{"id":21416,"date":"2025-05-19T10:44:51","date_gmt":"2025-05-19T13:44:51","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/o-que-mais-me-impacta-na-serie-e-a-ideia-de-que-ninguem-se-salva-sozinho\/"},"modified":"2025-05-19T10:44:51","modified_gmt":"2025-05-19T13:44:51","slug":"o-que-mais-me-impacta-na-serie-e-a-ideia-de-que-ninguem-se-salva-sozinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/o-que-mais-me-impacta-na-serie-e-a-ideia-de-que-ninguem-se-salva-sozinho\/","title":{"rendered":"&#8216;O que mais me impacta na s\u00e9rie \u00e9 a ideia de que ningu\u00e9m se salva sozinho&#8217;"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>&#8220;Vou te contar uma coisa, mas voc\u00ea n\u00e3o pode contar pra ningu\u00e9m&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 meio-dia de uma segunda-feira de setembro de 2022, e <strong>Ricardo Dar\u00edn<\/strong> fuma na porta de um cinema em Belgrano, Buenos Aires. Acabam de exibir para a imprensa <em><strong>Argentina, 1985<\/strong><\/em>, o filme que, em pouco tempo, vai estremecer as bilheterias \u2014 e no qual ele \u00e9 o grande protagonista. Ele est\u00e1 ansioso com a estreia e, claro, demonstra orgulho, mas, poucos minutos depois, quando pergunto o que vem a seguir e quais s\u00e3o seus pr\u00f3ximos passos, algo muda em seu semblante. Um sorriso r\u00e1pido invade seu rosto e, com um leve movimento de pesco\u00e7o \u2014 como quem checa se ningu\u00e9m est\u00e1 ouvindo \u2014, ele se aproxima e sussurra no meu ouvido, com os olhos cheios de um otimismo azul-celeste:<br \/>&#8220;Estou filmando <em><strong>O\u00a0Eternauta<\/strong><\/em>. N\u00e3o conta pra ningu\u00e9m. A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 do <strong>Stagnaro<\/strong>. E t\u00e1 ficando uma loucura&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>A not\u00edcia era impactante. Pouco depois, voltando pra casa, comecei a pensar na ideia \u2014 e a primeira coisa que me veio \u00e0 cabe\u00e7a foi o enorme desafio que eles teriam pela frente. Filmar <em><strong>O Eternauta<\/strong><\/em> podia ser como tentar embrulhar uma girafa: algo imposs\u00edvel. Ou como escalar o Himalaia \u2014 algo t\u00e3o dif\u00edcil quanto \u00fanico. Desde sempre, desde que come\u00e7ou a circular o rumor, muitos anos atr\u00e1s, de que a obra can\u00f4nica de <strong>H\u00e9ctor Oesterheld<\/strong> poderia ganhar uma adapta\u00e7\u00e3o, o coment\u00e1rio que surgia automaticamente era sempre o mesmo: n\u00e3o tinha como n\u00e3o ser uma fa\u00e7anha. Tecnicamente e narrativamente, o projeto teria que ser desesperadamente ambicioso. Mas mais do que isso, <em><strong>O Eternauta<\/strong><\/em> era um mito, um texto sagrado que exigia uma \u00fanica coisa: estar \u00e0 altura.<\/p>\n<p>Trinta meses depois, sentado no jardim de um bar perto de sua casa, em Palermo, usando jeans (jaqueta e cal\u00e7a) e com o insepar\u00e1vel Marlboro nos l\u00e1bios, <strong>Dar\u00edn<\/strong> come\u00e7a a relembrar a longa travessia que ele e toda a equipe enfrentaram at\u00e9 concluir a primeira temporada da s\u00e9rie baseada na grande HQ argentina \u2014 que estreia no dia 30 de abril na <strong>Netflix<\/strong>. Aos 68 anos (&#8220;N\u00e3o sei como isso aconteceu&#8221;, ironiza), o grande ator argentino \u2014 protagonista de cl\u00e1ssicos como <em><strong>Nove Rainhas<\/strong><\/em> e <em><strong>O Segredo dos Seus Olhos<\/strong><\/em> \u2014 segue com a mesma eloqu\u00eancia e magnetismo que o tornaram um \u00edcone.<\/p>\n<p>\u201cFoi uma jornada muito profunda e muito enriquecedora\u201d, dispara. \u201cPorque a ess\u00eancia dessa hist\u00f3ria \u00e9 riqu\u00edssima. Imagina o que deve ter significado o surgimento desse quadrinho em 1957 \u2014 que, por acaso, \u00e9 o ano em que eu nasci. Ele apareceu e foi entrando no imagin\u00e1rio das pessoas, e acho que, no fundo, \u00e9 por causa do tema que aborda. D\u00e1 pra encontrar v\u00e1rias representa\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es, mas, na verdade, o que <em><strong>O Eternauta<\/strong><\/em> fala \u00e9 de algo que, pra todos n\u00f3s que temos um m\u00ednimo de sensibilidade, sempre martelou na cabe\u00e7a: o oposto da ideia de \u2018quem cuida do seu pr\u00f3prio quintal, se salva\u2019. Essa hist\u00f3ria mostra que n\u00e3o h\u00e1 como se salvar sozinho, que \u00e9 lado a lado, se importando e se preocupando com o que acontece com quem est\u00e1 ao seu lado.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria com a qual eu j\u00e1 sentia conex\u00e3o \u2014 como acho que acontece com grande parte da minha gera\u00e7\u00e3o \u2014, mas, pra ser sincero, eu nunca tinha lido ela inteira. Sabia do que se tratava. Quando esse projeto surgiu e comecei a entender o caminho que ele queria seguir, trazendo a narrativa pros dias de hoje, fiquei ainda mais empolgado. Quando me encontrei com o <strong>Bruno <\/strong>[<strong>Stagnaro<\/strong>], com a equipe de produ\u00e7\u00e3o, e come\u00e7amos a planejar tudo, ainda fui convidado a participar desde a g\u00eanese da ideia. A\u00ed, me joguei de cabe\u00e7a mesmo\u201d.<\/p>\n<p><strong>RS: \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o com caracter\u00edsticas excepcionais pra voc\u00ea. Se n\u00e3o me engano, \u00e9 a primeira vez que participa de algo que pisa no terreno da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, no dist\u00f3pico.<\/strong><\/p>\n<p>RD: Nunca, nunca mesmo. Isso aqui \u00e9 algo muito grande, muito intenso. A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica me deu um certo frio na barriga \u2014 ter que lidar com efeitos especiais pesados, lutar contra monstros, esse tipo de coisa. Mas, quando comecei a conhecer o <strong>Bruno<\/strong>, senti muito rapidamente que est\u00e1vamos bem alinhados, que nossos cora\u00e7\u00f5es batiam mais ou menos na mesma dire\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 um cara genial em muitos aspectos e, como profissional, nem se fala \u2014 \u00e9 daqueles que colocam o p\u00e9 no barro, que n\u00e3o trabalham no improviso.