{"id":19067,"date":"2025-05-09T06:32:04","date_gmt":"2025-05-09T09:32:04","guid":{"rendered":"https:\/\/mussicom.com\/j-k-rowling-harry-potter-e-o-porque-de-nao-separarmos-criador-e-criatura\/"},"modified":"2025-05-09T06:32:04","modified_gmt":"2025-05-09T09:32:04","slug":"j-k-rowling-harry-potter-e-o-porque-de-nao-separarmos-criador-e-criatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/j-k-rowling-harry-potter-e-o-porque-de-nao-separarmos-criador-e-criatura\/","title":{"rendered":"J.K. Rowling, Harry Potter e o porqu\u00ea de n\u00e3o separarmos criador e criatura"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, <strong>J.K. Rowling<\/strong> voltou a estampar manchetes. Por conta de uma nova publica\u00e7\u00e3o? Uma premia\u00e7\u00e3o? Nada disso. A autora de <strong><em>Harry Potter<\/em><\/strong> se destacou novamente por seu posicionamento transf\u00f3bico, agora ao comemorar, nas redes sociais, a decis\u00e3o da Suprema Corte brit\u00e2nica, que definiu legalmente o conceito de mulher com base no sexo biol\u00f3gico. A comemora\u00e7\u00e3o reacendeu um debate espinhoso: \u00e9 poss\u00edvel separar a autora de sua obra?<\/p>\n<h4><strong>Dos corredores de Hogwarts ao tribunal das redes sociais<\/strong><\/h4>\n<p>A decis\u00e3o judicial foi um duro golpe para as mulheres trans brit\u00e2nicas, que h\u00e1 mais de 15 anos lutam por reconhecimento legal e prote\u00e7\u00e3o sob a Lei de Igualdade \u2014 uma legisla\u00e7\u00e3o que combate a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e incentiva a inclus\u00e3o feminina no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>O caso foi levado \u00e0 Suprema Corte por um grupo chamado For Women Scotland, que se op\u00f4s \u00e0 tentativa de estender os direitos da lei \u00e0s pessoas trans. Em seu perfil no X (antigo Twitter), Rowling celebrou:<\/p>\n<blockquote class=\"citacao\"><p><em>\u201cForam necess\u00e1rias tr\u00eas mulheres escocesas extraordin\u00e1rias e tenazes para que este caso fosse ouvido pela Suprema Corte e, ao vencer, protegeram os direitos das mulheres e meninas em todo o Reino Unido.&#8221;<\/em><\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\" data-media-max-width=\"560\">\n<p dir=\"ltr\" lang=\"en\">It took three extraordinary, tenacious Scottish women with an army behind them to get this case heard by the Supreme Court and, in winning, they\u2019ve protected the rights of women and girls across the UK. <a href=\"https:\/\/twitter.com\/ForWomenScot?ref_src=twsrc%5Etfw\">@ForWomenScot<\/a>, I\u2019m so proud to know you \ud83c\udff4\udb40\udc67\udb40\udc62\udb40\udc73\udb40\udc63\udb40\udc74\udb40\udc7f\ud83d\udc9c\ud83c\udff4\udb40\udc67\udb40\udc62\udb40\udc73\udb40\udc63\udb40\udc74\udb40\udc7f\ud83d\udc9a\ud83c\udff4\udb40\udc67\udb40\udc62\udb40\udc73\udb40\udc63\udb40\udc74\udb40\udc7f\ud83e\udd0d\ud83c\udff4\udb40\udc67\udb40\udc62\udb40\udc73\udb40\udc63\udb40\udc74\udb40\udc7f https:\/\/t.co\/JEvcScVVGS<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n\u2014 J.K. Rowling (@jk_rowling) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/jk_rowling\/status\/1912478016074027058?ref_src=twsrc%5Etfw\">April 16, 2025<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Logo em seguida, postou uma foto segurando um copo de u\u00edsque e um charuto, com a legenda: <em>&#8220;Adoro quando um plano d\u00e1 certo&#8221;<\/em>. Confira:<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\">\n<p dir=\"ltr\" lang=\"en\">I love it when a plan comes together.