{"id":14439,"date":"2025-04-21T13:06:37","date_gmt":"2025-04-21T16:06:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mussicom.com\/a-suave-revolucao-de-papa-francisco-que-morreu-nesta-segunda-21-aos-88-anos\/"},"modified":"2025-04-21T13:06:37","modified_gmt":"2025-04-21T16:06:37","slug":"a-suave-revolucao-de-papa-francisco-que-morreu-nesta-segunda-21-aos-88-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/a-suave-revolucao-de-papa-francisco-que-morreu-nesta-segunda-21-aos-88-anos\/","title":{"rendered":"A suave revolu\u00e7\u00e3o de Papa Francisco, que morreu nesta segunda (21) aos 88 anos"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p><span class=\"capitular\">P<\/span>raticamente toda quarta-feira em Roma, fi\u00e9is e curiosos se juntam na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro para uma audi\u00eancia geral com o papa. Desde a elei\u00e7\u00e3o de <strong>Jorge Mario Bergoglio<\/strong> em mar\u00e7o, o p\u00fablico nos eventos papais triplicou para 6,6 milh\u00f5es de pessoas. Em uma manh\u00e3 de dezembro, a multid\u00e3o de peregrinos parecia brilhar com a luz do sol, cobrindo a pra\u00e7a como um tapete colorido. Talvez fosse uma ilus\u00e3o criada pelos smartphones levantados aos c\u00e9us.<\/p>\n<p>De perto, o <strong>Papa Francisco<\/strong>, o 266\u00ba pont\u00edfice de Jesus Cristo na Terra, um homem cuja humildade \u00f3bvia, empatia e, acima de tudo, devo\u00e7\u00e3o aos economicamente desfavorecidos se encaixaram perfeitamente com nosso tempo, parece mais cheinho do que na televis\u00e3o. Tendo famosamente dispensado os acess\u00f3rios pont\u00edfices mais extravagantes, tamb\u00e9m \u00e9 surpreendentemente estiloso, usando hoje um sobretudo branco com bot\u00f5es duplos, cachecol branco e uma batina creme, todos impecavelmente costurados.<\/p>\n<p>O t\u00f3pico da catequese, ou ensinamento, de Francisco \u00e9 o Dia do Julgamento, embora, como de costume, ele n\u00e3o tente invocar imagens de fogo e enxofre. Seu antecessor, Bento XVI, falando sobre o t\u00f3pico, uma vez disse: \u201cAtualmente, estamos acostumados a pensar: \u2018O que \u00e9 pecado? Deus \u00e9 bom, Ele nos entende, ent\u00e3o o pecado n\u00e3o conta; no final, Deus ser\u00e1 bom com todos\u2019. \u00c9 uma bela esperan\u00e7a, mas h\u00e1 justi\u00e7a, e h\u00e1 culpa real\u201d.<\/p>\n<p>Por sua vez, Francisco, 77 anos, implora para que a multid\u00e3o pense na perspectiva de encontrar o Criador como algo a se esperar, como um casamento, onde Jesus e todos os santos no c\u00e9u estar\u00e3o esperando de bra\u00e7os abertos. A voz dele \u00e9 desconcertantemente gentil, mesmo quando amplificada sobre uma pra\u00e7a p\u00fablica enorme. Sempre que poss\u00edvel, ele cumprimenta o p\u00fablico. Bento, um acad\u00eamico austero, mantinha essa parte do p\u00fablico geral a certa dist\u00e2ncia. Entretanto, Francisco adora o contato pessoal e passa quase uma hora saudando os fi\u00e9is.<\/p>\n<p>A celebridade papal \u00e9 algo engra\u00e7ado. Como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio nunca tinha sido um orador especialmente talentoso, mas, agora que \u00e9 o Papa Francisco, sua humanidade reconhec\u00edvel \u00e9 vista como positivamente revolucion\u00e1ria. Contra o cen\u00e1rio absurdo, impossivelmente barroco do Vaticano, um mundo ainda comandado como uma corte medieval, a elei\u00e7\u00e3o de Francisco representa o que a jornalista argentina Elisabetta Piqu\u00e9, que o conhece h\u00e1 uma d\u00e9cada, chama de \u201cesc\u00e2ndalo de normalidade\u201d. Desde que foi eleito, em mar\u00e7o passado, Francisco vem superando expectativas com os gestos mais simples: surpreendendo recepcionistas no hotel onde se hospedou durante o conclave papal ao aparecer para pagar a pr\u00f3pria conta, apavorando o guarda-costas ao beber em uma cuia de mate que um estranho lhe deu durante sua visita ao Brasil, fazendo cardeais morrerem de rir com piadas sobre si mesmo, horas depois de ser eleito (a quem participou de seu primeiro jantar como papa, ele falou: \u201cQue Deus os perdoe pelo que fizeram\u201d).<\/p>\n<p>Depois do papado desastroso de Bento XVI, um tradicionalista r\u00edgido que parecia ser capaz de usar uma camiseta listrada, luvas com l\u00e2minas no lugar dos dedos e amea\u00e7ar adolescentes em pesadelos, o dom\u00ednio b\u00e1sico de Francisco em habilidades como sorrir em p\u00fablico pareceu um pequeno milagre para o cat\u00f3lico m\u00e9dio. No entanto, ele tinha mudan\u00e7as mais radicais em mente. Ao trocar o pal\u00e1cio papal por um apartamento modesto de dois dormit\u00f3rios, ao repreender publicamente l\u00edderes da igreja por serem \u201cobcecados\u201d por quest\u00f5es sociais controversas como casamento gay, controle de natalidade e aborto (\u201cQuem sou eu para julgar?