<\/p>\n<p><strong>RS: \u00c9 uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma hist\u00f3ria muito humana.<\/strong><\/p>\n<p>RD: Muito humana \u2014 quase que a gente nem tem o direito de cham\u00e1-la de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O que mais me empolgou foi justamente isso: \u00e9 uma hist\u00f3ria muito argentina. Voc\u00ea n\u00e3o faz ideia do quanto. Conforme ela vai se desdobrando, vai se identificando claramente com um sentimento que, talvez n\u00e3o seja exatamente nacional, mas que est\u00e1 profundamente ligado \u00e0s particularidades da argentinidade.<\/p>\n<p><strong>RS: \u00c0 nossa idiossincrasia.<\/strong><\/p>\n<p>RD: Exatamente. E essa fus\u00e3o entre uma hist\u00f3ria t\u00e3o argentina \u2014 pelos cen\u00e1rios, pela forma de falar, pelo sentimento \u2014 somada \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, cria um coquetel bem diferente. N\u00e3o quero exagerar, mas \u00e9 diferente. Estou com muita expectativa sobre como o p\u00fablico vai receber isso. Porque, quando o projeto come\u00e7ou, os f\u00e3s mais fan\u00e1ticos do <em><strong>Eternauta<\/strong><\/em> estavam completamente travados, tensos, pensando: \u201cIsso vai ser uma porcaria\u201d. T\u00f4 louco pra ver a cara de cada um desses, logo de cara.<\/p>\n<p><strong>RS: Porque \u00e9 quase uma bandeira sagrada.<\/strong><\/p>\n<p>RD: Exato. \u201cN\u00e3o mexe nisso, n\u00e3o encosta porque vai virar uma americaniza\u00e7\u00e3o barata.\u201d Tenho certeza de que pensaram isso \u2014 na verdade, escreveram isso nas redes. E, al\u00e9m disso, sempre tem um ou outro imbecil que comentou: \u201cComo assim o <strong>Dar\u00edn<\/strong> vai ser o <strong>Juan Salvo<\/strong>, se o <strong>Juan Salvo<\/strong> tem 30 anos?\u201d. Se precipitaram. N\u00e3o faziam ideia de qual era a proposta. E esse \u00e9 justamente um dos pontos mais importantes desse projeto: trazer a hist\u00f3ria pros nossos dias. Esses tamb\u00e9m quero ver.<\/p>\n<p><strong>RS: Como foi o processo de cria\u00e7\u00e3o do seu personagem?<\/strong><\/p>\n<p>RD: Foi um trabalho feito lado a lado com o <strong>Bruno<\/strong> e com os roteiristas, que fizeram um trabalho espetacular. A gente se reunia muitas vezes l\u00e1 em casa pra ler os roteiros, os rascunhos, e tentar juntos detectar algo que \u00e9 bem comum: uma coisa \u00e9 o que est\u00e1 escrito no papel, outra bem diferente \u00e9 quando isso passa pelo corpo e pela voz dos atores. Essa primeira etapa foi t\u00e3o intensa e t\u00e3o longa que eu aproveitei e sofri na mesma medida. Sofri porque, obviamente, n\u00e3o pude escapar de nada \u2014 foi uma entrega total e de alt\u00edssima exig\u00eancia, principalmente pra algu\u00e9m da minha idade. Era estar o tempo todo sob uma neve inventada.<\/p>\n<figure class=\"image\"><figcaption>O Eternauta. Ricardo Dar\u00edn. (Foto: Sebasti\u00e1n Arpesella\/Netflix)<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" data-end=\"112\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"112\" data-start=\"0\">RS: Por que voc\u00ea acha que a hist\u00f3ria de <em>O<\/em><em data-end=\"52\" data-start=\"38\"><em\/>Eternauta<\/em> continua atual, quase 70 anos depois de ter sido escrita?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1150\" data-start=\"114\">RD: Levando em conta que essa \u00e9 uma vers\u00e3o inspirada no original, eu diria que o que mais me impacta \u00e9 o resgate da ideia do coletivo, do grupo. A no\u00e7\u00e3o de que ningu\u00e9m se salva sozinho. E isso, se a gente transporta pra hoje, pra sociedade em que vivemos, \u00e9 algo que d\u00e1 muito o que pensar \u2014 porque j\u00e1 faz tempo que vivemos num clima onde parece que, se voc\u00ea cuidar s\u00f3 do seu pr\u00f3prio quintal, est\u00e1 tudo certo. E a realidade foi nos mostrando que isso n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 verdade, como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 suficiente nem funcional. Esse foco excessivo no individualismo n\u00e3o apenas te afasta dos outros, n\u00e3o apenas te faz parecer indiferente e sem sensibilidade diante do que acontece com quem est\u00e1 ao seu redor, como, do ponto de vista t\u00e1tico e estrat\u00e9gico, tamb\u00e9m n\u00e3o funciona. Ent\u00e3o, o que acontece no<em data-end=\"912\" data-start=\"898\"><strong>Eternauta<\/strong><\/em>? De certo modo, a hist\u00f3ria prop\u00f5e que \u2014 por necessidade ou por falta de op\u00e7\u00e3o \u2014 a \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel \u00e9 estar lado a lado, atento ao que o outro precisa. E essa energia circula, ela vai e volta. Me parece uma met\u00e1fora gentil, no m\u00ednimo.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1222\" data-start=\"1152\"><strong data-end=\"1222\" data-start=\"1152\">RS: E o que voc\u00ea acha que viram em voc\u00ea para interpretar o Juan Salvo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1747\" data-start=\"1224\">RD: Al\u00e9m do meu f\u00edsico de fisiculturista? (risos) Olha, sinceramente, \u00e9 muito dif\u00edcil entrar na cabe\u00e7a de quem conduz um projeto e come\u00e7a a chamar as pessoas \u2014 saber exatamente os motivos por tr\u00e1s de cada escolha. No meu caso, sempre que estive desse lado da responsabilidade \u2014 e n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil \u2014, o que a gente busca nem sempre tem a ver com apar\u00eancia f\u00edsica. \u00c0s vezes o foco est\u00e1 no temperamento, no car\u00e1ter, na capacidade\u2026 algum tipo de conex\u00e3o que te ofere\u00e7a, minimamente, uma garantia pra tocar um projeto desse tamanho.