u00e2nia, mas at\u00e9 a\u00ed eu tive que fazer \u201cA For\u00e7a Que Nunca Seca\u201d, que \u00e9 uma letra estupenda. Uma g\u00eania que fez essa letra, uma loucura [risos]. E isso aos 21 anos. Ent\u00e3o, se eu n\u00e3o focasse, n\u00e3o virasse as noites estudando sozinha, enquanto os meus amigos iam para o bar, beber e gandaiar, o que tamb\u00e9m \u00e9 maravilhoso, eu n\u00e3o estaria aqui. Por isso eu falaria para fazer exatamente a mesma coisa.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea diria que os artistas de hoje demoram mais para amadurecer?<br \/><\/strong>N\u00e3o. Eu acho que depende de cada um, depende do que \u00e9 amadurecer para cada um, do que essa galera quer. Tem muita gente que se encontra para fazer m\u00fasica mais pop, para dan\u00e7ar, mais em fun\u00e7\u00e3o do ritmo do que qualquer outra coisa. E sexualidade que \u00e9 uma coisa que vende muito, n\u00e3o tem jeito. Mas eu acho que depende muito do foco das pessoas.\u00a0<\/p>\n<p>Eu sempre quis ser MPB, sempre gostei de letra. Estou gostando de envelhecer, n\u00e3o de chegar aos 70 ou 80 anos porque n\u00e3o sei como vai ser, mas como minha cabe\u00e7a est\u00e1 agora. Me sinto muito mais livre e menos pesada. Existia uma seriedade e um foco que me torturavam mesmo. De ter que chegar a um lugar onde eu estivesse tranquila como artista, tivesse um p\u00fablico que me mimetizasse e se sentisse no mesmo planeta que eu.<\/p>\n<p><strong>Hoje voc\u00ea est\u00e1 tranquila como artista?<br \/><\/strong>Estou. Mas quero desenvolver mais a musicalidade, a interpreta\u00e7\u00e3o no palco. Acho que d\u00e1 para ter uma dramaticidade que hoje em dia n\u00e3o tem, a gente foi perdendo. Beth\u00e2nia \u00e9 minha madrinha musical, mas acho que ela \u00e9 uma das poucas que s\u00e3o int\u00e9rpretes mesmo.\u00a0 E tem cantoras de vozes super potentes que alcan\u00e7am as notas sem alcan\u00e7ar as letras. Eu observo e me agrada, mas n\u00e3o percebo que a pessoa est\u00e1 ali, de fato, despertando nossos ouvidos. Tamb\u00e9m tem um monte de pirotecnia nos shows, isso vem e vai, mas a m\u00fasica fica em segundo plano, terceiro plano, voc\u00ea fica meio seduzido por outras coisas.<\/p>\n<p>\u201cTenho uma fome muito grande dessa coisa mais manual, mais brasileira. De oferecer as letras e as harmonias para que as pessoas que est\u00e3o ali possam buscar as pr\u00f3prias experi\u00eancias, n\u00e3o serem visualmente levadas. Uma necessidade de ter mais envolvimento musical.\u201d<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea estreia a turn\u00ea de Todas Elas no Rio de Janeiro neste dia 22 de maio e tamb\u00e9m passa pelo festival Jo\u00e3o Rock. Como est\u00e3o os preparativos?<br \/><\/strong>A todo o vapor. O espet\u00e1culo da Clara Nunes tamb\u00e9m me ensinou a ser mais profissional nesse sentido. Eu fa\u00e7o as coisas com muita facilidade, as composi\u00e7\u00f5es, o canto. Mas Clara me ensinou a ter mais ambi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao meu potencial vocal, meu potencial de espet\u00e1culo. De trazer essa interpreta\u00e7\u00e3o e essa dramaticidade. Eu e o Jorge Farjalla estamos justamente trabalhando isso. Quero um show dram\u00e1tico, um show com nuances de todas essas mulheres muito bem cravadas. Sem tantos truques que fa\u00e7am as pessoas perderem a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Maria Beth\u00e2nia \u00e9 sua madrinha musical. Mas e voc\u00ea, reconhece seu papel como conselheira de m\u00fasicos e f\u00e3s brasileiros?<br \/><\/strong>Eu tenho uma responsabilidade quando eu fa\u00e7o uma letra. Porque acho que as pessoas, em dados momentos, acham que tem sinais para elas. Principalmente quem est\u00e1 muito sens\u00edvel.