{"id":10607,"date":"2025-04-06T07:32:13","date_gmt":"2025-04-06T10:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mussicom.com\/ainda-estou-aqui-reabre-album-de-familia-manchado-pela-ditadura-militar\/"},"modified":"2025-04-06T07:32:13","modified_gmt":"2025-04-06T10:32:13","slug":"ainda-estou-aqui-reabre-album-de-familia-manchado-pela-ditadura-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/ainda-estou-aqui-reabre-album-de-familia-manchado-pela-ditadura-militar\/","title":{"rendered":"Ainda Estou Aqui reabre \u00e1lbum de fam\u00edlia manchado pela ditadura militar"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A ditadura militar foi um dos cap\u00edtulos mais tristes da hist\u00f3ria brasileira e o nosso cinema sempre tratou de representar o per\u00edodo, marcado pelo autoritarismo e a repress\u00e3o, das mais variadas formas, seja em formato documental, a exemplo de <strong><em>Cabra Marcado Para Morrer<\/em><\/strong> (1984), de <strong>Eduardo Coutinho<\/strong>, ou em fic\u00e7\u00f5es baseadas em fatos, como em <strong><em>Marighella<\/em><\/strong> (2019), de <strong>Wagner Moura<\/strong>.<\/p>\n<p>Centrado no efeito do poder aterrorizante, onipresente e sem rosto definido dos militares, <em><strong>Ainda Estou Aqui<\/strong><\/em>, novo trabalho de <strong>Walter Salles<\/strong> (<em>Central do Brasil<\/em>) \u2014 baseado na hist\u00f3ria real da fam\u00edlia do escritor <strong>Marcelo Rubens Paiva<\/strong>, e que <strong>chega ao cat\u00e1logo do Globoplay a partir deste domingo, dia 6 de abril<\/strong> \u2014, nos convida a abrir um \u00e1lbum de recorda\u00e7\u00f5es manchado pelos horrores do per\u00edodo.<\/p>\n<p>Como uma ironia triste, <strong><em>Ainda Estou Aqui<\/em><\/strong> come\u00e7a com uma reuni\u00e3o quente e calorosa entre familiares e amigos. Alguns momentos d\u00e3o pistas de que algo n\u00e3o est\u00e1 correto, mas o momento \u00e9 afetuoso e amistoso, uma pulsa\u00e7\u00e3o de vida e di\u00e1logo. A cena da fotografia em fam\u00edlia, que estampa o p\u00f4ster, ser\u00e1 ressignificada at\u00e9 o fim do longa, mas n\u00e3o sem antes ser sucedida por um ponto de virada claro, que ocorre quando <strong>Rubens Paiva<\/strong> (<strong>Selton Mello<\/strong>, <em>O Auto da Compadecida<\/em>) \u00e9 levado para interrogat\u00f3rio para nunca mais ser visto.<\/p>\n<p>No lar, ficam <strong>Eunice Paiva<\/strong>, interpretada por <strong>Fernanda Torres<\/strong> (<em>Terra Estrangeira<\/em>) \u2014 indicada \u00e0 categoria de Melhor Atriz no Oscar, de onde o longa saiu vencedor do pr\u00eamio de Melhor Filme Internacional \u2014, e seus cinco filhos, entre eles um ainda jovem <strong>Marcelo Rubens Paiva<\/strong>, que viria a se tornar o autor do livro hom\u00f4nimo utilizado para desenvolver o roteiro escrito por pelo pr\u00f3prio <strong>Walter Salles<\/strong> em conjunto com <strong>Murilo Hauser<\/strong> e <strong>Heitor Lorega<\/strong> \u2014 dupla vencedora do pr\u00eamio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza.<\/p>\n<p>Com a trag\u00e9dia da perda do patriarca, pai e marido, h\u00e1 uma quebra naquele mundo id\u00edlico dos <strong>Paiva<\/strong>. A casa se fecha, representando a chegada da opress\u00e3o. A presen\u00e7a da m\u00fasica, t\u00e3o vibrante no in\u00edcio, d\u00e1 lugar ao sil\u00eancio e \u00e0 ang\u00fastia, exigindo uma nova abordagem na filmagem, com c\u00e2meras mais fixas e espa\u00e7os escuros, que refletem a tens\u00e3o do per\u00edodo.\u00a0<\/p>\n<p>Vale destacar a forma com que os agentes da ditadura s\u00e3o retratados. Em vez de serem mostrados como brutais, <strong>Walter Salles<\/strong> opta por apresent\u00e1-los como seres complexos, tornando as cenas de viol\u00eancia ainda mais perturbadoras. N\u00e3o que <em><strong>Ainda Estou Aqui<\/strong><\/em>explore a viol\u00eancia f\u00edsica; ela \u00e9 trabalhada de forma mais psicol\u00f3gica, ganhando ares de um terror angustiante. Diante da presen\u00e7a constante deste inimigo \u201camig\u00e1vel\u201d na casa, resta a <strong>Eunice<\/strong> represar sentimentos e esconder a verdade dos filhos.