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"47\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"47\" data-start=\"0\">RS: Ser\u00e1 que viram algo da sua &#8220;argentinidade&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"940\" data-start=\"49\">RD: Sim, provavelmente. Mas tamb\u00e9m existem outros atores que poderiam representar essa argentinidade com for\u00e7a total. N\u00e3o sei&#8230; talvez seja uma mistura entre ter os p\u00e9s firmes nesse ch\u00e3o t\u00e3o argentino e, ao mesmo tempo, a possibilidade de alcan\u00e7ar uma proje\u00e7\u00e3o mais ampla \u2014 porque os f\u00e3s do <strong><em data-end=\"351\" data-start=\"337\">Eternauta<\/em><\/strong> est\u00e3o espalhados pelo mundo todo, at\u00e9 na \u00c1sia. Acho que a explica\u00e7\u00e3o pode estar no fato de que, quando surgiu, <strong><em>O<\/em><em data-end=\"477\" data-start=\"463\">Eternauta<\/em><\/strong> era uma obra sem pretens\u00e3o alguma, era como uma garrafa jogada ao mar com uma mensagem dentro. Come\u00e7ou de forma super prec\u00e1ria, e aos poucos foi conquistando gente, ganhando interesse, crescendo. Imagino que tenha sido um impacto enorme o surgimento de um quadrinho latino-americano \u2014 argentino, especificamente \u2014 com esse tipo de hist\u00f3ria. E esse \u00e9 outro dos grandes m\u00e9ritos: \u00e9 nosso. Essa mistura intensa de <em data-end=\"903\" data-start=\"888\">argentinidade<\/em> com fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em alto n\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"99\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"99\" data-start=\"0\">RS: Agora que voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 um especialista, o que acha que representa hoje a imagem de <em>O<\/em><em data-end=\"96\" data-start=\"82\"><em>\u00a0E<\/em>ternauta<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1182\" data-start=\"101\">RD: \u00c9 dif\u00edcil medir exatamente o que essa figura representa hoje, mas acredito que temos uma grande chance \u2014 do jeito que tratamos e trabalhamos essa hist\u00f3ria \u2014 de alcan\u00e7ar um p\u00fablico jovem muito amplo ao longo do caminho, al\u00e9m daqueles que j\u00e1 conhecem <strong><em>O <\/em><em data-end=\"364\" data-start=\"350\"><em>E<\/em>ternauta<\/em><\/strong> h\u00e1 tempos. Principalmente porque essa vers\u00e3o foi atualizada, trazida pros dias de hoje. Acho que vai haver uma identifica\u00e7\u00e3o imediata com tudo o que acontece, onde acontece e como acontece. Tenho esperan\u00e7a de que o p\u00fablico mais jovem, mesmo sem conhecer a origem dos quadrinhos, se interesse, goste e se conecte com a hist\u00f3ria. \u00c9 uma narrativa cheia de suspense, de mist\u00e9rio, de tens\u00e3o. No fundo, trata da sobreviv\u00eancia \u2014 de como lidamos com um ataque, se \u00e9 que d\u00e1 pra chamar assim, vindo de algo que a gente n\u00e3o entende nem controla. O que acontece com a gente? Como reagimos? A gente entra em p\u00e2nico, se desespera, ou recorre n\u00e3o s\u00f3 aos nossos instintos, mas tamb\u00e9m \u00e0s nossas capacidades, ao que conseguimos somar em grupo? E a\u00ed volto \u00e0 ideia do coletivo, do grupo, do estar junto pra tentar superar uma cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p><iframe title=\"Entrevista Rolling Stone con Ricardo Dar\u00edn sobre la serie El Eternauta\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_11QWP8lJeo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>H\u00e1 uma entrevista antiga com <strong>William Friedkin<\/strong> (diretor de <strong><em data-end=\"75\" data-start=\"58\">Opera\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a<\/em><\/strong>, entre outros sucessos) em que ele fala sobre os diferentes estilos de atua\u00e7\u00e3o. <strong>Friedkin<\/strong> conta que trabalhou com <strong>Tommy Lee Jones<\/strong> e <strong>Benicio del Toro<\/strong> em <strong><em data-end=\"237\" data-start=\"227\">Ca\u00e7ado<\/em><\/strong>\u00a0(<strong><em data-end=\"251\" data-start=\"239\">The Hunted<\/em><\/strong>, 2003), dois atores com m\u00e9todos absolutamente opostos. \u201cO <strong>Tommy<\/strong> era um cara brilhante. Eu n\u00e3o precisava dizer nada. S\u00f3 indicava: \u2018Voc\u00ea entra por aqui, vai at\u00e9 ali, depois sai por l\u00e1\u2019. A\u00ed ele chamava meu assistente, pedia para marcar os pontos no ch\u00e3o. E pronto: filmava. O <strong>Del Toro<\/strong> era o completo oposto. \u2018Por que eu tenho que entrar por essa porta?\u2019, ele perguntava. \u2018O que o meu personagem pensava quando tinha 12 anos?\u2019. Um absurdo\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"28\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"28\" data-start=\"0\">RS: Que tipo de ator voc\u00ea \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"305\" data-start=\"30\">RD: Conhe\u00e7o os dois estilos e, hoje em dia, j\u00e1 percebo no ar qual \u00e9 qual. Tem atores que precisam entender tudo. Acho que todo ator precisa entender, mas alguns captam r\u00e1pido, enquanto outros precisam de mais detalhes. Eu, sinceramente, posso ser dos dois, depende muito do caso.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"432\" data-start=\"307\"><strong data-end=\"432\" data-start=\"307\">RS: Um dos seus personagens mais ic\u00f4nicos, que foi o de <em>A<\/em><em data-end=\"370\" data-start=\"361\"><em\/>Aura<\/em>, \u00e9 bem particular, bem diferente do que voc\u00ea vinha fazendo\u2026<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"458\" data-start=\"434\">RD: Totalmente inexpressivo.