\u201d, respondeu famosamente quando lhe perguntaram sua opini\u00e3o sobre padres homossexuais) e \u2013 talvez o mais impressionante de tudo \u2013 ao dedicar sua primeira grande catequese escrita a uma cr\u00edtica contundente ao capitalismo desvairado do mercado livre, o papa revelou que suas pr\u00f3prias obsess\u00f5es estavam mais em linha com as do filho do cara l\u00e1 de cima.<\/p>\n<p>At\u00e9 onde se sabe, o conclave papal que elegeu Bergoglio presumiu que estava escolhendo um candidato relativamente tranquilo e transigente. Cardeais gostaram da ideia de um papa da Am\u00e9rica Latina, um dos mercados de maior crescimento da Igreja. Tamb\u00e9m reagiram bem a um discurso animador de tr\u00eas minutos que Bergoglio deu durante o conclave, no qual disse que a Igreja, para sobreviver, deve \u201cparar de viver dentro de si mesma, para si mesma, por si mesma\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, ele n\u00e3o dava nenhuma outra indica\u00e7\u00e3o de ser um agente da mudan\u00e7a. Nos dias depois da elei\u00e7\u00e3o, a maioria dos jornais o descreveu como uma escolha segura e conservadora. O pr\u00f3prio Bergoglio j\u00e1 havia escolhido um lugar para se aposentar na Argentina, para onde esperava voltar depois de participar do conclave como eleitor. \u201cQuando ele ficou sabendo que foi eleito\u201d, conta Elisabetta, \u201cn\u00e3o sabia se era sonho ou pesadelo. Tenho certeza de que est\u00e1 se sentindo em uma gaiola\u201d.<\/p>\n<p>Haveria muitas maneiras razo\u00e1veis de reagir a essa nova realidade \u2013 resigna\u00e7\u00e3o crist\u00e3 estoica ou um grito de \u201cPor que eu, Deus?\u201d. Tamb\u00e9m seria poss\u00edvel se sentir revigorado com o desafio, e talvez at\u00e9 decidir causar problemas por a\u00ed.<\/p>\n<hr\/>\n<p><span class=\"capitular\">J<\/span>unto a muitos nobres homens de Deus, houve v\u00e1rios papas verdadeiramente terr\u00edveis. Bento XVI certamente n\u00e3o merece ser inclu\u00eddo na galeria dos vil\u00f5es, mas \u00e9 dif\u00edcil imaginar uma escolha pior para enfrentar os desafios peculiares da Igreja Cat\u00f3lica na \u00faltima d\u00e9cada do que o cardeal alem\u00e3o Joseph Ratzinger. Antes de ser nomeado papa em 2005, ele havia sido prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para Doutrina da F\u00e9 para seu antecessor, o amado, mas tamb\u00e9m bastante reacion\u00e1rio, Jo\u00e3o Paulo II. Em sua luta contra os esfor\u00e7os de liberaliza\u00e7\u00e3o do Segundo Conselho do Vaticano, JPII, como era conhecido no pa\u00eds, reprimiu grupos cat\u00f3licos progressivos como os jesu\u00edtas enquanto deu as boas vindas aos hipertradicionalistas pol\u00eamicos da Opus Dei, cujos membros fazem votos de celibato e praticam mortifica\u00e7\u00e3o corporal, chicoteando-se ou usando um cil\u00edcio, uma corrente de metal com tachas amarrada \u00e0 coxa como penitencia e lembrete do sofrimento de Jesus.<\/p>\n<p>Uma carta publicada em 1986 por Ratzinger, \u201cSobre o Atendimento Pastoral a Pessoas Homossexuais\u201d (tamb\u00e9m conhecida como<em> Homosexualitatis Problema<\/em>), descrevia a homossexualidade como \u201cum mal moral intr\u00ednseco\u201d. Os principais proponentes da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, um movimento cat\u00f3lico explosivo com conota\u00e7\u00f5es marxistas que se espalhou pela Am\u00e9rica Latina nos anos 70 e 80, foram marginalizados pelo gabinete de Ratzinger e vistos como hereges. Ao mesmo tempo, a equipe dele reagiu \u00e0s infinitas revela\u00e7\u00f5es de pedofilia que abalaram a Igreja nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Depois de se tornar o Papa Bento XVI em 2005, Ratzinger parecia n\u00e3o ter uma folga para respirar, e certamente n\u00e3o tinha a habilidade de aplicar seu amplamente reconhecido brilhantismo como acad\u00eamico ao combate a inc\u00eandios no mundo real. Em 2009, um esc\u00e2ndalo de lavagem de dinheiro foi descoberto no Banco do Vaticano, que controla cerca de US$ 8,2 bilh\u00f5es em ativos. Ent\u00e3o, veio a trai\u00e7\u00e3o conhecida como VatiLeaks, na qual o pr\u00f3prio mordomo de confian\u00e7a de Bento roubou calhama\u00e7os de documentos secretos que revelam as constrangedoras engrenagens internas da Santa S\u00e9.