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Fernanda Torres<\/strong> est\u00e1 no auge de sua carreira em uma atua\u00e7\u00e3o arrebatadora e assustadoramente emocionante. Atrav\u00e9s de olhares e gestos, a atriz consegue transmitir sentimentos e dor, al\u00e9m de viver momentos de dar calafrios. Suas cenas no Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) s\u00e3o sufocantes e revoltantes. Os sons ao fundo lembram algo j\u00e1 feito em <strong><em>Zona de Interesse<\/em><\/strong>, longa vencedor do Oscar de Melhor Som no Oscar 2024, em que n\u00f3s sabemos o que acontece por ali, embora nunca sejamos testemunha ocular daquele terror.<\/p>\n<p>Apesar da hist\u00f3ria tr\u00e1gica, o longa de <strong>Salles<\/strong> n\u00e3o for\u00e7a uma resposta emocional do p\u00fablico; ao contr\u00e1rio, a conten\u00e7\u00e3o nas atua\u00e7\u00f5es e na dire\u00e7\u00e3o cria uma cumplicidade com os personagens, permitindo que o p\u00fablico sinta a arbitrariedade da vida e do poder.<\/p>\n<p>O filme tamb\u00e9m se destaca por sua abordagem \u00fanica, que contrasta com a fragmenta\u00e7\u00e3o da narrativa t\u00edpica das produ\u00e7\u00f5es modernas. Em tempos de <em>streaming<\/em> e conte\u00fado r\u00e1pido, <em><strong>Ainda Estou Aqui<\/strong><\/em> prop\u00f5e uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica que valoriza o tempo e a profundidade, permitindo que o p\u00fablico se conecte verdadeiramente com os personagens e suas hist\u00f3rias. \u00c9 realmente como se estiv\u00e9ssemos sentados diante de algum membro dos Paiva que est\u00e1 nos contando essa hist\u00f3ria manchada pela ditadura militar.<\/p>\n<p>No entanto, <em><strong>Ainda Estou Aqui<\/strong><\/em> n\u00e3o se limita a contar a hist\u00f3ria de <strong>Eunice<\/strong> ou o desaparecimento de <strong>Rubens<\/strong>, refletindo tamb\u00e9m sobre uma era marcada pela luta e a busca por um Brasil mais justo. Em suma, o longa \u00e9 mais do que uma obra cinematogr\u00e1fica sobre um per\u00edodo sombrio da hist\u00f3ria brasileira, \u00e9 uma reflex\u00e3o profunda sobre a dor, a perda e a resili\u00eancia humana diante da opress\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Walter Salles<\/strong>, com sua sensibilidade caracter\u00edstica j\u00e1 conhecida por n\u00f3s brasileiros, transforma a hist\u00f3ria real da fam\u00edlia <strong>Paiva<\/strong> em um retrato \u00edntimo e, ao mesmo tempo, universal, resgatando mem\u00f3rias dolorosas da ditadura militar e reiterando a import\u00e2ncia de n\u00e3o esquecermos os erros do passado, propondo que a dor das v\u00edtimas de regimes autorit\u00e1rios seja compreendida e respeitada, evocando ainda a necessidade de se lutar pela preserva\u00e7\u00e3o da democracia de forma que essa mancha que, infelizmente, nunca ir\u00e1 sumir, ao menos nunca mais ganhe novas doses de tinta.\u00a0<\/p>\n<p><iframe title=\"Ainda Estou Aqui | Trailer Oficial | 7 de novembro nos cinemas\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_NzqP0jmk3o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h4\/>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M: <\/strong><em>Ainda Estou Aqui<\/em>, vencedor do primeiro Oscar brasileiro, estreia no Globoplay<\/p>\n<hr\/>\n<blockquote class=\"amdb-polls\" contenteditable=\"false\" data-sid=\"\/polls\/15\/embed\/\">\n<p>Oscar 2025: Quem vence o pr\u00eamio de Melhor Filme? Vote no seu favorito!<\/p>\n<ul>\n<li>Ainda Estou Aqui<\/li>\n<li>Anora<\/li>\n<li>O Brutalista<\/li>\n<li>Um Completo Desconhecido<\/li>\n<li>Conclave<\/li>\n<li>Duna: Parte 2<\/li>\n<li>Emilia P\u00e9rez<\/li>\n<li>O Reformat\u00f3rio Nickel<\/li>\n<li>A Subst\u00e2ncia<\/li>\n<li>Wicked<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/ainda-estou-aqui-critica-estreia-globoplay\/\">rollingstone.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ditadura militar foi um dos cap\u00edtulos mais tristes da hist\u00f3ria brasileira e o nosso cinema sempre tratou de representar o per\u00edodo, marcado pelo autoritarismo e a repress\u00e3o, das mais variadas formas, seja em formato documental, a exemplo de Cabra Marcado Para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, ou em fic\u00e7\u00f5es baseadas em fatos, como em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":10608,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-10607","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10607"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10607\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mussicom.com\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}