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"473\" data-start=\"460\"><strong>RS: Inescrut\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"910\" data-start=\"475\">RD: Esses caras s\u00e3o perigosos porque voc\u00ea n\u00e3o sabe pra onde eles v\u00e3o, o que se passa na cabe\u00e7a deles. Trabalhamos muito com o [diretor <strong>Fabi\u00e1n<\/strong>] <strong>Bielinsky<\/strong> naquela \u00e9poca. Fic\u00e1vamos sempre perguntando: como \u00e9 esse tipo de pessoa? Como \u00e9 um paciente epil\u00e9ptico? Pesquisamos bastante. Ele investigou muito mais do que eu, e descobrimos que cada um \u00e9 diferente. N\u00e3o existe um padr\u00e3o, uma metodologia, uma forma de encaixar todos num mesmo perfil.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"345\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"345\" data-start=\"0\">RS: Falando de atua\u00e7\u00e3o, reconhecimento e formas de viver, tem uma frase que est\u00e1 escrita na entrada da quadra central de Wimbledon, logo antes dos jogadores entrarem. \u00c9 do Rudyard Kipling e diz: \u201cSe voc\u00ea conseguir encontrar triunfo e desastre, trate esses dois impostores da mesma forma\u201d. Como voc\u00ea processa isso? Como lida com a quest\u00e3o do ego?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1201\" data-start=\"347\">RD: \u00c9 exatamente isso. Pessoas que t\u00eam trabalhos expostos ao p\u00fablico \u2014 artistas, m\u00fasicos, atletas, funcion\u00e1rios p\u00fablicos \u2014 t\u00eam uma luta especial contra o ego. Existe uma tend\u00eancia forte, meio irracional, mais emocional, de se valorizar. Aquele tapinha nas costas, ouvir \u201cVoc\u00ea \u00e9 um fen\u00f4meno, mestre, craque, fera, m\u00e1quina\u201d. Quando voc\u00ea come\u00e7a a receber umas duzentas dessas por dia, algumas pessoas criam um ant\u00eddoto, outras n\u00e3o. E outras, acho eu, acabam acreditando mesmo. Chegam em casa e pensam que s\u00e3o um fen\u00f4meno. Se comportam como se fossem um fen\u00f4meno com o parceiro, com os filhos, a fam\u00edlia, os amigos. Eu j\u00e1 percebo isso faz tempo. Luto contra isso a vida toda. \u201cLuto\u201d \u00e9 modo de dizer, porque \u00e9 algo meu, um problema meu. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste de elogio, nem que n\u00e3o goste de ouvir \u201cVoc\u00ea mandou muito bem\u201d. Mas da\u00ed a acreditar que voc\u00ea \u00e9 especial\u2026<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1379\" data-start=\"1203\"><strong data-end=\"1379\" data-start=\"1203\">RS: Lembro que voc\u00ea contou uma frase que seu pai, que tamb\u00e9m foi ator, dizia \u2014 que \u00e9 o oposto do que estamos falando \u2014 algo como: \u201cN\u00e3o acredite em nada, porque tudo \u00e9 mentira\u201d.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1723\" data-start=\"1381\">RD: Sim, sim. Meu pai dizia: \u201cVoc\u00ea tem que saber que n\u00e3o pode acreditar em nada porque nada merece sua cren\u00e7a, mas apesar disso, voc\u00ea acredita, sen\u00e3o perde a melhor parte\u201d. Meu pai tinha essas frases que para mim s\u00e3o uma esp\u00e9cie de B\u00edblia. Ele tamb\u00e9m falava sobre o material, a posse: \u201cVoc\u00ea tem que andar leve, n\u00e3o se prenda \u00e0s coisas materiais\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"121\" data-start=\"0\"><strong>RS: Voc\u00ea j\u00e1 contou que, quando seu pai morreu, foi buscar as coisas dele no quarto onde vivia e que ele quase n\u00e3o tinha nada.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"840\" data-start=\"123\">RD: N\u00e3o tinha nada mesmo. Quando ele faleceu, fomos desmontar a casa e n\u00e3o tinha quase nada, ou seja, o que ele dizia era verdade. Ele tinha duas camisas, um par de sapatos, duas cal\u00e7as, uma jaqueta que eu nunca vou esquecer. Era de veludo cotel\u00ea, com riscas largas, bot\u00f5es que pareciam de madeira. Esse era o casaco dele. Lembro que abri a gaveta dos talheres e tinha duas colheres, tr\u00eas garfos, duas facas, claro que tinha um saca-rolhas, e s\u00f3. O que mais valioso que levamos da casa foi uma caixa de sapatos com os escritos dele, cadernos, folhas soltas com coisas dele. Nada mais. Alguns documentos, a carteira de piloto, porque ele era aviador, a carteira de ator, a carteira de motorista. Essas eram as posses dele.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"910\" data-start=\"842\"><strong>RS: Um bo\u00eamio daqueles de antigamente, de uma \u00e9poca que n\u00e3o existe mais.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"973\" data-start=\"912\">RD: Sim, porque hoje at\u00e9 os bo\u00eamios s\u00e3o obrigados a ter coisas&#8230;<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"146\" data-start=\"114\"><strong data-end=\"146\" data-start=\"114\">RS: Estar registrado na Receita Federal.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1122\" data-start=\"148\">RD: Sim, isso nunca foi uma preocupa\u00e7\u00e3o pra mim, por isso sempre digo que sou um privilegiado, um sortudo. Desde pequeno, sempre teve algu\u00e9m que me chamou, que me convidou, que me estendeu a m\u00e3o \u2014 at\u00e9 gente que bancou a minha presen\u00e7a, que chegou a brigar com outro dizendo: \u201cEsse cara \u00e9 um idiota\u201d, s\u00f3 pra me defender. Mas a espera&#8230; a espera \u00e9 traum\u00e1tica. Voc\u00ea come\u00e7a a duvidar de si mesmo, come\u00e7a a pensar: \u201cSer\u00e1 que eu n\u00e3o presto? Ser\u00e1 que n\u00e3o dou conta? Ser\u00e1 que n\u00e3o sirvo pra isso?\u201d. E, na real, n\u00e3o \u00e9 bem assim. Esse meio \u00e9 muito duro, muito perverso. Hoje em dia, a gente v\u00ea coisas que irritam de verdade: pessoas que viram fen\u00f4menos de massa, que movimentam dinheiro e multid\u00f5es, e que s\u00e3o contratadas pelas marcas s\u00f3 porque t\u00eam 14 milh\u00f5es de seguidores. A\u00ed voc\u00ea pensa: \u201cT\u00e1, mas o que essa pessoa sabe fazer de fato?