<a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/SupremeCourt?ref_src=twsrc%5Etfw&amp;src=hash\">#SupremeCourt<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/WomensRights?ref_src=twsrc%5Etfw&amp;src=hash\">#WomensRights<\/a><a href=\"https:\/\/t.co\/agOkWmhPgb\">pic.twitter.com\/agOkWmhPgb<\/a><\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n\u2014 J.K. Rowling (@jk_rowling) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/jk_rowling\/status\/1912644919103004807?ref_src=twsrc%5Etfw\">April 16, 2025<\/a><\/p><\/blockquote>\n<h4><strong>Criadora e criatura \u00e9 uma separa\u00e7\u00e3o (im)poss\u00edvel?<\/strong><\/h4>\n<p>Desde 2020, a autora tem se posicionado cada vez mais abertamente contra os direitos da popula\u00e7\u00e3o trans. E, com isso, o velho dilema da separa\u00e7\u00e3o entre criador e criatura ganha um novo cap\u00edtulo. Como lidar com a complexidade de uma autora, que criou um universo que ensinou a milh\u00f5es sobre amizade, amor e coragem, e que, agora, ataca publicamente um grupo historicamente marginalizado?<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o exclusiva a <strong>Rowling<\/strong>. No Brasil, <strong>Monteiro Lobato<\/strong> \u00e9 outro nome frequentemente citado nesse dilema. Respons\u00e1vel por obras da literatura infantil, como <strong><em>S\u00edtio do Picapau Amarelo<\/em><\/strong>, tamb\u00e9m \u00e9 criticado por passagens racistas em seus textos e por cartas em que expressa apoio ao regime eugenista.<\/p>\n<p><strong>J.R.R. Tolkien<\/strong>, criador de <strong><em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em><\/strong>, tamb\u00e9m n\u00e3o escapa ileso: muitos apontam tra\u00e7os racializados e problem\u00e1ticos nas descri\u00e7\u00f5es de suas hist\u00f3rias. Os her\u00f3is de pele clara e os vil\u00f5es (como os orcs) frequentemente associados a caracter\u00edsticas f\u00edsicas \u201cdeformadas\u201d e pele escura.<\/p>\n<p>Essas marcas n\u00e3o aparecem por acaso. <strong>Tolkien<\/strong> viveu durante o auge do <em>apartheid<\/em> na \u00c1frica do Sul e da coloniza\u00e7\u00e3o europeia na \u00c1frica e na \u00c1sia. Mesmo que inconscientes, essas influ\u00eancias transparecem nas met\u00e1foras e imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>A lista de casos parecidos continua: <strong>Kanye West<\/strong>, <strong>Woody Allen<\/strong>, <strong>Roman Polanski<\/strong>, <strong>Johnny Depp<\/strong>&#8230; Em todos eles, o talento art\u00edstico vem acompanhado de comportamentos ou discursos que desafiam o consumo acr\u00edtico de suas obras.<\/p>\n<p>Nesse ponto, vale lembrar de um personagem ic\u00f4nico: <strong>Victor Frankenstein<\/strong>. No cl\u00e1ssico de <strong>Mary Shelley<\/strong>, o cientista decide criar vida a partir de cad\u00e1veres \u2014 e rejeita a criatura assim que a v\u00ea. Rejeitado e marginalizado, o monstro se torna uma figura tr\u00e1gica e perigosa, justamente porque seu criador se recusa a assumir qualquer responsabilidade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 frequentemente lida como um aviso sobre os limites da ci\u00eancia, mas tamb\u00e9m pode ser interpretada como uma met\u00e1fora sobre a rela\u00e7\u00e3o entre criador e cria\u00e7\u00e3o. Tal como <strong>Shelley<\/strong> nos lembra: quem cria algo, seja uma criatura ou uma obra cultural, compartilha com ela parte de sua vis\u00e3o de mundo. Afinal, as obras n\u00e3o existem isoladas \u2014 elas t\u00eam origem, inten\u00e7\u00e3o e impacto.<\/p>\n<h4><strong>Autor morto, contexto vivo: Barthes vs. New Historicism<\/strong><\/h4>\n<p>Esse v\u00ednculo entre autor, obra e contexto \u00e9 abordado por duas teorias cr\u00edticas fundamentais. O ensaio <strong><em>A Morte do Autor<\/em><\/strong>, de <strong>Roland Barthes<\/strong>, afirma que o sentido de um texto n\u00e3o pertence mais ao autor depois que ele \u00e9 publicado. A interpreta\u00e7\u00e3o passa a ser uma constru\u00e7\u00e3o do leitor. Com isso, ele prop\u00f5e a liberta\u00e7\u00e3o da leitura das inten\u00e7\u00f5es do criador, permitindo