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o fico pensando muito nisso, porque d\u00e1 uma pirada. Fa\u00e7o o meu e espero que as pessoas gozem com isso. Assim como eu gozei, assim como tive esse prazer de criatividade quando vem a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia a m\u00fasica brasileira atualmente?<br \/><\/strong>Eu tenho uma casa de show, a Casa da Natura Musical, que lan\u00e7a gente toda semana. E muita gente boa. Infelizmente essas pessoas n\u00e3o chegam numa massa maior e eu acho que existe uma necessidade de quem \u00e9 mais sagaz de ter as m\u00fasicas tocando o tempo todo. As pessoas deveriam procurar mais o seu leque musical. Porque ele existe, ele est\u00e1 a\u00ed e est\u00e1 cheio de gente que precisa do seu p\u00fablico para continuar existindo.\u00a0<\/p>\n<p>Assim como os antigos. Tem muita gente que tocou muita m\u00fasica boa e a nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o conhece. Outro dia o meu filho estava descobrindo Guilherme Arantes. Muito legal, o que mais tem no Brasil \u00e9 m\u00fasica boa. E eu escuto m\u00fasica desde quando ganhei meu primeiro dinheirinho e pude comprar coisas da d\u00e9cada de 1930, Orlando Silva, Silvio Caldas, enfim. Sei quanto tem m\u00fasica boa perambulando por a\u00ed para a gente ouvir.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea consegue ouvir m\u00fasica sem pensar no trabalho? Como separar os dois momentos?<br \/><\/strong>Super. Por exemplo, Orlando Silva eu fico analisando a letra. A\u00ed voc\u00ea come\u00e7a a viajar para os anos 30, aquele rapaz que fala sobre a menina pela qual ele se apaixonou e hoje ele est\u00e1 junto com os bambas, que s\u00e3o os caras mais fortes do samba. Que viagem maravilhosa. \u00c9 uma hist\u00f3ria e tanto.<\/p>\n<p>Mas a minha m\u00fasica eu n\u00e3o ou\u00e7o, porque a\u00ed eu fico pensando: \u201cPor que n\u00e3o tirei isso? Por que n\u00e3o coloquei aquilo?\u201d Quando eu saio do disco, saio mesmo. A gente n\u00e3o acaba um disco, a gente abandona ele. Isso \u00e9 realmente s\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s terminar o disco o show \u00e9 outra constru\u00e7\u00e3o\u2026<br \/><\/strong>Outra constru\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem que trazer para o palco as coisas que soam melhor e que talvez sejam mais apegadas, mas bonitas de acordes e tudo mais. \u00c9 um trabalho completamente diferente.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea se considera perfeccionista?<br \/><\/strong>Muito mais que isso. Sou a doida virginiana. Meus cadernos t\u00eam rasuras enormes, eu refa\u00e7o as letras 20 vezes.<\/p>\n<p>Em \u201cDemorou\u201d, com o Jo\u00e3o Gomes, a gente traz uma levada de reggae com o viol\u00e3o ao contr\u00e1rio, no ritmo oposto. At\u00e9 eu explicar isso, conseguir que todos entendessem, foi uma dificuldade, porque no refr\u00e3o tudo se alinha. E eu comecei a escrever ela pensando nessa estranheza: \u201cDeixa eu te dizer que eu te quero mais uma vez\/Parece estranho, mas siga, n\u00e3o tenha p\u00e2nico\/Eu j\u00e1 te disse e repito, \u00e9 t\u00e3o natural\/N\u00e3o tenha medo, se encaixe que vai ser bom\u201d. A melodia, com a letra e o arranjo todo, fazem muito sentido. A\u00ed a gente entra no refr\u00e3o, com o viol\u00e3o alinhado, e a letra come\u00e7a a dizer de uma maneira confort\u00e1vel. Isso \u00e9 muito divertido.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E olhando para o futuro, qual \u00e9 a Vanessa Da Mata que voc\u00ea v\u00ea?