\u201d. \u00c9 perverso. Pra quem tem talento, t\u00e1 esperando uma chance e vive imerso nesse universo onde v\u00ea isso acontecer todo dia, deve ser uma bomba na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"130\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"130\" data-start=\"0\">RS: Como voc\u00ea enxerga essa \u00e9poca em que mudou a forma de consumir? Pra gente, antes, ir ao cinema era um program\u00e3o, uma cerim\u00f4nia.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"752\" data-start=\"132\">RD: Hoje em dia, ir ao cinema virou um sacrif\u00edcio. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o indo. E como \u00e9 que v\u00e3o? Se em casa pagam uma plataforma de streaming e t\u00eam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o tudo o que quiserem ver, quando quiserem. V\u00e3o sair pra qu\u00ea? Al\u00e9m disso, sair virou sin\u00f4nimo de gasto \u2014 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o ingresso, \u00e9 comer uma pizza, jantar fora&#8230; A maioria n\u00e3o tem como bancar isso. E o triste \u00e9 que estamos esquecendo a diferen\u00e7a brutal que existe entre assistir a um filme em casa e ver no cinema. \u00c9 outra experi\u00eancia. De tamanho, de qualidade, de impacto sensorial. Nesse contexto, quem sai fortalecido \u00e9 o teatro. Porque o teatro n\u00e3o tem substituto.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"839\" data-start=\"754\"><strong data-end=\"839\" data-start=\"754\">RS: \u00c9 por isso que voc\u00ea continua fazendo teatro? Porque virou uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"928\" data-start=\"841\">RD: Sim, o teatro \u00e9 a resist\u00eancia. \u00c9 a trincheira do ator. A gente n\u00e3o vai sair dali nunca.<\/p>\n<figure class=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"502\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/rollingstone.uol.com.br\/media\/uploads\/2025\/05\/ee_20230622_sc3x37_0024_r_v3.jpg\" width=\"773\"\/><figcaption>Ricardo Dar\u00edn como Juan Salvo em O Eternauta. (Foto: Marcos Ludevid\/Netflix)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Buenos Aires, outubro de 2013, Teatro Maipo. Em cartaz: <em><strong>Cenas de um casamento<\/strong><\/em>, cl\u00e1ssico de <strong>Ingmar Bergman<\/strong>, com <strong>Ricardo Dar\u00edn<\/strong>, <strong>Valeria Bertuccelli<\/strong> e dire\u00e7\u00e3o de <strong>Norma Aleandro<\/strong>.<\/p>\n<p>Antes do p\u00fablico se acomodar, no sagu\u00e3o, a voz inconfund\u00edvel de <strong>Dar\u00edn<\/strong> ecoa pelos alto-falantes pedindo, gentilmente, que todos entrem na sala e desliguem seus celulares. J\u00e1 com a plateia completa e o pano prestes a subir, a voz retorna: insiste que os aparelhos sejam desligados e que, mesmo quem j\u00e1 o fez, confira mais uma vez. \u201cVoc\u00eas n\u00e3o sabem o qu\u00e3o insuportavelmente perturbador \u00e9 estar em cena e ouvir um celular tocar. Muito obrigado\u201d. As luzes se apagam. O pano sobe. A pe\u00e7a come\u00e7a.<\/p>\n<p>A obra de <strong>Bergman<\/strong> n\u00e3o \u00e9 leve. \u00c9 densa, inquieta \u2014 um melodrama universal. No auge da tens\u00e3o dram\u00e1tica, quando os protagonistas enfrentam o ponto de virada do relacionamento, tentando decidir se devem ou n\u00e3o se separar, o som de um celular rompe o sil\u00eancio, vindo do meio da plateia. Pela precis\u00e3o do timing \u2014 o toque come\u00e7a segundos ap\u00f3s uma pergunta crucial de <strong>Bertuccelli<\/strong> \u2014, parece at\u00e9 parte do roteiro. Mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Estou num camarote e olho direto para a origem do som: ningu\u00e9m se mexe. O celular continua tocando. O desconforto aumenta. A atmosfera se rompe. Em cena, os \u00fanicos dois atores ficam em sil\u00eancio. <strong>Dar\u00edn<\/strong>, recostado numa poltrona, fecha os olhos. <strong>Bertuccelli<\/strong> olha para o ch\u00e3o. O telefone toca por mais de 15 segundos \u2014 uma eternidade. Ningu\u00e9m desliga. O clima \u00e9 insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Finalmente, o toque cessa. Ent\u00e3o <strong>Dar\u00edn<\/strong>, o mesmo que havia nos pedido para desligarmos os celulares, d\u00e1 um sobressalto teatral, como quem acorda de um sonho, e solta: \u201cPutz, dormi e sonhei que tinha um celular tocando&#8230; ainda bem que era s\u00f3 sonho\u201d. A plateia explode em gargalhadas \u2014 uma mistura de al\u00edvio e catarse.<\/p>\n<p>Meia hora depois, a convite do ator, des\u00e7o aos camarins para cumpriment\u00e1-lo. Assim que entro no por\u00e3o apertado, cheio de cen\u00e1rios e adere\u00e7os, vejo <strong>Dar\u00edn<\/strong> vindo em minha dire\u00e7\u00e3o, sem camisa, carregando-a no ombro. Atr\u00e1s dele, v\u00eam <strong>Bertuccelli<\/strong> e <strong>Aleandro<\/strong>. O rosto de <strong>Dar\u00edn<\/strong> est\u00e1 transtornado. Nunca o vi assim. \u201cFilhos da puta&#8230; s\u00e3o uns filhos da puta&#8230;\u201d \u2014 repete.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o est\u00e1 com raiva, mas claramente afetado. O incidente n\u00e3o passou batido. <strong>Aleandro<\/strong> e <strong>Bertuccelli<\/strong> o acompanham em sil\u00eancio. Sem nem me cumprimentar, olha nos meus olhos e desabafa: \u201cTava dif\u00edcil hoje. Tinha uma energia estranha. Mas vou te dizer: depois daquela piada, tudo fluiu. Virou\u201d. <strong>Aleandro<\/strong> concorda com a cabe\u00e7a: \u201cVoc\u00ea foi genial. Aquilo salvou tudo\u201d.<\/p>\n<p><strong>RS: Voc\u00ea se lembra disso?<\/strong><\/p>\n<p>RD: Sim, claro. Situa\u00e7\u00f5es assim, tenho aos montes. \u00c9 algo que acontece muito. Vejo direto as telinhas que se acendem de repente. \u00c0s vezes, eu perco a paci\u00eancia. J\u00e1 parei apresenta\u00e7\u00f5es por causa disso.