<\/p>\n<p>Supostamente, o momento decisivo para Bento aconteceu depois que um trio de cardeais respons\u00e1veis por investigar o VatiLeaks enviou seu relat\u00f3rio, revelando uma rede de funcion\u00e1rios gays do Vaticano e gente de fora amea\u00e7ando expor a situa\u00e7\u00e3o. \u201cEle simplesmente n\u00e3o tinha a personalidade ou resist\u00eancia para lidar com tudo o que estava acontecendo\u201d, uma fonte interna do<\/p>\n<p>Vaticano me disse. Logo depois que Bento chocou o mundo em fevereiro do ano passado ao anunciar que seria o primeiro papa a renunciar em mais de 700 anos, uma indignidade final o acompanhou at\u00e9 a porta: a revela\u00e7\u00e3o pelo jornal <em>La Repubblica <\/em>de que a maior sauna gay da It\u00e1lia era inquilina de um edif\u00edcio de propriedade do Vaticano.<\/p>\n<p>A discord\u00e2ncia aberta, claro, \u00e9 algo raro em uma organiza\u00e7\u00e3o t\u00e3o hier\u00e1rquica quanto a Igreja Cat\u00f3lica, mas constatei que, se h\u00e1 um grupo que expressa uma not\u00e1vel falta de entusiasmo com seu novo papa jesu\u00edta, \u00e9 a Opus Dei. Ent\u00e3o, certa tarde, encontrei o padre John Paul Wauck, um pastor norte-americano da Opus Dei que mora em Roma h\u00e1 quase 20 anos, onde ensina literatura na Pontif\u00edcia Universidade da Santa Cruz. Wauck, que n\u00e3o parece t\u00e3o conservador para um membro dessa institui\u00e7\u00e3o, minimiza o pedido de tr\u00e9gua do papa nas guerras culturais. \u201cCom certeza n\u00e3o tenho problema algum com qualquer coisa que o papa diga\u201d, ele afirma. \u201cAcho que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de leitura seletiva. As pessoas est\u00e3o enfatizando certas coisas e esquecendo outras que ele tamb\u00e9m falou.\u201d Por exemplo, Wauck indica que o papa frequentemente fala do diabo, \u201cmuito mais do que me lembro de Bento ter falado\u201d. Da mesma forma, observa que os coment\u00e1rios de Francisco sobre a obsess\u00e3o da Igreja com o casamento gay e o aborto n\u00e3o propuseram nenhuma mudan\u00e7a doutrinal real. \u201cO papa nunca disse que essas quest\u00f5es n\u00e3o eram importantes\u201d, alega Wauck. \u201cEle disse que, quando falamos sobre essas coisas, temos de falar em um contexto. Quem discordaria disso? Ent\u00e3o, quando as pessoas est\u00e3o tentando entender que tipo de homem ele \u00e9, voc\u00ea tem de ouvir todos os sinos, n\u00e3o apenas aqueles que soam como \u2018Ah, ele vai mudar tudo\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Este \u00e9 um discurso comum entre cat\u00f3licos conservadores sobre o Papa Francisco: voc\u00eas da m\u00eddia liberal secular <em>n\u00e3o est\u00e3o escutando. <\/em> O cardeal de Nova York Timothy Dolan, um conservador que havia sido inclu\u00eddo em v\u00e1rias listas de poss\u00edveis papas em mar\u00e7o, tamb\u00e9m n\u00e3o perdeu tempo em traduzir a mensagem de Francisco, dizendo ao programa <em>This Morning, <\/em> do canal CBS: \u201cO Papa seria o primeiro a dizer: \u2018Meu trabalho n\u00e3o \u00e9 mudar o ensino da Igreja. Meu trabalho \u00e9 apresent\u00e1-la da forma mais clara poss\u00edvel&#8230; Embora determinados atos sejam errados&#8230; sempre amaremos e respeitaremos a pessoa e a trataremos com dignidade\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Embora muito disso soe como pensamento ilus\u00f3rio, eles est\u00e3o certos em uma coisa: as mudan\u00e7as de tom do papa n\u00e3o necessariamente indicam um absurdo desvio da tradi\u00e7\u00e3o. Francisco descartou a ordena\u00e7\u00e3o de mulheres, por exemplo, e ainda considera o aborto um mal, mas quem est\u00e1 obcecado em contextualizar Francisco faria bem em ver a coletiva de imprensa improvisada que ele concedeu em meados do ano passado a membros da imprensa do Vaticano reunidos durante o voo retornando do Rio de Janeiro (veja box ao lado).<\/p>\n<p>O padre Thomas J. Reese, analista s\u00eanior do jornal esquerdista <em>National Catholic Reporter, <\/em> diz que os argumentos sobre estilo versus subst\u00e2ncia quando se trata do Papa Francisco ignoram a parte essencial da quest\u00e3o. \u201cNa Igreja Cat\u00f3lica, estilo \u00e9 subst\u00e2ncia\u201d, afirma. \u201cSomos uma igreja de s\u00edmbolos. \u00c9 o que chamamos de sacramento: s\u00edmbolos que nos d\u00e3o gra\u00e7a. Essas coisas realmente<\/p>\n<p>importam. Ent\u00e3o, Francisco j\u00e1 est\u00e1 mudando a Igreja de formas reais por meio de suas palavras e gestos simb\u00f3licos. Ele poderia sentar em seu gabinete, revisar o direito can\u00f4nico e come\u00e7ar a mudar regras e regulamentos, mas n\u00e3o \u00e9 isso que as pessoas querem que ele fa\u00e7a.