que o texto exista por si s\u00f3. Mas isso n\u00e3o significa ignorar o criador \u2014 apenas descentraliz\u00e1-lo \u2014 o que \u00e9 diferente de eximir sua responsabilidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 a corrente cr\u00edtica do <strong>New Historicism<\/strong>, surgida nos anos 1980 com autores como <strong>Stephen Greenblatt<\/strong>, o contexto hist\u00f3rico, social, pol\u00edtico e biogr\u00e1fico do autor \u00e9 fundamental para entender as camadas e significados da obra. Ou seja, para entender de verdade uma obra, \u00e9 preciso conhecer o seu tempo, seu autor e as estruturas de poder que a atravessam.<\/p>\n<h4><strong>Os ecos dos discursos transf\u00f3bicos na obra de Rowling<\/strong><\/h4>\n<p>Quando olhamos por essa lente para a obra de <strong>Rowling<\/strong>, por exemplo, vemos como seus posicionamentos pessoais n\u00e3o s\u00e3o desvinculados de suas hist\u00f3rias \u2014 ao contr\u00e1rio, eles atravessam personagens, vil\u00f5es e representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas.<\/p>\n<p>Em <strong><em>Sangue Revolto<\/em><\/strong> (2020), livro assinado pela autora sob o pseud\u00f4nimo <strong>Robert Galbraith<\/strong>, o vil\u00e3o \u00e9 um <em>serial killer<\/em> que se veste de mulher para assassinar mulheres. Um detalhe inc\u00f4modo, principalmente vindo de uma autora que j\u00e1 expressou repetidamente seu desprezo por identidades trans. Coincid\u00eancia? Ou reflexo de estere\u00f3tipos transf\u00f3bicos de quem o criou?<\/p>\n<figure class=\"image\"><figcaption>Em <em>Sangue Revolto<\/em>, assinado sob o pseud\u00f4nimo de Robert Galbraith, J.K. Rowling apresenta serial killer vestido em roupas femininas (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p>A resposta a essa pergunta exige que consideremos n\u00e3o s\u00f3 o que est\u00e1 nas p\u00e1ginas dos livros, mas o impacto real que essas p\u00e1ginas podem ter, porque obras de fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o apenas entretenimento \u2014 elas participam ativamente da forma\u00e7\u00e3o de valores, cren\u00e7as e imagin\u00e1rios sociais. E, nesse ponto, a cultura deixa de ser algo neutro para se tornar uma arena de disputa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico <strong>Joseph Nye<\/strong>, em seu livro <strong><em>Soft Power<\/em><\/strong>, defende que a cultura \u00e9 uma das ferramentas de influ\u00eancia global. Segundo ele, a capacidade de um pa\u00eds (ou grupo) moldar prefer\u00eancias e comportamentos atrav\u00e9s de bens culturais \u00e9 uma forma sutil, mas poderosa, de exercer poder. Portanto, filmes, livros e m\u00fasicas n\u00e3o apenas entret\u00eam: eles criam s\u00edmbolos, espalham valores e moldam percep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h4><strong>Ent\u00e3o, o que fazer com essas obras? Cancelar? Ignorar? Queimar?<\/strong><\/h4>\n<p>N\u00e3o se trata disso. Talvez a resposta esteja na cr\u00edtica, n\u00e3o na censura. \u00c9 preciso reconhecer que, por mais confort\u00e1vel que pare\u00e7a, a separa\u00e7\u00e3o entre criador e obra \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o conveniente \u2014 e muitas vezes, nociva. Se artistas t\u00eam o poder de influenciar o mundo com suas narrativas, tamb\u00e9m t\u00eam a responsabilidade pelo que colocam no mundo. E n\u00f3s, como p\u00fablico, temos o direito \u2014 e o dever \u2014 de decidir o que vamos consumir.<\/p>\n<p><strong>LEIA A MAT\u00c9RIA ORIGINAL EM:<\/strong>J.K. Rowling, <em>Harry Potter<\/em> e o porqu\u00ea de n\u00e3o separarmos criador e criatura<\/p>\n<hr\/>\n<blockquote class=\"amdb-polls\" contenteditable=\"false\" data-sid=\"\/polls\/14\/embed\/\">\n<p>Qual foi o melhor filme de 2025 at\u00e9 agora? 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