<\/p>\n<p><strong>RS: E o que voc\u00ea diz para as pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>RD: Falo: \u201cOlha, tem alguma coisa que voc\u00ea n\u00e3o entendeu e que est\u00e1 nos fazendo mal, n\u00e3o s\u00f3 a n\u00f3s aqui no palco, mas a todos os outros tamb\u00e9m\u201d. O p\u00fablico adora um escracho, pede sangue. Mas com o tempo voc\u00ea percebe que podem existir mil motivos para a pessoa n\u00e3o ter desligado o celular, ent\u00e3o tento n\u00e3o ser grosso. S\u00f3 que, sim, fico mal. Porque irrita de verdade.<\/p>\n<p>Tem uma que eu fa\u00e7o bastante: finjo que o celular que est\u00e1 tocando \u00e9 o meu, come\u00e7o a me apalpar, como se estivesse procurando o aparelho. Todo mundo entende o recado. Essa sempre funciona. Tamb\u00e9m tem aquele caso do celular que toca e a pessoa desliga na hora \u2014 escapou, tudo bem, n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo, n\u00e3o merece guilhotina.<\/p>\n<p>Por exemplo, uma das mais recentes aconteceu na temporada passada, em Barcelona. \u00daltima noite da pe\u00e7a. A fun\u00e7\u00e3o correu linda, chega a cena final, um momento pequeno, \u00edntimo, quando os personagens se reencontram, trocam um beijo, dizem algo bonito&#8230; De repente, vejo uma movimenta\u00e7\u00e3o estranha na plateia: um cara ca\u00eddo no corredor, dez pessoas em volta, acendem as luzes da sala \u2014 o homem estava tendo um infarto.<\/p>\n<p>A gente ficou paralisado. A <strong>Andrea Pietra<\/strong>, minha parceira de cena, me perguntou: \u201cE agora, o que a gente faz?\u201d \u2014 Isso \u00e9 algo \u00fanico do teatro: \u00e9 perigoso, tudo pode acontecer, \u00e9 vertiginoso. Chamamos uma ambul\u00e2ncia, a fun\u00e7\u00e3o ficou parada uns quinze minutos. Levaram o homem. Por sorte, depois nos contaram que ele foi atendido a tempo, ficou bem, se salvou.<\/p>\n<p>O engra\u00e7ado \u00e9 que, quando fomos retomar a pe\u00e7a, a <strong>Negra<\/strong> me perguntou: \u201cOnde a gente recome\u00e7a?\u201d E eu puxei de volta a cena que tinha sido interrompida. Em certo momento, ela solta: \u201cIsso me d\u00e1 um pouco de medo\u201d. E eu, que sou um idiota, respondo: \u201cMedo? Medo foi o que a gente acabou de passar agora!\u201d<\/p>\n<p>Porque \u00e9 isso, foi uma experi\u00eancia coletiva. N\u00e3o aconteceu s\u00f3 conosco, atores. Aconteceu com todos ali presentes. Todos ficamos preocupados, todos ficamos assustados. Isso \u00e9 o teatro: debaixo daquele teto, estamos todos vivendo a mesma coisa.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"107\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"107\" data-start=\"0\">RS: Como voc\u00ea continua encontrando prazer em fazer a mesma pe\u00e7a tantas noites seguidas? Como funciona isso?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"559\" data-start=\"109\">RD: \u00c9 que nunca \u00e9 igual. Sim, claro, tem repeti\u00e7\u00e3o, o texto \u00e9 o mesmo. Mas a gente nunca fala igual, sempre acontece algo diferente, voc\u00ea est\u00e1 num estado de esp\u00edrito diferente. J\u00e1 me aconteceram coisas bem marcantes\u2026 \u00c0s vezes, sinceramente, n\u00e3o d\u00e1 vontade de ir. Voc\u00ea pensa: \u201cPuta que pariu, tenho que ir agora, t\u00e1 chovendo, um frio do caramba, tenho que ir at\u00e9 l\u00e1 andando\u2026\u201d \u2014 e olha que eu nem tenho carro, principalmente na Espanha, fa\u00e7o tudo a p\u00e9.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"985\" data-start=\"561\">Voc\u00ea chega, come\u00e7a a entrar nas exig\u00eancias do personagem, coloca o figurino, encontra a equipe, conversa com um e com outro, come\u00e7a a tocar a m\u00fasica\u2026 E a\u00ed pisa no palco. E ali, naquele instante, \u00e9 como se fosse uma salva\u00e7\u00e3o \u2014 uma salva\u00e7\u00e3o de voc\u00ea mesmo. S\u00e3o duas horas em que voc\u00ea se esquece de quem \u00e9. J\u00e1 fiz apresenta\u00e7\u00f5es com febre alta, e s\u00f3 fui lembrar que estava doente depois que acabou. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o muito estranha.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1187\" data-start=\"987\"><strong data-end=\"1016\" data-start=\"987\">RS: \u00c9 melhor que jogar t\u00eanis? [Dar\u00edn \u00e9 fan\u00e1tico por t\u00eanis. De fato, assim que terminou a entrevista, abriu um app no celular para ver o resultado de Francisco Cer\u00fandolo, que jogava naquela tarde]<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1550\" data-start=\"1189\">RD: Sim, porque ali voc\u00ea est\u00e1 jogando de ser outro. \u00c9 um n\u00edvel de foco muito alto, como no t\u00eanis, no esqui, em qualquer esporte. Voc\u00ea tem um objetivo, est\u00e1 pensando s\u00f3 naquilo e n\u00e3o sobra muito espa\u00e7o mental pra pensar nos seus problemas. Ent\u00e3o voc\u00ea se salva de si mesmo por um tempo, se desliga dos seus pepinos. \u00c9 uma salva\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o se parece com mais nada.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1822\" data-start=\"1552\">Al\u00e9m disso, tenho a sorte de, nos \u00faltimos anos, estar dividindo o palco com a <strong>Negra Pietra<\/strong>, que \u00e9 uma usina de energia constante. Acho que a gente ainda faz essa pe\u00e7a por causa dela, n\u00e3o por mim. Porque, al\u00e9m de ser uma grande atriz, \u00e9 algu\u00e9m que tem gratid\u00e3o pela vida.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"59\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"59\" data-start=\"0\">RS: Essa pe\u00e7a, em particular, fala sobre um tema universal.