\u201d<\/p>\n<hr\/>\n<p><span class=\"capitular\">A<\/span>t\u00e9 agora, as decis\u00f5es de estilo de vida humilde de Francisco como papa \u2013 andar pela cidade em um Ford Focus em vez de uma limusine Mercedes com chofer, por exemplo \u2013 t\u00eam sido maravilhosas e tudo o mais, mas os louvores dirigidos a ele podem dar a impress\u00e3o de que est\u00e1 sendo pontuado em um sistema de curvas. Sim, \u00e9 \u00f3bvio que voc\u00ea n\u00e3o deveria morar em um pal\u00e1cio enorme se \u00e9 chefe de uma religi\u00e3o baseada nos princ\u00edpios da caridade e compaix\u00e3o e fundada por um proto-hippie sem teto, mas Francisco surpreendeu em novembro, com a divulga\u00e7\u00e3o de sua primeira exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, ou ensinamento oficial por escrito. Os ataques fulminantes sobre a desigualdade de renda no <em>Evangelii Gaudium<\/em> (\u201cAlegria do Evangelho\u201d), de Francisco, repercutiram no mundo como uma bomba.<\/p>\n<p>Ele descreve uma \u201ccultura de prosperidade\u201d que \u201cnos deixa alheios\u201d \u00e0 mis\u00e9ria dos pobres: \u201cTodas essas vidas paralisadas pela falta de oportunidade parecem um mero espet\u00e1culo: elas n\u00e3o conseguem nos comover\u201d. D\u00edvida, corrup\u00e7\u00e3o, evas\u00e3o fiscal, demiss\u00f5es em massa (\u201ctentando aumentar lucros reduzindo a for\u00e7a de trabalho e, assim, aumentando o n\u00famero de exclu\u00eddos\u201d) e degrada\u00e7\u00e3o ambiental foram atacadas. Algumas pessoas, Francisco escreveu, \u201ccontinuam defendendo teorias de gotejamento\u201d, uma cren\u00e7a que \u201cnunca foi confirmada por fatos\u201d e que \u201cexpressa uma confian\u00e7a crua e ing\u00eanua no bem daqueles que t\u00eam poder econ\u00f4mico&#8230; Enquanto isso, os exclu\u00eddos ainda est\u00e3o esperando\u201d.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 questionar a vontade de Deus quando se trata de moralidade sexual, mas, para os conservadores norte-americanos, atacar as sagradas doutrinas econ\u00f4micas de Ronald Reagan \u00e9 um pecado mortal. Sarah Palin, ex-candidata republicana a vice-presidente dos Estados Unidos, disse ao canal CNN que algumas declara\u00e7\u00f5es do papa \u201cme pegaram de surpresa\u201d e soaram \u201cmeio liberais\u201d (mais tarde, ela pediu desculpas). O comentarista pol\u00edtico Rush Limbaugh foi menos cordato, chamando a mensagem do papa de \u201cmarxismo puro\u201d. Ken Langone, o bilion\u00e1rio cofundador da rede de lojas Home Depot, disse ao cardeal Dolan que uma reforma multimilion\u00e1ria da catedral de S\u00e3o Patr\u00edcio, em Nova York, poderia ter dificuldades de financiamento se cat\u00f3licos ricos continuassem sendo magoados pelos coment\u00e1rios \u201cexcludentes\u201d do papa.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do outro lado do espectro tem sido menos complicada. \u201cO Papa Francisco \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us, uma voz prof\u00e9tica disposta a ser cr\u00edtica do capitalismo e do imperialismo\u201d, afirma Cornel West, h\u00e1 muito tempo uma voz importante da ala esquerdista crist\u00e3. \u201cN\u00e3o quero transformar o papa em um fetiche. Ele comanda uma organiza\u00e7\u00e3o profundamente patriarcal e homof\u00f3bica da qual sou cr\u00edtico, mas amo quem ele \u00e9, no que se refere ao que diz, e o impacto de suas palavras sobre for\u00e7as progressivasem todo o mundo.\u201d<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">J<\/span>orge Mario Bergoglio nasceu em Buenos Aires, mas os pais dele eram italianos; o pai fugiu da It\u00e1lia quando o ditador Benito Mussolini tomou o poder. A fam\u00edlia se instalou em Flores, um bairro arborizado e de classe m\u00e9dia. Havia muitos parentes italianos por perto, incluindo um tio-av\u00f4 que Bergoglio descreveu em um livro de entrevistas de 2010 como um \u201chomem sacanamente velho\u201d que \u201cnos ensinou a cantar algumas cantigas bem ousadas em dialeto genov\u00eas. Isso explica por que n\u00e3o vale a pena repetir as \u00fanicas coisas que consigo dizer em genov\u00eas\u201d. Buenos Aires era uma cidade cosmopolita, onde vest\u00edgios do colonialismo espanhol se misturavam com uma aspira\u00e7\u00e3o em adotar a cultura europeia (h\u00e1 uma velha piada sobre argentinos serem italianos que falam espanhol e acham que s\u00e3o brit\u00e2nicos).<\/p>\n<p>Bergoglio estudou qu\u00edmica em uma escola t\u00e9cnica, trabalhou em um laborat\u00f3rio, fez bico como seguran\u00e7a em um bar de Buenos Aires, amava futebol e dan\u00e7ava tango. Ent\u00e3o, aos 17 anos, enquanto estava com alguns amigos, passou por uma igreja e teve uma epifania. Em uma entrevista a uma r\u00e1dio de Buenos Aires, descreveu que sentiu \u201ccomo se algu\u00e9m tivesse me agarrado por dentro e me levado ao confession\u00e1rio&#8230; Enquanto estava ali, senti que tinha de me tornar um padre, e n\u00e3o tive d\u00favidas\u201d.