<br \/><\/strong>Uma velhinha safada [risos]. Uma velhinha que os meus filhos v\u00e3o ficar proibindo de sair. Brincadeira. Eu sou muito s\u00e9ria. Tenho essa personagem engra\u00e7ada que brinca o tempo todo, mas acho que se eu relaxar cada vez mais e conseguir fazer minhas m\u00fasicas de uma maneira que eu goste, que me d\u00ea orgulho, assim como Todas Elas, vou continuar muito feliz. Mas vou continuar sendo essa contadora de hist\u00f3rias a mil por hora. \u00c9 o que me move.<\/p>\n<p><strong>A gente s\u00f3 vai pensar na parte do \u201cvelhinha safada\u201d, ainda mais com o seu filho junto aqui no est\u00fadio da <em>Rolling Stone Brasil<\/em>.<br \/><\/strong>Ele est\u00e1 acostumado [risos]. Mas \u00e9 outro tipo de safada, uma safada engra\u00e7ada. Meio Dercy Gon\u00e7alves, que fala tudo o que pensa e sem filtros. Acho isso fant\u00e1stico.<\/p>\n<figure class=\"image\"><figcaption>Vanessa da Mata (Foto: Priscila Prade)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Se voc\u00ea pudesse assistir ao show de qualquer artista, quem escolheria?<br \/><\/strong>Tom Jobim. Eu ia grudar nele, casar com ele.<\/p>\n<p><strong>Se pudesse gravar uma m\u00fasica com qualquer artista, com quem seria?<\/strong><br \/>Coisas simples. Mick Jagger, Chico Buarque&#8230;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea viveu Clara Nunes no teatro. Se fosse para interpretar outra personalidade em um espet\u00e1culo, quem seria?<br \/><\/strong>Maria Callas, Gal Costa\u2026 S\u00e3o tantas. S\u00f3 n\u00e3o faria Yma Sumac porque n\u00e3o tenho aquele agudo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Qual superpoder voc\u00ea teria?<br \/><\/strong>Ser invis\u00edvel. Comer todos os chocolates dos mercados, bisbilhotar a vida alheia, escrever milhares de coisas. E influenciar o governo a fazer coisas boas pelas pessoas.<\/p>\n<p><strong>Se tivesse que transformar uma m\u00fasica sua em livro, qual seria?\u00a0<br \/><\/strong>Pensando em Todas Elas, seria \u201cEu Te Apoio em Sua F\u00e9\u201d. \u00c9 um bom momento para essa m\u00fasica. Um contexto de intoler\u00e2ncia, um radicalismo fascista e racista, um embranquecimento das religi\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Qual artista \u00e9 menos valorizado do que deveria? E n\u00e3o vale dizer Clara Nunes\u2026<br \/><\/strong>Pelo menos a Clara era muito amada pelo povo. Tem muitos outros que n\u00e3o chegaram nem perto. Existem cantores de m\u00fasicas dadas como rom\u00e2nticas no Brasil que t\u00eam um alcance enorme, eles representam o povo de muitas maneiras, inclusive na inoc\u00eancia, na pureza, e n\u00e3o s\u00e3o valorizados como deveriam. S\u00e3o muitos, muitos.<\/p>\n<p>Odair Jos\u00e9, por exemplo. Ele foi amado pelo povo, mas ele est\u00e1, de repente, num lugar onde n\u00e3o \u00e9 lembrado. Tem essa coisa do Brasil, que n\u00e3o cultiva a mem\u00f3ria. Um pa\u00eds novo e sem mem\u00f3ria. A\u00ed quando a pessoa falece, voc\u00ea traz de volta. Isso \u00e9 muito insano, muito injusto. Amado Batista e Diana eu tamb\u00e9m acho geniais.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o maior defeito do Brasil?<br \/><\/strong>Eu n\u00e3o chamaria de defeito, mas diria que a escraviza\u00e7\u00e3o. E isso ainda vai torturar a gente por muitos anos. Uma heran\u00e7a muito maldita; muito sofrimento de fam\u00edlias abandonadas. Minha av\u00f3, por exemplo, foi abandonada por meu av\u00f4 que era negro e possivelmente n\u00e3o teve pai, porque esse pai j\u00e1 era escravizado, servia apenas para fazer filhos.