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"736\" data-start=\"61\">RD: Sim. A identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 imediata. \u00c9 uma pe\u00e7a onde o <strong>Bergman<\/strong> se permitiu dizer coisas que normalmente ningu\u00e9m diz. Meu personagem, em certo momento, chega a dizer que detesta as filhas. Ningu\u00e9m fala isso em voz alta. E ele explica por qu\u00ea \u2014 e, racionalmente, faz sentido: diz que elas s\u00e3o ego\u00edstas, mesquinhas, briguentas, ingratas. Quantas pessoas n\u00e3o pensam isso, mas nem se permitem formular esse pensamento? Ele teve a coragem de colocar isso em cena. \u00c9 algo que incomoda. Sempre digo: essa n\u00e3o \u00e9 uma com\u00e9dia \u2014 \u00e9 uma \u201cincom\u00e9dia\u201d. \u00c9 desconfort\u00e1vel. E eu vejo o que acontece na plateia: os casais, as rea\u00e7\u00f5es, o sil\u00eancio\u2026 mais at\u00e9 do que os coment\u00e1rios que escuto na sa\u00edda.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"757\" data-start=\"738\"><strong data-end=\"757\" data-start=\"738\">RS: \u00c9 perturbadora.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1117\" data-start=\"759\">RD: Lembro de uma vez em que o <strong>Diego<\/strong> [<strong>Maradona<\/strong>] foi assistir \u00e0 pe\u00e7a, numa dessas rela\u00e7\u00f5es que ele teve depois de se separar da <strong>Claudia<\/strong>. Depois ele desceu at\u00e9 os camarins e me disse [<strong>Dar\u00edn<\/strong> imita a voz rouca e o sotaque caracter\u00edstico de <strong>Maradona<\/strong>]: \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o me avisou que era sobre isso, irm\u00e3o?\u201d. Hahaha. A situa\u00e7\u00e3o mexeu com ele. Pegou ele no contrap\u00e9.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1162\" data-start=\"1119\"><strong data-end=\"1162\" data-start=\"1119\">RS: Que encontro, n\u00e9? Bergman com Maradona\u2026<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1252\" data-start=\"1164\">RD: Nem me fale. <strong>Bergman<\/strong> j\u00e1 era um neg\u00f3cio de outro mundo \u2014 e o <strong>Diego<\/strong>, ent\u00e3o, nem se fala.<\/p>\n<figure class=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"1000\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/rollingstone.uol.com.br\/media\/uploads\/2025\/05\/arp_2024_11_n0003_ricardo_darin_el_eternauta_00443-r.jpg\" width=\"650\"\/><figcaption>Foto: Sebasti\u00e1n Arpesella\/Netflix<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" data-end=\"296\" data-start=\"0\">No mesmo dia e quase no mesmo hor\u00e1rio da entrevista com <strong>Dar\u00edn<\/strong>, acontecia nos arredores do Congresso uma marcha de aposentados, apoiada por torcedores de diversos clubes, que terminou em uma repress\u00e3o brutal e com o fot\u00f3grafo <strong>Pablo Grillo<\/strong> gravemente ferido. O clima nas ruas n\u00e3o era dos melhores.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"592\" data-start=\"298\">Em outra ocasi\u00e3o, uma declara\u00e7\u00e3o sua sobre as bolsas da <strong>Cristina <\/strong>[<strong>Kirchner<\/strong>] gerou um rebuli\u00e7o midi\u00e1tico que lhe trouxe muita ansiedade \u2014 metade do pa\u00eds se voltou contra ele, algo at\u00e9 ent\u00e3o impens\u00e1vel. Ainda que hoje pese mais as palavras, <strong>Dar\u00edn<\/strong> n\u00e3o se esquiva da realidade conturbada que atravessa o pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"40\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"40\" data-start=\"0\">RS: Como voc\u00ea enxerga a situa\u00e7\u00e3o social?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1011\" data-start=\"42\">RD: Eu n\u00e3o sou otimista por natureza. N\u00e3o acho que as coisas v\u00e3o melhorar \u2014 e n\u00e3o s\u00f3 aqui, em lugar nenhum do mundo. Os sinais que recebo n\u00e3o v\u00eam de pessoas gentis, amorosas, sens\u00edveis, que estejam lutando pelo bem comum. Acho que estamos interpretando mal as situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sou otimista, mas tento ser positivo. N\u00e3o gosto de ficar dramatizando, dizendo que est\u00e1 tudo uma merda. Acho que temos um direito \u2014 e um dever \u2014 de tentar resgatar o que \u00e9 poss\u00edvel dentro do contexto, da conjuntura atual. As pessoas est\u00e3o ouvindo, est\u00e3o prestando aten\u00e7\u00e3o. Me parece que estamos num momento em que precisamos de encorajamento. J\u00e1 sa\u00edmos de outras crises \u2014 por que n\u00e3o sair\u00edamos dessa? Vamos sair como povo. Mas tenho minhas d\u00favidas tamb\u00e9m, porque a gente costuma trope\u00e7ar na mesma pedra, como se n\u00e3o aprend\u00eassemos nunca. Algu\u00e9m disse uma vez que somos um povo adolescente \u2014 e essa frase ficou ecoando na minha cabe\u00e7a. Ser\u00e1 que a gente n\u00e3o est\u00e1 lendo as coordenadas de forma correta?<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1118\" data-start=\"1013\"><strong data-end=\"1118\" data-start=\"1013\">RS: Quando fala em trope\u00e7ar na mesma pedra, voc\u00ea se refere a ver padr\u00f5es que se repetem desde os anos 90?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1828\" data-start=\"1120\">RD: Claro. Mas, no fundo, o que tenho \u00e9 uma esp\u00e9cie de desencanto, n\u00e3o s\u00f3 com o comportamento coletivo, mas com a classe pol\u00edtica. Parece que o servi\u00e7o p\u00fablico deixou de ser algo honroso \u2014 agora est\u00e1 a servi\u00e7o de outras coisas. Talvez eu seja ing\u00eanuo, mas acredito que exista gente que acorda de manh\u00e3, que ocupa cargos p\u00fablicos e realmente sai pra batalha tentando melhorar a vida das pessoas. Mas acho que s\u00e3o poucos. Porque a sensa\u00e7\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica virou apego ao poder. Est\u00e3o agarrados ali, tentando ver como se ajeitam. N\u00e3o gosto dessas sinaliza\u00e7\u00f5es, e acho que o povo tamb\u00e9m percebe. A necessidade est\u00e1 escancarada, cada vez maior. Eu choro, vejo fam\u00edlias morando na rua e fico fora de mim.