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o contou a ningu\u00e9m sobre esse incidente nos quatro anos seguintes, continuou trabalhando e estudando, mas em 1958, aos 21 anos, entrou para um semin\u00e1rio jesu\u00edta. A m\u00e3e n\u00e3o ficou feliz com a decis\u00e3o e se recusou a visit\u00e1-lo durante anos. \u201cMinha m\u00e3e entendeu isso como uma pilhagem\u201d, lembrou Bergoglio. \u201c\u2018N\u00e3o sei, n\u00e3o te vejo como&#8230; voc\u00ea deveria esperar um pouco&#8230; \u00c9 o mais velho&#8230; continue trabalhando&#8230; acabe a faculdade\u2019, ela dizia. A verdade \u00e9 que minha m\u00e3e ficou extremamente triste.\u201d Mais tarde, ele afirmou ter se atra\u00eddo pelos jesu\u00edtas por sua \u00eanfase na obedi\u00eancia e na disciplina e tamb\u00e9m porque esperava trabalhar como mission\u00e1rio no Jap\u00e3o, onde os jesu\u00edtas foram os primeiros a introduzir o cristianismo, por volta de 1540, embora problemas de sa\u00fade \u2013 perdeu uma parte do pulm\u00e3o depois de uma pneumonia \u2013 impedissem que ele fizesse essa viagem. Em vez disso, ensinou literatura em uma escola jesu\u00edta, levando o grande escritor argentino Jorge Luis Borges para uma palestra e, aos 36 anos, acabou sendo indicado como superior provincial dos jesu\u00edtas na Argentina, o que significava supervisionar as atividades da ordem religiosa em todo o pa\u00eds. De acordo com a biografia de Paul Vallely, <em>Pope Francis: Untying the Knots<\/em> (Papa Francisco: Desatando os N\u00f3s), ele n\u00e3o era uma figura un\u00e2nime, visto por alguns jesu\u00edtas argentinos, ironicamente, como uma volta conservadora \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-Segundo Conselho do Vaticano. Bergoglio usava a palavra \u201cautoritarismo\u201d para descrever seu estilo de lideran\u00e7a na \u00e9poca, admitindo: \u201cNem sempre fiz as consultas necess\u00e1rias&#8230; Meu estilo de governo como jesu\u00edta no come\u00e7o tinha muitas falhas\u201d.<\/p>\n<hr\/>\n<p>O per\u00edodo dele como superior provincial coincidiu com uma das eras mais traum\u00e1ticas na hist\u00f3ria argentina, a chamada \u201cGuerra Suja\u201d, que devastou o pa\u00eds ap\u00f3s o golpe militar de 1976. Nos sete anos seguintes, o pa\u00eds foi governado por uma ditadura de direita; esquadr\u00f5es da morte aterrorizavam a na\u00e7\u00e3o enquanto dezenas de milhares de civis eram dados como \u201cdesaparecidos\u201d. A junta militar era aparentemente cat\u00f3lica e muitos l\u00edderes da Igreja colaboravam abertamente. Um dos poucos bispos argentinos a falar contra o governo foi assassinado em um acidente de carro forjado.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 algo pr\u00f3ximo de uma mancha no curr\u00edculo de Bergoglio, \u00e9 o comportamento dele durante esse per\u00edodo. Como superior provincial, tinha muito menos poder ou estatura do que um bispo, e den\u00fancias p\u00fablicas contra a junta provavelmente o condenariam \u00e0 morte. Defensores argumentam que ele trabalhou efetivamente nos bastidores, arriscando a pr\u00f3pria vida ao disfar\u00e7ar como seminaristas centenas de civis que estavam na mira dos militares e retirando-os do pa\u00eds. No entanto, cr\u00edticos acreditam que ele foi c\u00famplice na pris\u00e3o e tortura de dois ativistas jesu\u00edtas com quem estava brigando. Bergoglio negou veementemente a acusa\u00e7\u00e3o, insistindo que \u201cdeu o pontap\u00e9 inicial\u201d imediatamente para orquestrar sua liberta\u00e7\u00e3o, mas um dos padres, Orlando Yorio, escreveu um livro alegando que Bergoglio os havia dedurado \u00e0 junta. Yorio morreu em 2000. O outro padre, Francisco Jalics, rebate a acusa\u00e7\u00e3o de Yorio; em outubro, encontrou com o papa em Roma e j\u00e1 haviam celebrado uma missa juntos. Elisabetta Piqu\u00e9, que passou boa parte da carreira de jornalista cobrindo guerras, acredita em Jalics, considerando a pol\u00eamica \u201ctotalmente falsa, como sabemos agora. Bergoglio tem a consci\u00eancia limpa, est\u00e1 em paz consigo mesmo. Ele fez o que podia\u201d.