<\/p>\n<p>E as consequ\u00eancias s\u00e3o essas. As filhas, netas, e n\u00e3o sei quantas gera\u00e7\u00f5es mais, tentando quebrar esse padr\u00e3o de n\u00e3o estar s\u00f3, ou de tentar conquistar homens que nunca estar\u00e3o ali. \u00c9 sempre uma dor<\/p>\n<p><strong>E esse padr\u00e3o \u00e9 quebr\u00e1vel?<br \/><\/strong>Todo padr\u00e3o \u00e9 quebr\u00e1vel, mas com muita dificuldade. Muita. \u00c9 poss\u00edvel com bastante ajuda e perspic\u00e1cia. Na m\u00fasica \u201cEsperan\u00e7a\u201d, eu canto sobre sair do padr\u00e3o mesmo que ele tente escravizar a rotina. \u201cEu desarmo\/eu transformo\/eu insisto, eu me liberto\u201d. E vou fazendo uma ora\u00e7\u00e3o para quebrar essas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A pobreza tem o seu padr\u00e3o. E se uma pessoa da fam\u00edlia n\u00e3o perceber, aquilo continua por muitas gera\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea v\u00ea sociedades mais equilibradas, com muita mis\u00e9ria ainda, mas onde n\u00e3o h\u00e1 roubo e viol\u00eancia porque n\u00e3o existiu esse tipo de conduta desumana com as pessoas. Uma vez eu conversei com um taxista do Senegal e falei que o Brasil era lindo, mas sofre muito com a viol\u00eancia. J\u00e1 fui assaltada 10 vezes. Ele parou o carro e disse que n\u00e3o acreditava. Contou que o pa\u00eds dele tem uma mis\u00e9ria gigantesca, mas as pessoas dormem com a porta de casa aberta, ningu\u00e9m pega o que \u00e9 do outro.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma \u00fanica coisa, s\u00e3o v\u00e1rias. Meninas que viram as m\u00e3es serem espancadas e v\u00e3o continuar com namorados narcistas que v\u00e3o agredi-las da mesma maneira. Meninos que n\u00e3o foram cuidados e v\u00e3o bater nessas mulheres se vingando desse hist\u00f3rico. E tantos estupros, viol\u00eancias mascaradas que a gente s\u00f3 come\u00e7ou a falar a gora.<\/p>\n<p><strong>E qual \u00e9 a maior qualidade do Brasil?<br \/><\/strong>O povo \u00e9 f*da, \u00e9 sensacional. Eu fico sempre apaixonada, querendo levar gente para casa, adotar uma av\u00f3, ajudar n\u00e3o sei quem, fico desesperada. Vejo que \u00e9 um povo de muito car\u00e1ter. Porque a gente \u00e9 sacaneado o tempo todo. Muita corrup\u00e7\u00e3o, muito jeitinho \u2014 no sentido baixo e prec\u00e1rio da palavra. E isso nos leva para o buraco o tempo todo. Voc\u00ea sai de um buraco e cai em outro. \u00c9 preciso ter uma mente muito saud\u00e1vel para n\u00e3o pirar. Estar sempre respirando e insistindo.<\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Vanessa da Mata fala sobre rivalidade feminina e boicotes na ind\u00fastria musical: &#8216;Acho que evolu\u00edmos&#8217;<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++LEIA MAIS: Discografia Clara Nunes: como a cantora renovou o samba ao resgatar as ra\u00edzes africanas do estilo<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/musica\/vanessa-da-mata-retoma-cronica-brasileira-em-novo-album-sou-contadora-de-historias\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No caso de Vanessa da Mata, \u00e9 certeiro dizer que a for\u00e7a da arte nunca seca. Mais de duas d\u00e9cadas ap\u00f3s encantar o Brasil ao compor com Chico C\u00e9sar e ser interpretada por Maria Beth\u00e2nia, a criatividade da cantora de Alto Gar\u00e7as, no Mato Grosso, continua fluindo no \u00e1lbum Todas Elas, lan\u00e7ado em maio.\u00a0Ela d\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":22621,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-22620","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22620"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22620\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}