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"33\" data-start=\"0\"><strong data-end=\"33\" data-start=\"0\">RS: Muita gente revirando o lixo.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"669\" data-start=\"35\">RD: \u00c9 inacredit\u00e1vel. Voc\u00ea se pergunta: \u201cComo pode ser, nesse pa\u00eds?\u201d. A gente tem potencial para gerar riqueza para 400 milh\u00f5es de pessoas \u2014 e somos 45 milh\u00f5es. Como pode ter gente revirando lixo? De onde vem isso? Estamos em queda livre h\u00e1 muito tempo. Como se sai disso? N\u00e3o quero ser negativo, mas sinceramente n\u00e3o sei como as pessoas est\u00e3o conseguindo hoje em dia ir at\u00e9 uma farm\u00e1cia. Eu mesmo vou comprar alguma coisa e olho para o lado: como essa pessoa vai pagar? Com o qu\u00ea? Como algu\u00e9m consegue pagar por rem\u00e9dios, com o pre\u00e7o que est\u00e3o? Como um cara com dois filhos alimenta a fam\u00edlia? Me explica. Eu quero que algu\u00e9m me explique.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"693\" data-start=\"671\"><strong data-end=\"693\" data-start=\"671\">RS: \u00c9 incompreens\u00edvel.<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"996\" data-start=\"695\">RD: E \u00e9 porque estamos acostumados com a bota na cabe\u00e7a. Com esse discurso de \u201cvamos ver\u201d, \u201cvai melhorar\u201d. \u00c9 aquilo que te dizia antes: os fatores macroecon\u00f4micos, um indicador positivo, o <strong>Merval<\/strong>, o que quiser. Mas quando isso chega na gente? Quando que a popula\u00e7\u00e3o sente isso? A verdade \u00e9 que eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"180\" data-start=\"107\"><strong data-end=\"180\" data-start=\"107\">RS: Bom, vamos falar de coisas mais bonitas. Voc\u00ea sente falta do Diego?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"365\" data-start=\"182\">[<strong>Dar\u00edn<\/strong> demora alguns segundos para responder. Por um breve instante, olha para um ponto indefinido. Parece que uma cavalcade de emo\u00e7\u00f5es dispara dentro dele. Seus olhos se umedecem].<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1534\" data-start=\"367\">RD: Com ele, acontece comigo uma coisa que acontece com poucas pessoas. Aconteceu com o <strong>Bielinsky<\/strong>, com alguns familiares, amigos, com poucas pessoas mesmo. Eu n\u00e3o consigo me dar conta de que ele n\u00e3o est\u00e1 mais. Me recuso a aceitar. Tenho todos os n\u00fameros anotados aqui no celular. Tenho o do <strong>Bielinsky<\/strong> anotado e n\u00e3o consigo apagar. \u00c9 uma bobagem, mas me parece que n\u00e3o posso fazer isso. \u00c9 como virar uma p\u00e1gina. Eu vivi tanta coisa com ele. N\u00e3o s\u00f3 eu, a <strong>Flor<\/strong>, minha mulher, ele adorava ela e as crian\u00e7as. Vivemos uma grande parte da nossa vida juntos, fam\u00edlia com fam\u00edlia. As crian\u00e7as iam para a mesma escola, a gente se via todo dia, \u00edamos jogar t\u00eanis, jogar futebol. Muito mais longe no tempo, tamb\u00e9m \u00e9ramos muito pr\u00f3ximos. Vivi tantas coisas com ele que, \u00e0s vezes, n\u00e3o lembro com frequ\u00eancia, mas as tenho muito claras. Tenho peda\u00e7os dele espalhados por todo o caminho. Sim, eu sinto falta. A \u00faltima vez que o vi, ele estava no c\u00edrculo central do campo do Chelsea, com um advogado, amigo dos dois, com quem eu tinha falado muito sobre ele. Ele tinha estado aqui em Buenos Aires e esse advogado me pediu para nos encontrarmos porque quer\u00edamos \u2018resgat\u00e1-lo\u2019, entre aspas.<\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"1584\" data-start=\"1536\"><strong>RS: Uma das tantas vezes que voc\u00ea tentou, n\u00e3o foi?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-end=\"2511\" data-start=\"1586\">RD: Sim, uma das tantas vezes. Ele tinha acabado de me xingar porque encheram a cabe\u00e7a dele e ele dizia que eu tinha comprado alguns apartamentos em Miami. Ele estava brigado com a <strong>Claudia<\/strong> naquela \u00e9poca. N\u00e3o s\u00f3 era mentira isso dos apartamentos, mas eu nem conseguia imaginar de onde isso tinha sa\u00eddo. Eu nem sabia onde ficava Miami. Ele dizia: \u201cO c\u00f4mico tal, traidor\u201d. Me chamava de c\u00f4mico, uma dessas coisas que pegavam nele. Pelo que parece, ele encontrou esse cara em Londres e, por algum motivo, acabaram no c\u00edrculo central do campo do Chelsea, vazio. Imagina a cena. O que aconteceu \u00e9 que esse homem, que tinha meu n\u00famero, fez um FaceTime. Colocou uma chamada de v\u00eddeo. E ele, chorando, me disse: \u201cC\u00f4mico, tenho que te pedir desculpas\u201d. Os olhos cheios de l\u00e1grimas. Pelo que parece, esse cara contou para ele algumas coisas que t\u00ednhamos falado, ent\u00e3o ele voltou, como acontecia muitas vezes, para me ligar e pedir perd\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Esta mat\u00e9ria foi originalmente publicada no dia 3 de abril de 2025 na Rolling Stone Argentina e pode ser conferida aqui.<\/em><\/p>\n<p><strong>+++ LEIA MAIS: A hist\u00f3ria real por tr\u00e1s de O Eternauta, s\u00e9rie argentina da Netflix<\/strong><\/p>\n<p><strong>+++ LEIA MAIS: Pepe Mujica: o lado roqueiro do presidente que legalizou a maconha no Uruguai<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/entretenimento\/ricardo-darin-o-que-mais-me-impacta-na-serie-e-a-ideia-de-que-ninguem-se-salva-sozinho\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Vou te contar uma coisa, mas voc\u00ea n\u00e3o pode contar pra ningu\u00e9m&#8230;&#8221; \u00c9 meio-dia de uma segunda-feira de setembro de 2022, e Ricardo Dar\u00edn fuma na porta de um cinema em Belgrano, Buenos Aires. 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