<\/p>\n<p>O autodescrito reino \u201cautorit\u00e1rio\u201d de Bergoglio terminou em banimento. Depois de seu trabalho como provincial, seus novos superiores jesu\u00edtas receberam tantas reclama\u00e7\u00f5es sobre sua personalidade dif\u00edcil que ele acabou sendo transferido para um novo posto em C\u00f3rdoba, a 720 km de dist\u00e2ncia. Ali, Vallely escreve, ele \u201cficou ruminando\u201d, sentindo-se \u201cdeixado de lado e diminu\u00eddo\u201d. Os colegas que havia alienado mal podiam reconhec\u00ea-lo quando ele voltou \u00e0 capital, em 1992. O \u201cex\u00edlio\u201d tinha for\u00e7ado Bergoglio a amadurecer, suavizar, abrir a cabe\u00e7a. Seis anos depois, em 1998, ele se tornou arcebispo de Buenos Aires. Prenunciando seu comportamento como papa, ele rejeitou muitas das armadilhas principescas de seu novo cargo, andando pela cidade de \u00f4nibus, morando em um apartamento simples e cozinhando as pr\u00f3prias refei\u00e7\u00f5es aos finais de semana. Um entrevistador uma vez lhe perguntou se era bom cozinheiro, e Bergoglio respondeu: \u201cBom, ningu\u00e9m morreu ainda\u201d. Pedia para amigos passarem CDs para fitas cassete para ele, pois tudo o que tinha em casa era um toca-fitas.<\/p>\n<p>Boa parte da aten\u00e7\u00e3o de Bergoglio era voltada para os desfavorecidos: percorreu os piores bairros da cidade, beijou os p\u00e9s de pacientes com Aids em um abrigo, ouviu confiss\u00f5es de prostitutas nos bancos de parques, disfar\u00e7ou-se com um poncho para marchar em uma prociss\u00e3o de favela, enfrentou traficantes que amea\u00e7avam um de seus padres. O marido de Elisabetta, Gerry O\u2019Connell, tamb\u00e9m jornalista, que cobre o Vaticano para o jornal <em>La Stampa, <\/em> lembra-se de visitar a resid\u00eancia palaciana do arcebispo pouco depois de Bergoglio assumir o cargo. A \u201cgrandiosa sala de reuni\u00e3o\u201d, onde arcebispos anteriores recebiam visitantes, agora estava repleta de caixas com roupas e alimentos para os pobres. \u201cFoi impressionante\u201d, diz O\u2019Connell. \u201cEle transformou a sala em um armaz\u00e9m!\u201d<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">A<\/span> ascens\u00e3o de Jorge Bergoglio ao topo da igreja argentina coincidiu com uma crise nacional que deixaria marcas indel\u00e9veis em seu pensamento. No ano em que assumiu o cargo, a economia da Argentina mergulhou em uma recess\u00e3o brutal, uma situa\u00e7\u00e3o que piorou quando o Fundo Monet\u00e1rio Internacional pressionou o governo a tomar duras medidas de austeridade. Mais da metade da popula\u00e7\u00e3o caiu na pobreza, houve tumultos e o paco, uma droga semelhante ao crack feita com res\u00edduos de coca\u00edna barata e aditivos como \u00e1cido sulf\u00farico, veneno para ratos e querosene, tomou conta das favelas. As coisas come\u00e7aram a melhorar em 2003, quando o pa\u00eds decidiu dar calote nas d\u00edvidas com o FMI. Foi uma jogada que n\u00e3o passou despercebida por Bergoglio, que, no <em>Evangelii Gaudium, <\/em>detona \u201cideologias que defendem a autonomia absoluta do mercado&#8230; rejeitando o direito dos estados&#8230; de exercer qualquer forma de controle\u201d e chama o endeusamento do mercado livre de \u201cuma nova tirania&#8230; que de forma incans\u00e1vel e unilateral imp\u00f5e suas pr\u00f3prias leis e regras\u201d.<\/p>\n<p>Um safan\u00e3o nas for\u00e7as do capitalismo global tende a focar a mente, mesmo aquela preocupada com o m\u00edstico. \u00c9 poss\u00edvel ver como \u201cobcecar\u201d com o casamento gay e o controle da natalidade pode come\u00e7ar a parecer se ater a meros \u201cproblemas de primeiro mundo\u201d. Embora ainda seja aparentemente ortodoxo, Bergoglio fez piada com um amigo sobre l\u00edderes da Igreja que \u201cquerem enfiar o mundo inteiro dentro de uma camisinha\u201d. Tamb\u00e9m conquistou como inimigos a presidente argentina Cristina Kirchner e seu falecido marido (e antecessor), N\u00e9stor Kirchner, envergonhando-os com den\u00fancias de iniciativas p\u00edfias contra a pobreza e corrup\u00e7\u00e3o desenfreada. Um dos documentos diplom\u00e1ticos dos Estados Unidos divulgados no WikiLeaks descreveu Bergoglio como um \u201cl\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o\u201d; quando houve a not\u00edcia de que ele havia sido eleito papa, aliados de Cristina Kirchner no Congresso aprovaram uma homenagem ao falecido presidente venezuelano Hugo Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>Elisabetta diz que Bergoglio se tornou um antagonista conveniente para os Kirchner, que \u201cn\u00e3o tinham nenhuma oposi\u00e7\u00e3o real, ent\u00e3o era \u00fatil para eles ter um inimigo sobre o qual falar\u201d. Na vis\u00e3o da jornalista, Cristina Kirchner egoisticamente empregou uma iniciativa popular de casamento homossexual para criar disc\u00f3rdia com a Igreja. Bergoglio, nos bastidores, pressionou por uma concess\u00e3o envolvendo uni\u00f5es civis, mas n\u00e3o conseguiu a ades\u00e3o de bispos conservadores. Uma carta particular dele descrevendo o casamento gay como \u201ca rejei\u00e7\u00e3o total \u00e0s leis de Deus\u201d vazou, prejudicando sua imagem, embora Vallely, autor da biografia, argumente que ele a tenha escrito como um meio estrat\u00e9gico de bajular um favor dos conservadores. Marcelo M\u00e1rquez, l\u00edder dos direitos dos homossexuais em Buenos Aires, enviou uma nota raivosa a Bergoglio e recebeu um telefonema dele uma hora depois. \u201cEle ouviu minhas opini\u00f5es com muito respeito\u201d, M\u00e1rquez disse ao <em>The New York Times. <\/em> Eles se encontraram duas vezes. M\u00e1rquez contou ao futuro papa sobre seus planos de casamento e saiu dali com um presente: uma c\u00f3pia da biografia de Bergoglio.<\/p>\n<hr\/>\n<p><span class=\"capitular\">E<\/span>m 27 de fevereiro de 2013, Bergoglio voou para Roma (insistindo em ficar na classe econ\u00f4mica, embora o Vaticano tivesse enviado uma passagem de primeira classe) e se hospedou em um hotel simples (60 euros por noite, incluindo caf\u00e9 da manh\u00e3). Parece improv\u00e1vel que o cargo de papa fosse algo que Bergoglio perseguisse ou para o qual at\u00e9 estivesse mentalmente preparado. Ele comentou posteriormente, em um discurso privado que vazou, que havia ido a Roma \u201cs\u00f3 com as roupas necess\u00e1rias&#8230; N\u00e3o tinha chance! Nas casas de apostas de Londres, eu estava em 44\u00ba lugar. Vejam s\u00f3. A \u00fanica pessoa que apostou em mim ganhou muito dinheiro, claro!\u201d<\/p>\n<p>Ao entrar no conclave, havia tr\u00eas favoritos reconhecidos \u2013 Bergoglio n\u00e3o era um deles. Praticamente todo observador do Vaticano presumiu que, embora tivesse sido considerado junto com Ratzinger no conclave de 2005, o argentino n\u00e3o era mais uma op\u00e7\u00e3o forte. Quando Bergoglio surgiu como vencedor, a m\u00eddia mundial praticamente menosprezou. Um branco de origem europeia com 70 e tantos anos: que escolha radical! At\u00e9 dentro do Vaticano, ningu\u00e9m sabia bem o que esperar. \u201cIronicamente, achei que ele seria um desastre, do ponto de vista de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, porque ele n\u00e3o d\u00e1 entrevistas\u201d, admite Greg Burke, ex-rep\u00f3rter da Fox News (e membro laico da Opus Dei), contratado por Bento para ajudar nos esfor\u00e7os de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da Santa S\u00e9 depois do VatiLeaks. No entanto, o cinismo normalmente infal\u00edvel da m\u00eddia derreteu na presen\u00e7a de tanta simpatia pontifical. O papa cancelou a pr\u00f3pria assinatura do jornal, ligou para pessoas que lhe haviam mandado cartas (\u201c<em>Ciao, <\/em> Michele, aqui \u00e9 o Papa Francisco\u201d, disse a um italiano espantado) e falou coisas boas sobre ateus.<\/p>\n<p>No entanto, esse encanto disfar\u00e7ava a destreza de Bergoglio \u2013 e, se a situa\u00e7\u00e3o exige, crueldade \u2013 como operador. Elisabetta o chama de \u201canimal pol\u00edtico\u201d e, realmente, nos \u00faltimos dez meses, ele mostrou ser um l\u00edder astuto, capaz de conjurar aquela velha for\u00e7a autorit\u00e1ria se ela servir a um prop\u00f3sito maior. Francisco come\u00e7ou a mudar a composi\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio de Cardeais, onde italianos tradicionalmente eram excessivamente representados. Sua primeira rodada de nomea\u00e7\u00f5es incluiu cardeais do Haiti, Nicar\u00e1gua e Costa do Marfim; de seus 16 indicados votantes, nove eram da \u00c1sia, Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica. O cardeal Tarcisio Bertone, secret\u00e1rio de Estado do Vaticano durante o pontificado de Bento XVI e retratado como um esquematizador do poder nos documentos do VatiLeaks, apoiou cardeais conservadores como Guido Pozzo (respons\u00e1vel pelo contato com ultratradicionalistas) e Mauro Piacenza (que supervisionou o cl\u00e9rigo e era conhecido como firme apoiador do celibato dos padres, o que muitos acreditam que possa mudar com Francisco). Desde ent\u00e3o, ambos foram demovidos pelo papa. Francisco tamb\u00e9m substituiu Bertone pelo arcebispo Pietro Parolin, que disse em uma entrevista que o celibato dos padres n\u00e3o era um dogma da Igreja \u2013 o que significa que pode ser mudado.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos meses, Francisco tamb\u00e9m continuar\u00e1 se encontrando com os oito cardeais que nomeou para uma for\u00e7a tarefa especial de reforma da C\u00faria. Al\u00e9m disso, montou uma comiss\u00e3o para lhe aconselhar sobre a melhor forma de lidar com o problema da pedofilia dentro da Igreja, de medidas preventivas \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas. Consultores externos foram contratados para examinar as engrenagens do Banco do Vaticano, do qual Francisco j\u00e1 demitiu v\u00e1rios oficiais (inclusive o arcebispo de S\u00e3o Paulo, o brasileiro dom Odilo Scherer). Quando os bispos se reunirem no terceiro trimestre para o pr\u00f3ximo s\u00ednodo, ou assembleia geral, que se concentrar\u00e1 no tema da fam\u00edlia, ter\u00e3o de levar em considera\u00e7\u00e3o os resultados de um novo question\u00e1rio distribu\u00eddo a par\u00f3quias cat\u00f3licas pelo papa, pedindo opini\u00f5es sobre casamento homossexual, sexo pr\u00e9-matrimonial, div\u00f3rcio e contracep\u00e7\u00e3o. Para uma organiza\u00e7\u00e3o t\u00e3o rigidamente hier\u00e1rquica como a Igreja Cat\u00f3lica, esse aceno \u00e0 democracia \u00e9 profundo, e potencialmente crucial.<\/p>\n<p><span class=\"capitular\">E<\/span>m meu \u00faltimo domingo em Roma, retorno ao Vaticano para o Angelus semanal do papa, uma ora\u00e7\u00e3o curta feita de uma janela no Pal\u00e1cio Apost\u00f3lico. Fora da Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, comerciantes vendem de tudo, de passeios pela Capela Sistina a pinturas de Tupac, Bob Marley e, claro, do papa. Pergunto a um vendedor, um homem alto e careca de Belize, se o aumento do p\u00fablico com Francisco tem sido bom para os neg\u00f3cios. Ele faz uma careta e balan\u00e7a a cabe\u00e7a, depois responde em um ingl\u00eas perfeito: \u201cNah, esse cara, tudo o que ele faz \u00e9 falar sobre os pobres, ent\u00e3o est\u00e1 trazendo os turistas mais pobres de lugares como a Argentina. Essa gente n\u00e3o tem dinheiro! Quando Ratzinger era papa, os alem\u00e3es chegavam de \u00f4nibus. Eles s\u00e3o organizados, gastam! Agora, todo mundo quer desconto\u201d.<\/p>\n<p>Finalmente, o papa surge, acenando da janela distante, uma figura min\u00fascula do tamanho de uma am\u00eandoa. \u201cFratelli e sorelle, buongiorno [<em>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, bom dia<\/em>]\u201d, diz, aben\u00e7oando a todos n\u00f3s, a voz ecoando de alto-falantes escondidos e parecendo levemente divina. No final da ora\u00e7\u00e3o, come\u00e7a a chover \u2013 inicialmente s\u00f3 uma garoa fina, mas depois o c\u00e9u desaba. Quando termina, ele sai do roteiro e nos diz o quanto lhe desagrada n\u00e3o poder estar na <em>piazza<\/em> conosco neste tempo horr\u00edvel. Parece realmente estar falando a verdade.<\/p>\n<p>Ele se sente solit\u00e1rio l\u00e1 em cima? O livro de Paul Vallely descreve um homem que, quando n\u00e3o est\u00e1 entre as pessoas, leva uma exist\u00eancia solit\u00e1ria, como um monge, na qual \u201ccuida da vida interior e n\u00e3o tem realmente uma social\u201d. Essas s\u00e3o as palavras de um de seus assistentes mais pr\u00f3ximos de Buenos Aires, que acrescenta: \u201cSe voc\u00ea define amizade como se divertir com as pessoas, ent\u00e3o ele n\u00e3o tem amigos. Amizade \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica, e suas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o assim. As pessoas acreditam ser amigas dele, mas ele nunca vai jantar na casa delas\u201d.<\/p>\n<p>Na pra\u00e7a embaixo de chuva, a multid\u00e3o sa\u00fada seu novo amigo, o bacana Papa Francisco, at\u00e9 que ele volte para os mist\u00e9rios da cidade murada que agora comanda. Isso me faz lembrar outro momento da coletiva de imprensa no avi\u00e3o, quando um rep\u00f3rter tentou pression\u00e1-lo sobre o casamento gay e o aborto. E qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do santo papa sobre essas quest\u00f5es? O drible de craque de Francisco me pareceu brilhante. \u201c\u00c9 a da Igreja\u201d, disse simplesmente. \u201cSou um filho da Igreja.\u201d<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o acrescentou \u2013 porque n\u00e3o precisava \u2013 que agora \u00e9 o pai tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>+++LEIA MAIS:<\/p>\n<hr\/>\n<p class=\"text-muted\">*Mat\u00e9ria publicada originalmente em 13 de mar\u00e7o de 2024. Leia <strong>aqui<\/strong>.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/noticia\/a-suave-revolucao-de-papa-francisco-que-morreu-nesta-segunda-21-aos-88-anos\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Praticamente toda quarta-feira em Roma, fi\u00e9is e curiosos se juntam na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro para uma audi\u00eancia geral com o papa. Desde a elei\u00e7\u00e3o de Jorge Mario Bergoglio em mar\u00e7o, o p\u00fablico nos eventos papais triplicou para 6,6 milh\u00f5es de pessoas. 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